Rrevoada de pássaros em Urupema, a espetacular migração anual de mais de 20 mil papagaios-charão, na Serra catarinense Foto: Divulgação/Marlon Sá Molin/ND
Todo entardecer, entre março e julho, algo extraordinário acontece no céu de Urupema. O som chega antes da imagem, um barulho crescente, como um temporal se aproximando. Então aparecem: milhares de aves verdes cruzando o horizonte em formações sincronizadas, preenchendo o céu com movimento, cor e som até onde a vista alcança.
É a revoada do papagaio-charão, um dos fenômenos naturais mais impressionantes do Sul do Brasil. E acontece em Urupema, a cidade mais fria do país.
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Papagaios – Divulgação
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Rrevoada de pássaros em Urupema, a espetacular migração anual de mais de 20 mil papagaios-charão, na Serra catarinense – Divulgação/Marlon Sá Molin/ND
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Papagaios-charão em Urupema – Fabio Olmos/Divulgação
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Espécie vem em busca do pinhão – Raphael Zulianello/Divulgação
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Papagaio-charão migra para Urupema – Raphael Zulianello/Divulgação
O espetáculo que só existe em Urupema
Um bando de mais de 20 mil pássaros, vindos do Rio Grande do Sul, cruza o céu da cidade diariamente para se alimentar da semente da araucária.
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O charão é a única espécie de papagaio migratória do país, viajando do Rio Grande do Sul para a Serra catarinense em busca das sementes do pinheiro-brasileiro. E é justamente em Urupema, onde a Mata de Araucária é mais preservada, que a concentração de aves é mais intensa e mais impressionante.
O biólogo Ari Fernando Raddatz, proprietário da Ecopousada Rio dos Touros e um dos pioneiros na observação de aves na região, acompanha o fenômeno há mais de duas décadas. “Quando cheguei aqui e vi os papagaios revoando, pensei: ‘como é que ninguém fala disso?’. Era algo maravilhoso e pouco conhecido. É um fenômeno imperdível e único no mundo. Posso afirmar que o espetáculo do papagaio-charão só ocorre aqui dessa forma tão especial”, destaca.
Época de migração do papagaio-charão
As primeiras aves começam a chegar no fim de fevereiro, ainda em pequenos grupos. O pico da migração ocorre entre abril e maio, quando milhares de pássaros se concentram na cidade. A permanência segue até junho, período em que retornam ao Rio Grande do Sul para reprodução.
As aves vão chegando à cidade conforme os pinhões vão amadurecendo. O alimento, que é a base de pratos típicos da região serrana também é o prato principal do papagaio-charão neste período do ano.
A revoada dos papagaios pode ser observada principalmente por volta das 7h e das 17h, horários em que os papagaios se deslocam entre áreas de descanso, em eucaliptos, e alimentação, nas araucárias.
A relação entre o papagaio-charão e a araucária
A relação entre o papagaio-charão e a araucária é uma das mais fascinantes da fauna brasileira, e uma das mais frágeis. O charão é uma ave ameaçada de extinção, já que é muito dependente das araucárias para se alimentar durante o outono e o inverno. Como se concentram todas em um único local pequeno, qualquer situação pode colocar em risco a existência da espécie.
Mas o papagaio não apenas consome a araucária, ele também a preserva. Além de se alimentar do pinhão, o papagaio-charão também é um importante dispersor de sementes. Enquanto come, ele deixa cair o alimento, que se espalha pela natureza e pode fazer brotar novas árvores.
A reserva que protege o fenômeno
Desde 2018, Urupema possui uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), Papagaios de Altitude. É uma unidade de conservação de mais de 36 hectares, equivalente a 43 campos de futebol, que ajuda a proteger os ecossistemas importantes para duas espécies: o papagaio-charão e o papagaio-de-peito-roxo.
A criação da RPPN foi um passo fundamental para garantir que o fenômeno continue acontecendo ano após ano, e que Urupema siga sendo o único lugar do mundo onde esse espetáculo pode ser visto.
O festival que nasceu da revoada
O festival começou de forma simples em 2010, com poucos participantes. Hoje, chega à 13ª edição e mobiliza não só Urupema, mas também cidades vizinhas.
Anualmente, entre março e agosto, o céu da Serra catarinense é transformado por um verdadeiro balé aéreo. O Festival dos Papagaios de Urupema, realizado pelo IPAC (Instituto de Pesquisas de Aplicação Ambiental e Cultural), reúne observadores de aves, pesquisadores, fotógrafos e turistas de todo o Brasil e do exterior para presenciar o fenômeno de perto.

Gabriela Bornhausen Colaboradora
Gabriela Bornhausen é jornalista e escreve para o ND Mais, com foco nos principais assuntos da Serra de Santa Catarina, incluindo destaques do frio e do inverno em Lages, São Joaquim, Urubici, Bom Jardim da Serra e Urupema. Curiosa, conectada à região e atenta aos acontecimentos locais, aborda temas de interesse regional, comportamento, cotidiano e pautas ligadas à comunidade. Atua no jornalismo desde 2022 e é formada pela Uniplac (Universidade do Planalto Catarinense), além de tecnóloga em Marketing. Possui experiência em comunicação, produção de conteúdo, assessoria de marketing e copywriting, com conhecimento aprofundado em estratégias de comunicação e linguagem digital. Leia mais ▾
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