Tilápia se reproduz rapidamente e atinge a maturidade sexual, a partir dos nove meses de idade.Foto: Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional/Reprodução/ND
O que acontece quando um peixe se reproduz rápido demais dentro de um tanque fechado? Em um pesqueiro do Oeste de Santa Catarina, a tilápia se proliferou a ponto de começar a atrapalhar a pesca de espécies maiores e a solução encontrada foi liberar a retirada da espécie sem limite de quilos.
A medida já resultou na retirada de cerca de 2,5 toneladas de tilápia e deve continuar nos próximos dias. A expectativa é remover mais 1,5 tonelada, conforme a procura dos pescadores.
A proposta, considerada inusitada e estratégica, tem atraído praticantes da pesca esportiva de toda a região.
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A iniciativa começou em dezembro de 2025, mas foi suspensa temporariamente para tratamento da água dos tanques. Com o fim do período de carência no início de fevereiro, a liberação voltou a valer e deve seguir até o fim de março.
Por que a tilápia prolifera tão rápido?
O pesquisador em piscicultura da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), Bruno Correa da Silva, explica que a tilápia tem uma reprodução extremamente eficiente.
“A tilápia desova praticamente o ano todo. Na região Sul, por ter um inverno mais intenso, isso ocorre de maneira mais parcelada”, afirma.
Pescador de Xanxerê já levou para casa mais de 200 quilos.Foto: Arquivo pessoal/ND Mais
A reprodução acontece, principalmente, quando a água está acima de 22 °C, o que faz com que o período mais intenso ocorra entre setembro e abril.
O problema é a alta taxa reprodutiva. Esse peixe de água doce se reproduz rapidamente e atinge a maturidade sexual, a partir dos nove meses de idade.
“Ela pode desovar uma vez por mês ou a cada 20 dias. Em cada uma pode liberar até 2 mil ovos ou óvulos por quilo de fêmea, que serão fecundados pelos machos”.
Por isso, em sistemas de produção comercial, a recomendação é evitar a presença de fêmeas.
“A orientação no cultivo profissional é povoar tanques com alevinos revertidos, ou seja, praticamente apenas machos, justamente para evitar essa proliferação”, explica.
As tilápias permanecem vivas no tanque durante a pescaria e depois seguem para a caixa térmica com gelo.Foto: Arquivo pessoal/ND Mais
Outra prática comum é realizar limpezas periódicas nos viveiros, com a retirada da água e reposição controlada dos peixes.
Segundo o pesquisador, o excesso populacional não representa um problema sanitário, mas pode causar desequilíbrio no ambiente.
“Quando há muita biomassa no tanque, aumenta o consumo de oxigênio e pode ocorrer mortalidade de outras espécies”, explica.
Por que a tilápia atrapalha a pesca esportiva
Segundo o sócio-proprietário do Pesqueiro Paiol Santa Madre, Adriano Diniz Rodrigues, a tilápia é colocada nos tanques inicialmente para servir de alimento aos peixes predadores.
“Soltamos a tilápia para que seja alimento para os predadores maiores. Só que ela cresce e se prolifera rapidamente e, se deixar, acaba atrapalhando a pesca esportiva”, afirma.
Cena mostra quantidade de tilápias retiradas no pesqueiro.Vídeo: @pesqueiropaiolsantamadre/ND Mais
Hoje, o pesqueiro trabalha com 18 espécies de peixes, com exemplares que variam de 2 kg a 42 kg. No total, são mais de 16 toneladas de peixes, sendo cerca de 8,5 toneladas de tambas.
Entre as espécies presentes estão:
- Peixes de couro: jaú, pintado e cachara;
- Peixes de escama: tambacu, tambatinga, patinga, dourado, carpa cabeçuda e carpa húngara.
Na prática, o problema aparece durante a pescaria. Quando os pescadores lançam ração com cevadeira, as tilápias são atraídas rapidamente e acabam sendo fisgadas antes das espécies maiores, que são o principal objetivo da pesca esportiva.
Passar rede não é uma tarefa simples
Segundo o empreendedor, passar uma rede para retirar as tilápia e comercializar a um frigorífico é inviável pela quantidade de peixes e a dimensão do tanque.
O tanque principal tem 130 metros por 70 metros, dimensões maiores que um campo de futebol oficial, e abriga milhares de peixes.
“Não tem como manejar isso. O tanque é muito grande e não existe rede que aguente todos esses peixes”, explica.
Pescador comemora captura de 15 quilos de tilápia no pesqueiro em SC.Vídeo: @pesqueiropaiolsantamadre/ND Mais
Além disso, o procedimento exigiria reduzir o nível da água, contratar mão de obra e suspender o funcionamento do pesqueiro.
“Eu teria que abaixar o tanque e depois encher novamente. O pesqueiro ficaria fechado por cerca de 15 dias, o que gera um custo alto. Então, para nós, é mais fácil liberar a captura”, afirma.
O que aconteceria se essas tilápias não fossem retiradas?
O biólogo e professor com especialização em Educação Ambiental, Leonardo de Barros, explica que a tilápia tem valor comercial para alimentação, mas não é tão valorizada na pesca esportiva.
Segundo ele, que é morador de Chapecó e também pescador esportivo, durante a pesca com cevadeira, a espécie se alimenta das rações, fazendo com que “peixes mais esportivos como Tambaqui, Surubim, Cachara não cheguem a tempo. Isso frustra o pescador”.
Outro fator é o comportamento do peixe. “A tilápia, normalmente, não proporciona aquelas brigas intensas que muitos pescadores buscam na pesca esportiva”, explica.
Do tanque à mesa: liberação da tilápia já rendeu mais de 200 kg a pescador do Oeste.Foto: Arquivo pessoal/ND Mais
O biólogo também destaca que a espécie se adapta facilmente a ambientes fechados.
“Ela domina esses ambientes porque se reproduz rápido e se adapta muito bem ao clima. Isso pode virar um desafio tanto em tanques quanto em rios”, afirma.
Segundo ele, uma superpopulação pode causar impactos econômicos na pesca esportiva.
Além da competição por alimento, o excesso de peixes aumenta o consumo de oxigênio na água.
Tilápia domina ambientes e se reproduz facilmente.Foto: Divulgação/E-food/ND Mais
“Uma superpopulação pode diminuir drasticamente o oxigênio do tanque, prejudicando o desenvolvimento de outros peixes e até causar mortalidade”, explica.
Estratégia ou necessidade?
O empresário Adriano admite que a medida também acabou se tornando uma estratégia para atrair novos pescadores.
“Não vamos falar que não. Muita gente veio pescar tilápia em dezembro e acabou virando nosso cliente”, afirma.
Segundo ele, muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade de fisgar peixes grandes.
“Muita gente nunca tinha pegado um peixe de 20 kg ou 40 kg. Eles não conheciam a pesca esportiva e acabaram gostando da modalidade”, conta.
A quantidade capturada varia bastante. Alguns pescadores chegam a retirar 20 kg ou até 50 kg, enquanto outros pegam apenas alguns exemplares — e há também quem não consiga fisgar nenhum peixe.
A quantidade capturada varia bastante entre os pescadores esportivos.Foto: Montagem/ND Mais
“Essa é a realidade da pesca esportiva. Às vezes você pega bastante, às vezes não pega nada”, diz.
Adriano é natural de Toledo, mas vive em Santa Catarina há mais de dez anos, período em que trabalha com piscicultura. “Tenho um amor gigante por isso”, afirma.
O próximo passo é de fortalecer a pesca esportiva em Santa Catarina. Segundo Adriano, já há uma articulação para montar uma associação, voltada a mostrar a força do setor e buscar melhores na atividade. “Para que possamos trabalhar de uma maneira muito mais agradável e melhor para todos”, finaliza.
Como funciona a retirada de tilápia
No Pesqueiro Paiol Santa Madre, o sistema funciona de forma simples. Durante o período de liberação, o cliente paga apenas a diária da pesca esportiva e pode levar todas as tilápias fisgadas sem custo adicional.
No modelo tradicional de pesque e pague, o peixe normalmente é cobrado por quilo. Neste caso, não há limite de retirada da espécie.
Retirada de tilápias movimenta pescadores no Oeste.Vídeo: @pesqueiropaiolsantamadre/ND Mais
Atualmente, a diária custa R$ 70 por pessoa.
Também é possível reservar:
- casinha por R$ 30 ao dia (até dois pescadores)
- churrasqueira por R$ 20
O pesqueiro fica no distrito de Fazenda Zandavalli, com acesso pela SC-283, e oferece estrutura com cadeiras, lixeiras, internet e iluminação para pesca noturna.

