
As exportações de carne de Santa Catarina estão no centro de uma crise que começou em Bruxelas — e pode chegar rápido ao Oeste do estado. Essa crise talvez pareça, à primeira vista, uma discussão distante entre burocratas em Bruxelas e diplomatas em Brasília. Mas não é. Ela pode atingir diretamente o coração econômico de Santa Catarina.
O estado é hoje um dos maiores polos exportadores de proteína animal do mundo. Frango, suíno, mel, logística frigorificada, cooperativas, transportadoras, pequenos produtores integrados e agroindústrias gigantescas formam uma engrenagem profundamente conectada ao mercado internacional.
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E é justamente aí que mora o problema. Quando a União Europeia exclui o Brasil da lista de países aptos a exportar determinados produtos de origem animal — por questionamentos envolvendo o uso de antimicrobianos na pecuária —, o impacto não fica apenas no comércio exterior. Ele se espalha por toda a cadeia econômica.
Em 2025, Santa Catarina exportou cerca de US$ 4,5 bilhões em carnes, consolidando-se como um dos principais motores do agronegócio brasileiro. O Oeste catarinense depende fortemente dessa estrutura produtiva. Municípios inteiros giram em torno das cadeias de aves e suínos. Por isso, mesmo que a restrição europeia ainda esteja cercada de negociações e possibilidade de reversão, o sinal emitido ao mercado internacional é relevante — e precisa ser levado a sério.
Aqui é importante fugir tanto da narrativa simplista de “culpa da Europa” quanto da ideia de “fracasso sanitário brasileiro”. A realidade é mais complexa. Existe, sim, um componente político na decisão europeia. Agricultores franceses e setores rurais do continente pressionam fortemente contra o acordo Mercosul-União Europeia e enxergam o agro sul-americano como ameaça competitiva. A decisão foi publicada doze dias após a entrada provisória em vigor do acordo — e esse timing não é coincidência.
Mas também existe uma transformação estrutural no comércio internacional que o Brasil ainda subestima: o mundo passou a exigir não apenas produto, mas comprovação. Rastreabilidade. Compliance. Documentação. Certificação. Monitoramento sanitário. Auditoria permanente.
Boa parte da competitividade histórica brasileira foi construída sobre escala, produtividade e custo. Agora, mercados premium exigem algo diferente: a capacidade de provar, integralmente, a origem e os protocolos de produção de cada lote que atravessa uma fronteira.
E isso exige investimento, coordenação e política pública consistente. Para Santa Catarina, o maior risco talvez não seja apenas perder parte do mercado europeu. O maior risco é perceber que o comércio internacional entrou definitivamente em uma nova fase — em que barreiras regulatórias funcionam como instrumentos de poder econômico.
Hoje, quem controla normas técnicas, critérios ambientais e padrões sanitários possui enorme capacidade de selecionar quem entra e quem fica fora das cadeias globais mais valiosas. Não é conspiração: é a nova arquitetura do comércio mundial.
Isso exige uma mudança estratégica do Brasil — e o país tem chegado tarde a essa discussão. Enquanto concorrentes avançam em rastreabilidade, certificação e integração tecnológica do campo às exigências internacionais, o Brasil ainda trata barreira técnica como surpresa diplomática.
A crise atual deixa um alerta direto para Santa Catarina: o agro moderno não compete apenas na fazenda ou no frigorífico. Compete também nos sistemas de informação, nos protocolos sanitários, nos laboratórios e nas regras invisíveis que hoje definem quem pode — ou não — acessar os mercados mais ricos do planeta.
Saber produzir bem sempre foi o forte catarinense. O desafio agora é provar isso para o mundo, na linguagem que o mundo passou a exigir.

