Florianópolis virou a ‘Ilha do Silício’: tecnologia movimenta R$ 12,8 bilhões e transforma a economia da capital catarinenseFoto: Reprodução/ND Mais
Enquanto milhares de turistas lotam as praias de Florianópolis a cada verão, a ‘Ilha do Silício’ trabalha silenciosamente durante os 365 dias do ano. Longe da areia e do mar, programadores, engenheiros, designers e empreendedores desenvolvem softwares, plataformas e soluções tecnológicas que movimentam bilhões de reais e colocam a capital catarinense entre os principais polos de inovação do Brasil.
Sem grandes fábricas ou chaminés, Florianópolis construiu uma economia baseada no conhecimento. O que antes era reconhecido principalmente pelo turismo hoje também se destaca pela força da tecnologia, setor que movimentou R$ 12,8 bilhões em 2024 e responde por aproximadamente 25% do PIB (Produto Interno Bruto) da cidade.
Esse protagonismo ganhou reconhecimento oficial em setembro de 2024, quando Florianópolis recebeu, por meio da Lei nº 14.955, o título de Capital Nacional das Startups.
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A legislação reconhece uma realidade construída ao longo de décadas: a capital catarinense concentra a maior densidade de startups do país e consolidou um dos ecossistemas de inovação mais relevantes da América Latina.
Mas como uma ilha conhecida pelas belezas naturais conseguiu se transformar em uma referência nacional em tecnologia?
Economia do Estado catarinense movida pela inovação
Segundo o Observatório ACATE, Florianópolis abriga atualmente 6.433 empresas de tecnologia, responsáveis por mais de 45,6 mil empregos diretos.
O setor movimentou R$ 12,8 bilhões em 2024, colocando a cidade na 10ª posição entre os maiores polos tecnológicos do Brasil em faturamento, à frente de capitais como Recife, Salvador e Fortaleza.
O setor de tecnologia de Florianópolis é 10° maior do Brasil em faturamentoFoto: Observatório ACATE/Reprodução/ND Mais
Mais do que o tamanho do mercado, chama atenção o peso da tecnologia na economia local
Considerando o PIB municipal, 25% de toda a riqueza produzida em Florianópolis vem do setor de tecnologia. O índice coloca a capital catarinense como a segunda cidade brasileira com maior participação da tecnologia no PIB, atrás apenas de Barueri (27%) e à frente de Indaiatuba (24%).
Florianópolis é a segunda no ranking de participação do setor de tecnologia no PIB em 2021Foto: Observatório ACATE/Reprodução/ND Mais
Quando comparada às maiores capitais do país, a diferença fica ainda mais evidente. Em São Paulo, a participação da tecnologia representa cerca de 12% do PIB municipal. No Rio de Janeiro, esse percentual é de aproximadamente 8%.
Os indicadores mostram que Florianópolis desenvolveu uma economia fortemente baseada na inovação, tornando o setor tecnológico um dos principais pilares do desenvolvimento econômico local.
Florianópolis com a maior densidade de startups do Brasil
O reconhecimento como Capital Nacional das Startups não veio apenas pelo volume de empresas.
Florianópolis reúne atualmente a maior densidade de startups do país. São aproximadamente 12 empresas de tecnologia para cada mil habitantes, um índice que demonstra a concentração de negócios inovadores muito acima da média brasileira.
Esse ambiente é resultado da combinação entre universidades, centros de pesquisa, incubadoras, aceleradoras, investidores e entidades que, ao longo de décadas, ajudaram a criar um ecossistema favorável ao empreendedorismo.
A presença da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o trabalho desenvolvido pela ACATE desde 1986 e o fortalecimento de uma cultura voltada para inovação fizeram com que a cidade passasse a atrair talentos, investimentos e empresas capazes de competir em mercados nacionais e internacionais.
UFSC e ACATE Foto: Montagem Canva/ND Mais
Investimentos mostram um ecossistema cada vez mais maduro
A evolução dos investimentos reforça essa transformação. Somente em 2025, startups e empresas de Florianópolis captaram mais de R$ 787 milhões em investimentos, segundo levantamento do Observatório ACATE. Dados mostram que o ecossistema entrou em uma nova fase de maturidade.
Se anos atrás predominavam aportes menores voltados à validação de ideias, hoje a cidade atrai operações mais robustas de venture capital, com investidores apostando na expansão de empresas que já demonstraram capacidade de crescimento.
Startups e empresas de Florianópolis captaram mais de R$ 787 milhões em 2025Foto: UX Indonesia/Unsplash
Diversidade dos investimentos
Além das grandes rodadas, Florianópolis continua registrando operações voltadas para empresas em estágio inicial, demonstrando que o ambiente permanece fértil tanto para quem está começando quanto para startups que já alcançaram fases mais avançadas de desenvolvimento.
Para especialistas, essa combinação é um dos sinais mais importantes da saúde do ecossistema, já que permite a renovação constante de empresas e fortalece a cadeia de inovação.
Crescimento acima da média
Mesmo em um cenário econômico desafiador, Florianópolis manteve crescimento consistente. Entre 2020 e 2024, o faturamento do setor tecnológico cresceu 22,7%, desempenho que coloca a capital catarinense como a cidade com melhor resultado entre as capitais da Região Sul.
No ranking nacional entre os dez principais municípios da tecnologia, Florianópolis ficou atrás apenas de Belo Horizonte, Brasília e Manaus.
Somente em 2024, o crescimento foi de 6,8%, consolidando o município como o quarto melhor desempenho entre os grandes polos tecnológicos brasileiros naquele ano.
Os dados também mostram que a participação da cidade no faturamento nacional da tecnologia permaneceu estável em torno de 1,5%, mesmo com a expansão do setor para outras regiões do país.
Um setor que também fortalece os cofres públicos
O avanço da tecnologia não impacta apenas empresas e investidores. Entre 2019 e 2024, a arrecadação do ISS (Imposto Sobre Serviços) proveniente das empresas de tecnologia cresceu de R$ 44,4 milhões para R$ 146,4 milhões, um aumento de aproximadamente 230% em cinco anos.
O desempenho demonstra que o crescimento da inovação também gera reflexos diretos na arrecadação municipal e na capacidade de investimento do poder público.
A ‘Ilha do Silício’ vai sustentar o crescimento?
Os indicadores mostram que Florianópolis deixou de ser apenas um polo emergente para se consolidar entre os principais centros tecnológicos do país.
O reconhecimento como Capital Nacional das Startups, o crescimento contínuo do faturamento, a capacidade de atrair investimentos e a elevada participação da tecnologia no PIB colocam a cidade em uma posição de destaque no cenário brasileiro.
Ao mesmo tempo, o próprio avanço do setor traz novos desafios.
- Necessidade de formar mão de obra qualificada;
- Ampliar a infraestrutura urbana;
- Melhorar a mobilidade;
- Manter a competitividade diante de outros polos de inovação.
Tudo isso será determinante para que Florianópolis continue liderando esse movimento.
Por enquanto, os números mostram que a cidade já conseguiu algo raro no Brasil: construir uma economia baseada no conhecimento, onde o principal ativo não está nas indústrias tradicionais, mas na capacidade de transformar pesquisa, criatividade e inovação em empresas que movimentam bilhões de reais.
Se antes Florianópolis era conhecida principalmente como a ilha das praias, hoje também se consolida como a “Ilha do Silício” brasileira — um lugar onde as maiores riquezas não saem de chaminés, mas das ideias.

