25 anos do 11 de setembro: 2.977 mortos, 900.000 vidas perdidas nas guerras subsequentes, US$8 trilhões gastos. O Afeganistão voltou ao Talibã. Os EUA chegam ao aniversário em guerra com o Irã. O placar de 25 anos não cabe numa cerimôniaFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Hoje, 11 de setembro de 2026, o mundo para por alguns minutos. Nova York. Washington. A Pensilvânia. Vinte e cinco anos depois, 2.977 mortos são lembrados em cerimônias que se tornaram rituais — tão incorporados ao calendário dos EUA quanto o Dia do Trabalho e o Natal.
O que raramente acontece nessas cerimônias é um balanço honesto. Uma avaliação fria de o que Bin Laden queria, o que os EUA prometeram fazer em resposta, e o que de fato aconteceu nos 25 anos seguintes.
Este texto tenta esse balanço. Não é confortável para nenhum dos dois lados.
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O que Bin Laden disse que queria
Osama Bin Laden não era sutil sobre seus objetivos estratégicos. Ele os declarou em vídeos, em cartas e em entrevistas ao longo dos anos anteriores e posteriores ao 11 de setembro.
O primeiro objetivo era religioso e político: expulsar os EUA e as forças ocidentais das “terras sagradas” do Islã — começando pela Arábia Saudita, onde bases americanas existiam desde a Guerra do Golfo de 1991. Era um objetivo que Bin Laden perseguia desde antes de 2001.
O segundo objetivo era mais sofisticado — e é aquele que 25 anos depois merece atenção específica. Bin Laden havia estudado a história soviética no Afeganistão.
Os EUA haviam financiado a resistência afegã contra a URSS nos anos 1980, ajudando a sangrar o exército soviético numa guerra longa e cara que contribuiu para o colapso econômico da União Soviética. Bin Laden queria fazer o mesmo com os americanos.
Em outubro de 2004, dias antes da eleição presidencial americana, Bin Laden lançou um vídeo que na época muitos descartaram como delírio de um terrorista encurralado. Uma das frases centrais: “Estamos continuando esta política de sangrar a América até o ponto da falência.”
Não era retórica vazia. Era a articulação explícita de uma estratégia que Bin Laden havia pensado por anos: forçar os EUA a entrar em guerras caras e sem fim no mundo muçulmano, drenar seus recursos, esgotar sua vontade e eventualmente forçar uma retirada humilhante — como havia acontecido com os soviéticos no Afeganistão.
O que os EUA prometeram
George W. Bush, num discurso ao Congresso nove dias depois do 11 de setembro, prometeu que a “guerra ao terror” não terminaria até que todo grupo terrorista de alcance global fosse encontrado, detido e derrotado. Era uma promessa de escopo ilimitado — geograficamente, temporalmente e financeiramente.
A CIA capturaria ou mataria Bin Laden. O Afeganistão seria libertado do Talibã e transformado numa democracia. O Iraque — que não tinha relação com o 11 de setembro mas foi enquadrado na narrativa da “guerra ao terror” — seria libertado de Saddam Hussein e suas armas de destruição em massa inexistentes.
O mundo mudaria. O terrorismo seria derrotado. A democracia avançaria no Oriente Médio. A América seria mais segura.
O placar de 25 anos
Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de setembro, o custo para os contribuintes americanos da guerra ao terror está se aproximando de US$ 10 trilhões.
Os custos iniciais dos dois conflitos no Iraque e no Afeganistão foram de mais de US$ 8 trilhões. Outros US$ 2 trilhões serão incorridos pelos gastos militares americanos após o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel e os conflitos no Iêmen e no Irã.
Para calibrar essa cifra: o PIB inteiro do Brasil, a décima maior economia do mundo, é de aproximadamente US$ 2,1 trilhões. Os EUA gastaram o equivalente a quatro economias brasileiras nas guerras do pós-11/9.
Segundo o projeto Custos de Guerra da Universidade Brown, as intervenções militares que coletivamente conhecemos como Guerra Global ao Terror levaram à morte de mais de 900.000 pessoas e custaram aos Estados Unidos mais de US$ 8 trilhões. O Afeganistão e o Iraque terminaram em fracasso.
O Afeganistão: os EUA invadiram em outubro de 2001 com o objetivo declarado de derrubar o Talibã e desmantelar a Al-Qaeda. Lutaram por 20 anos. Em agosto de 2021, retiraram as tropas deixando para trás US$ 7 bilhões em equipamentos militares — e o Talibã retomou o poder em 72 horas. O mesmo Talibã que estava lá no começo estava lá no fim, mais bem equipado.
O Iraque: os EUA invadiram em março de 2003, retiraram-se em 2011, voltaram em 2014 para combater o ISIS — que havia surgido no vácuo de poder criado pela invasão —, e ainda têm presença militar no país em 2026. O Iraque de 2026 é governado por forças políticas próximas ao Irã — o principal adversário regional dos EUA.
O que Bin Laden acertou — e o que errou
Aqui está onde o balanço fica desconfortável.
Bin Laden disse que sangraria a América até a falência. Os EUA não estão falidos — mas acumularam US$ 35 trilhões em dívida nacional, parte significativa gerada pelas guerras do pós-11/9. Bin Laden disse que os EUA seriam expulsos das terras muçulmanas.
Os EUA saíram do Afeganistão humilhados — exatamente como os soviéticos em 1989. Bin Laden disse que a guerra ao terror se tornaria um conflito sem fim. Os EUA estão, 25 anos depois, em guerra com o Irã — o mais recente capítulo da mesma narrativa regional que ele ajudou a desencadear.
Mas Bin Laden também errou em coisas fundamentais. Ele queria unificar o mundo muçulmano contra os EUA — não aconteceu.
Os países muçulmanos não se uniram. A Arábia Saudita, o Qatar, os Emirados e o Kuwait continuaram aliados americanos. Ele queria derrubar os regimes “apóstatas” da região — não derrubou nenhum diretamente.
Ele queria estabelecer um califado — o ISIS tentou em 2014 e foi destruído pela coalizão liderada pelos próprios EUA com apoio de países muçulmanos.
E o mais fundamental: Bin Laden está morto desde 2 de maio de 2011, quando forças especiais americanas o localizaram em Abbottabad, no Paquistão, e o executaram. A Al-Qaeda como organização foi drasticamente degradada. Bin Laden pessoalmente perdeu.
O vencedor que ninguém previu
Há uma pergunta que raramente aparece nas análises de aniversário do 11 de setembro: se não foram os EUA nem a Al-Qaeda os grandes vencedores dos últimos 25 anos, quem foi?
A resposta é a China.
Em setembro de 2001, o PIB chinês era de aproximadamente US$ 1,3 trilhão — a sexta maior economia do mundo. Em setembro de 2026, o PIB chinês é de aproximadamente US$ 18 trilhões — a segunda maior economia do mundo, em acelerada aproximação com os EUA.
Durante os 20 anos em que os EUA gastavam atenção, recursos militares e capital político no Afeganistão e no Iraque, a China construía portos, estradas, fábricas, universidades e acordos comerciais em todo o mundo em desenvolvimento.
Enquanto Washington estava obcecado com Fallujah e Kandahar, Pequim estava assinando acordos de infraestrutura na África, na América Latina e no Sudeste Asiático.
A China não participou da guerra ao terror. Não enviou tropas. Não sofreu baixas. Não gastou trilhões. Simplesmente cresceu — no vácuo estratégico criado pela obsessão americana com o Oriente Médio.
Se Bin Laden tivesse conseguido intencionalmente redirecionar a atenção americana para longe da China durante duas décadas críticas, não teria conseguido um resultado mais favorável para os adversários de longo prazo dos EUA do que o que de fato aconteceu.
O mundo de 2026 e o fio que conecta tudo
Amanhã é o 11 de setembro de 2026. Os EUA estão em guerra com o Irã. Os Houthis do Iêmen — apoiados pelo Irã — atacaram a Saudi Aramco ontem. A zona de exclusão iraniana no Estreito de Ormuz ameaça o comércio global. O custo das guerras do pós-11/9 está se aproximando de US$ 10 trilhões.
Bin Laden queria que os EUA ficassem presos em guerras sem fim no Oriente Médio. Vinte e cinco anos depois, os EUA estão presos em guerras sem fim no Oriente Médio.
Ele queria que o custo fosse insustentável. US$ 10 trilhões é um número que qualquer definição razoável de “insustentável” inclui.
Ele queria que o prestígio americano fosse corroído. Pesquisas globais mostram que a imagem dos EUA no mundo é mais baixa hoje do que era em setembro de 2001.
Bin Laden está morto. A Al-Qaeda está degradada. O Califado do ISIS foi destruído. Esses são fatos que merecem ser reconhecidos.
Mas quando um terrorista com meio milhão de dólares e 19 homens conseguiu provocar um poder nuclear a gastar US$ 10 trilhões, matar 900 mil pessoas, invadir dois países, sair de ambos sem vitória definitiva e chegar ao 25º aniversário ainda em guerra na mesma região — o placar não é de vitória limpa para nenhum dos lados.
É, como tantas coisas na geopolítica, mais complicado do que as cerimônias de amanhã vão conseguir dizer.

