Lula e Donald Trump discursam em sequência na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova YorkFoto: Arte gerada por inteligência artificial com fotos de Agência Brasil e Casa Branca
Havia algo diferente no plenário da Assembleia Geral da ONU na tarde de terça-feira.
Quando Trump subiu ao púlpito — o mesmo de mármore verde de onde Lula havia discursado minutos antes — a sala estava cheia. Delegações de 193 países, dezenas de chefes de Estado, a imprensa internacional inteira posicionada. O protocolo habitual: aplausos contidos, cadernos abertos, tradutores simultâneos com fones nos ouvidos.
Então Trump começou a falar sobre Cuba. E a delegação cubana se levantou, saiu do plenário e não voltou.
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Esse foi o momento mais visível. Mas não foi o mais importante.
“Ao vitorioso, os espólios”
Minutos antes de falar de Cuba, Trump havia dito algo que qualquer país da América Latina deveria ter anotado.
“Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental. Se necessário, usaremos nossa força militar para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos.”
“Ao vitorioso, os espólios.”
Tradução direta: a operação que capturou Nicolás Maduro em Caracas não foi um evento isolado. Foi um modelo. Uma demonstração de que os EUA agem quando decidem que um país do hemisfério representa uma ameaça — independentemente de soberania, de tratados internacionais ou da opinião dos outros 192 países presentes na sala.
Essa frase foi pronunciada no maior fórum multilateral do mundo. E ninguém na sala pôde dizer que não ouviu.
Os cartéis como “Estado Islâmico do hemisfério”
Para quem acompanhou a semana passada — quando o governo Trump acusou formalmente o Brasil de ter “falhado” no combate ao PCC e ao CV — o que veio a seguir no discurso não foi surpresa. Foi confirmação.
“Os cartéis são o Estado Islâmico do hemisfério ocidental.”
A comparação não é retórica. O Estado Islâmico foi a justificativa para operações militares americanas em vários países sem declaração formal de guerra, amparadas numa autorização de uso de força aprovada pelo Congresso após o 11 de setembro. Quando Trump coloca cartéis latino-americanos na mesma categoria, está enquadrando-os dentro do mesmo arcabouço legal.
“Depois de chegar ao cargo, designei os cartéis como organizações terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação com as Forças Armadas Americanas para eliminá-las.”
O PCC e o CV já foram designados terroristas em maio. O Brasil, segundo documento enviado ao Congresso americano esta semana, “falhou” em combatê-los. A cadeia de implicações, seguindo a lógica estabelecida pelo próprio discurso, não precisa ser explicitada para ser clara.
Entre aniquilar e negociar — Trump escolhe os dois
A passagem que mais repercutiu internacionalmente foi sobre o Irã. E com razão.
“Eu tenho uma grande decisão a tomar. Um acordo será feito com o Irã, que os deixe reconstruir e criar um país muito maior do que jamais foi? Talvez um dos melhores no Oriente Médio ou no mundo. Ou então aniquilo a República Islâmica — e rapidamente, nunca dando a eles chance para matar e destruir pessoas e países novamente?”
“Devo conduzi-los ao inferno, sem chance de sobrevivência e sem esperança de grandeza futura ou de descendência?”
A frase foi dita no plenário da Assembleia Geral — a mesma organização fundada em 1945 com o objetivo explícito de evitar guerras de aniquilamento entre nações. A delegação iraniana estava sentada na sala enquanto o presidente americano descrevia o possível extermínio do Estado iraniano.
O que veio depois é a parte que a maioria das análises perdeu: Trump disse que acredita num acordo com o Irã — mas após as eleições de novembro. É a terceira vez que novembro aparece como prazo neste conflito. Primeiro nos bastidores da diplomacia. Depois no próprio discurso de Trump. A guerra com o Irã, que completa oito meses, tem data para acabar — mas a data não depende do campo de batalha. Depende do calendário eleitoral americano.
O que Cuba, México e a Groenlândia têm em comum
Quando a delegação cubana deixou a sala, Trump estava dizendo que Marco Rubio negociava com Havana e que “liberdade chegará para Cuba.” A saída foi teatro diplomático — mas teatro com mensagem: Cuba não aceita ser tratada como objeto de política americana perante o mundo.
Trump também chamou o México de “epicentro da violência de cartéis” e disse ser inaceitável que os EUA compartilhem fronteira com “território controlado por cartéis.” Mencionou que o acordo da Groenlândia seria assinado ainda naquela terça-feira — colocando na mesma semana a Venezuela capturada, Cuba pressionada, México enquadrado como território cartel e Groenlândia assinada.
Não são eventos separados. São capítulos do mesmo livro — o que Trump chama de não permitir “ameaças à América” no hemisfério e que analistas chamam de Doutrina Monroe 2.0.
O recado que chegou ao Brasil — sem precisar ser endereçado
Em nenhum momento do discurso Trump citou o Brasil pelo nome.
Não precisou.
O Brasil está no hemisfério onde Trump disse que usará força militar se necessário. O Brasil abriga organizações que Trump compara ao Estado Islâmico. O Brasil foi acusado esta semana de ter “falhado” no combate a essas organizações. E o Brasil vota em 12 dias — numa eleição que, segundo o próprio Lula no discurso da manhã, enfrenta “ingerência externa.”
Trump criticou a ONU por “impor a agenda da extrema esquerda.” Pediu que países saiam do Tribunal Penal Internacional. Opôs-se a qualquer regulação global da inteligência artificial. E fez tudo isso do pódio da própria ONU — numa demonstração de que a maior potência do mundo usa o fórum multilateral quando lhe convém e o ignora quando não convém.
O mesmo pódio. A mesma manhã em que Lula havia dito que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Trump respondeu à tarde, sem responder diretamente: “Ao vitorioso, os espólios.”
O diesel que o brasileiro abastece está mais caro por causa da guerra no Irã que Trump disse poder encerrar — ou intensificar — dependendo do resultado de novembro. O fertilizante que o agricultor catarinense usa está mais caro pela mesma razão.
E a negociação do tarifaço que o Brasil tenta concluir com Washington acontece num contexto em que o interlocutor americano acabou de declarar, diante do mundo, que usa força militar no hemisfério quando julga necessário.
Às vezes o recado mais importante não tem destinatário no envelope.

