Quarto maior produtor nacional e líder em produtividade por vaca, estado combina manejo, bem-estar animal, sucessão familiar e agregação de valor para fortalecer a atividade.
Em Braço do Norte, a trajetória da Cabanha Real ajuda a contar essa transformação.Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Ao combinar investimentos em genética, tecnologia, manejo e qualificação dos produtores, Santa Catarina se consolidou entre os principais produtores de leite do Brasil. O estado ocupa a quarta posição no ranking nacional de produção e lidera o país em produtividade por vaca, com mais de 3 bilhões de litros produzidos por ano.
Embora o Meio-Oeste lidere essa cadeia dentro do estado, a Região Sul também reúne propriedades familiares que ajudam a mostrar como a bovinocultura leiteira vem mudando. Em municípios como Braço do Norte, tradição e continuidade familiar convivem com sistemas de confinamento, seleção genética, climatização de instalações e produção de derivados.
Mesmo com uma redução de 2% no número de vacas ordenhadas, Santa Catarina mantém a maior produtividade média do país, com 15,9 litros por vaca ao dia. Em uma década, esse indicador aumentou 47%, mostrando como a eficiência ganhou espaço no desenvolvimento da atividade.
Esse avanço pode ser observado dentro das propriedades, onde o objetivo deixou de ser apenas ampliar o rebanho. A busca hoje envolve produzir melhor, diminuir problemas sanitários, aumentar a longevidade dos animais e criar condições para que a atividade continue viável para as próximas gerações.
Genética e sucessão transformam as propriedades
Em Braço do Norte, a trajetória da Cabanha Real ajuda a contar essa transformação. A propriedade trabalha atualmente com cerca de 80 vacas em lactação, mas a construção do rebanho começou nos anos 2000, quando a família adquiriu quatro animais puros de origem.
Até então, o cultivo de fumo fazia parte da rotina. O interesse por animais de genética superior surgiu depois de uma exposição agropecuária e levou a família a modificar gradualmente o perfil do rebanho.
O trabalho ganhou continuidade com Mariana Boeng, filha de Wilson Boeng, que cresceu acompanhando a atividade e escolheu a medicina veterinária como formação. A propriedade passou a fazer parte de sua trajetória acadêmica, servindo de base para pesquisas de mestrado e doutorado.
“Foi passado de pai para filho, e desde pequena gostei bastante e a ideia é continuar a propriedade. E, inclusive, meu projeto de mestrado eu desenvolvi com as vacas aqui de casa. Eu fiz pelo Instituto Federal Catarinense, lá em Araquari, e agora eu estou no projeto do doutorado”, revela Mariana.
Hoje, pai e filha trabalham no controle sanitário, na escolha dos acasalamentos e no desenvolvimento do rebanho. A propriedade conquistou reconhecimento em exposições e teve animais premiados no estado e no país, mas o melhoramento genético também está diretamente ligado à produção de leite.
Mariana Boeng, filha de Wilson Boeng, cresceu acompanhando a atividade e escolheu a medicina veterinária como formação. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
A seleção considera características relacionadas à produtividade, morfologia, saúde e longevidade, como sistema mamário, garupa, profundidade de costelas, pernas e pés. A intenção é formar animais capazes de produzir por mais tempo, com menor ocorrência de problemas como mastite e dificuldades locomotoras, reduzindo tratamentos e descartes.
O manejo também acompanha esse avanço. As vacas permanecem em um sistema no estilo “Compost Barn”, dentro de um galpão coberto com cama de serragem revolvida diariamente – o processo contribui para controlar umidade e bactérias e oferece melhores condições de higiene, conforto térmico e bem-estar.
E a sucessão familiar também faz parte desse planejamento. Para Mariana, melhorar os processos e os resultados é uma forma de construir uma atividade que continue fazendo sentido para sua geração e, futuramente, para o filho.
Bem-estar animal abre novos caminhos
Também em Braço do Norte, a Cabanha Guinther mostra como uma necessidade prática pode acelerar mudanças dentro da produção. A propriedade tem 40 hectares e cerca de 50 vacas em lactação, sob o comando de Maria Rosinete Effting, também conhecida como Rose.
A família trabalhava inicialmente com a criação de suínos, mas uma crise de mercado levou à mudança para a produção de leite. E ela assumiu a atividade em 2003 e, posteriormente, tornou-se a primeira mulher a presidir a Associação Catarinense de Criadores de Bovinos.
Uma das principais transformações aconteceu quando ela buscou uma solução para o estresse térmico provocado pelo calor intenso do verão. As vacas permaneciam do lado de fora e precisavam caminhar até a ordenha, o que afetava a produtividade, os cascos e a reprodução e a alternativa foi adaptar um galpão já existente e criar um ambiente climatizado para o rebanho Jersey.
Com a mudança, a média de produção, que antes chegava a 25 litros por animal no sistema a pasto, passou para uma faixa entre 28 e 30 litros.Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
“Até então eu tinha as vacas na rua e daí por conta do calor, da dificuldade, acabamos fazendo o galpão climatizado, que até então não tinha no Brasil não tinha nenhum”, revela Maria Rosinete.
Com a mudança, a média de produção, que antes chegava a 25 litros por animal no sistema a pasto, passou para uma faixa entre 28 e 30 litros, dependendo do estágio de lactação. Também houve melhora nos problemas de casco, na reprodução e na regularidade da produção.
A genética continuou fazendo parte da estratégia. Há cerca de oito anos, Rose começou a selecionar os acasalamentos com atenção à característica A2A2 e agora também produz esse tipo de leite.
O próximo passo foi agregar valor à matéria-prima. Como o rebanho Jersey produz um leite mais concentrado em gordura e proteínas, surgiu a possibilidade de transformá-lo em derivados dentro da própria propriedade.
A queijaria nasceu há quatro anos e hoje processa e comercializa cerca de 150 quilos de queijo por dia, chegando a aproximadamente 4,5 mil quilos por mês. A produção inclui variedades como zero lactose, colonial, Minas, serrano e maturado.
Para aprender a produzir os queijos, Rose fez cursos e buscou orientação com amigos que já tinham experiência com queijarias.
“Eu não sabia fazer queijo, mas aí acabei fazendo o curso, indo nos amigos outros que tem queijaria e eles foram mostrando, ensinando, e conseguimos fazer queijo. Hoje a gente tem queijo de qualidade”, conta.
Depois da salga, os produtos seguem para câmaras frias e permanecem armazenados conforme a classificação e o período de maturação. No caso do queijo zero lactose, a fabricação precisa ocorrer separadamente para evitar contaminação cruzada.
A experiência mostra como a produção leiteira pode avançar para além da venda da matéria-prima, criando novas possibilidades de renda dentro da própria propriedade.
Com a mudança, a média de produção, que antes chegava a 25 litros por animal no sistema a pasto, passou para uma faixa entre 28 e 30 litros.Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Gestão e conhecimento sustentam o avanço da cadeia
Os resultados alcançados dentro das propriedades ajudam a explicar por que Santa Catarina ocupa uma posição de destaque na pecuária leiteira nacional.
O estado alcançou 3 bilhões e 3 milhões de litros de leite produzidos, o equivalente a 9% da produção brasileira, em uma atividade que vem avançando não apenas pelo desempenho dos rebanhos, mas também pela forma como os produtores passaram a organizar e conduzir o negócio.
No Sul Catarinense, esse movimento envolve diferentes frentes. Melhoramento genético, manejo e nutrição caminham ao lado da assistência técnica, da pesquisa e da orientação aos produtores, com foco em fortalecer as pastagens, reduzir custos e aumentar a eficiência do rebanho. A preocupação com produtividade, portanto, deixou de estar restrita à quantidade de leite produzida por cada vaca.
A gestão da propriedade passou a ter um peso cada vez maior nesta conta. Acompanhar gastos, entender os custos da atividade e saber quanto efetivamente permanece como resultado são pontos fundamentais para avaliar se a produção é sustentável financeiramente. Por isso, os treinamentos voltados à administração também passaram a fazer parte da rotina de qualificação dos produtores.
A eficiência, porém, depende de condições que vão além da gestão interna de cada propriedade. A sanidade dos rebanhos é uma delas. Santa Catarina mantém um trabalho permanente de vigilância, fiscalização e orientação, que reúne médicos veterinários, agrônomos, técnicos agrícolas, cooperativas, produtores e poder público.
Essa atuação ajuda a manter o estado livre de febre aftosa sem vacinação e inclui o controle de enfermidades como brucelose, tuberculose bovina e raiva. O cuidado sanitário interfere diretamente na segurança da produção e também na saúde pública, já que algumas dessas doenças podem ser transmitidas dos animais às pessoas.
É dentro dessa estrutura, que combina produção, conhecimento técnico e controle sanitário, que a troca entre os produtores também ganha importância.
Em Braço do Norte, por exemplo, a FEAGRO Vale se consolidou como a maior feira dedicada ao gado Jersey da América Latina e uma das principais vitrines da pecuária leiteira brasileira.
O evento reúne experiências que já estão sendo aplicadas nas propriedades e aproxima os produtores de novas tecnologias e formas de conduzir a atividade e a força dessa movimentação aparece nos próprios números da região.
No Vale do Braço do Norte, são industrializados aproximadamente 700 mil a 800 mil litros de leite por dia, e mais de 400 propriedades trabalham com a produção. A atividade participa da economia dos municípios e sustenta uma cadeia que precisa continuar evoluindo para permanecer competitiva.
Essa continuidade também passa por quem vai assumir as propriedades nos próximos anos. Na família Tenfen, a pecuária leiteira começou há cerca de 40 anos e segue com a nova geração, que incorporou tecnologia, melhoramento genético e gestão ao trabalho iniciado pelo pai. A expectativa é avançar em produtividade e qualidade, mas também tornar a rotina mais eficiente, produzindo melhor e com menos esforço.
A trajetória da família retoma um ponto que atravessa toda a produção leiteira catarinense: tecnologia e conhecimento só ganham sentido quando ajudam a manter a atividade viável ao longo do tempo.
Nas propriedades do Sul do estado, isso aparece na seleção genética, no conforto dos animais, no controle dos custos, na sanidade dos rebanhos, na transformação do leite em derivados e na preparação das novas gerações para continuar no campo.
É essa combinação que ajuda a sustentar a força da pecuária leiteira em Santa Catarina. Para saber mais, assista ao episódio do programa Agro, Saúde e Cooperação.
O projeto é desenvolvido pelo Grupo ND em parceria com Ocesc, Aurora e Sicoob.

