A viagem de Lula aos EUA abriu canais de diálogo, mas não impediu o avanço das medidas comerciais americanas.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
A viagem de Lula aos EUA deveria marcar o início de uma distensão entre Brasília e Washington. Pelo menos essa foi a narrativa construída pelo governo brasileiro após o encontro entre o presidente brasileiro e Donald Trump, a criação de um grupo bilateral de trabalho e a intensificação das negociações comerciais ao longo dos últimos meses.
Mas o relatório divulgado nesta semana pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos conta uma história diferente. Depois de meses de diálogo, Washington concluiu sua investigação sobre o Brasil afirmando que o país continua adotando práticas consideradas “irrazoáveis” e que restringem o comércio americano. Como consequência, o governo Trump propôs uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros e manteve praticamente intacta a lista de críticas que vinha apresentando desde 2025.
O episódio expõe uma realidade desconfortável para o Palácio do Planalto. O governo brasileiro parece ter apostado que o principal obstáculo era político. A lógica era relativamente simples: aproximar presidentes, abrir canais de diálogo e reduzir a temperatura do relacionamento bilateral.
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O problema é que Washington está demonstrando enxergar a situação de forma muito diferente. O relatório do USTR não se limita a discutir tarifas ou acesso a mercados. Ele incorpora críticas ao PIX, à regulação das plataformas digitais, ao combate à corrupção, à proteção da propriedade intelectual, ao desmatamento ilegal e até mesmo a decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo empresas de tecnologia americanas.
Isso revela uma mudança importante. A crise deixou de ser uma disputa entre Lula e Trump. Ela passou a envolver instituições, burocracias governamentais e interesses econômicos que continuarão existindo independentemente de quem ocupe a Casa Branca ou o Palácio do Planalto.
Essa talvez seja a principal mensagem do documento.
Durante muito tempo, parte da classe política brasileira tratou as tensões com os Estados Unidos como consequência do estilo confrontacional de Donald Trump. O novo relatório sugere que o problema é mais profundo.
Os americanos estão transformando em política oficial uma série de preocupações que antes apareciam apenas em discursos políticos ou em debates de campanha. Isso não significa que Washington esteja necessariamente correto em suas avaliações. Mas significa que essas avaliações passaram a orientar decisões concretas de política comercial.
O resultado é que a viagem presidencial produziu menos resultados do que o governo esperava. As reuniões aconteceram. Os canais de negociação foram abertos. O diálogo foi intensificado. Ainda assim, os Estados Unidos decidiram avançar para a próxima fase da investigação e manter a possibilidade de sanções comerciais contra o Brasil.
Há uma segunda leitura igualmente relevante.
O relatório demonstra que os Estados Unidos estão utilizando instrumentos econômicos para pressionar países em temas que vão muito além do comércio. Questões relacionadas à liberdade de expressão nas plataformas digitais, combate à corrupção e ambiente regulatório passaram a ser tratadas como elementos da política comercial americana.
Na prática, Washington está dizendo que não separa mais economia, tecnologia, segurança e política institucional. Tudo faz parte da mesma disputa. Para o Brasil, isso cria um desafio estratégico complexo.
O país continuará precisando dos Estados Unidos como parceiro comercial, investidor e fonte de tecnologia. Ao mesmo tempo, precisará preservar autonomia para definir suas próprias regras e instituições.
A dificuldade está em encontrar esse equilíbrio. A verdadeira notícia desta semana talvez não seja a tarifa de 25%. A verdadeira notícia é que a maior economia do mundo passou a tratar questões internas brasileiras como temas de interesse estratégico americano.
E isso sugere que as divergências entre Brasília e Washington estão apenas começando.

