Sede do governo do DF, Palácio do Buriti Foto: Foto: André Borges/Agência Brasília/Divulgação/ND
Ibaneis Rocha (MDB) deixará o Palácio do Buriti com uma missão política: eleger um sucessor capaz de preservar o grupo que governa o Distrito Federal desde 2019.
A governadora Celina Leão (PP) aparece como a herdeira natural desse projeto, mesmo após brigas. Mas, na prática, a corrida pelo Governo do Distrito Federal em 2026 vai exigir mais do que o apoio do padrinho político. Celina precisa consolidar uma candidatura própria, manter unida a atual base governista e impedir que a direita brasiliense chegue fragmentada às urnas.
O desafio aumentou após a União Progressista, federação formada por PP e União Brasil, decidir adotar uma posição de neutralidade na eleição presidencial. A federação não apoiará, ao menos no primeiro turno, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto.
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A decisão nacional foi tomada para liberar os diretórios estaduais a construir alianças diferentes em cada unidade da Federação. No Distrito Federal, porém, essa liberdade pode se transformar em obstáculo para Celina.
Neutralidade cria problema local para Celina
O PL representa um dos maiores braços eleitorais da direita no Distrito Federal. Além da força associada à família Bolsonaro, o partido reúne nomes como Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Alberto Fraga e Izalci Lucas.
Por isso, Celina dificilmente poderá tratar o apoio do PL como dispensável. Embora pertença ao PP, a governadora depende de uma composição ampla com o eleitorado conservador para reduzir o espaço de candidaturas concorrentes no mesmo campo político.
O problema é que a neutralidade da União Progressista em relação a Flávio Bolsonaro pode provocar cobranças por reciprocidade. Dirigentes do PL poderão questionar por que o partido deveria apoiar Celina no DF enquanto a federação dela se recusa a aderir à candidatura presidencial de Flávio.
Essa contradição não inviabiliza a aliança, mas encarece politicamente o acordo. Celina precisará separar a disputa local da nacional e demonstrar que sua candidatura oferece ao PL espaço na chapa, participação no governo e força para eleger deputados distritais e federais.
Em abril, Michelle Bolsonaro chegou a reafirmar publicamente o apoio a Celina e disse que o entendimento havia sido acertado com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. O apoio da ex-primeira-dama continua sendo um ativo importante, mas as convenções partidárias e a neutralidade do PP abriram uma nova etapa da negociação.
Acompanhada de Damares, Michelle Bolsonaro visita Celina Leão no hospital: “Nossa Leoa está se recuperando bem”Foto: @celinaleao/Instagram/ND Mais
Celina é herdeira de Ibaneis, mas tenta construir identidade própria
Celina chega à disputa com a estrutura do governo, o apoio de Ibaneis e uma trajetória política própria. Antes de assumir o Executivo local, passou pela Câmara Legislativa, presidiu a Casa, foi deputada federal e vice-governadora.
A condição de sucessora natural de Ibaneis, portanto, funciona ao mesmo tempo como vantagem e desafio. Ela pode reivindicar a continuidade de uma administração conhecida pelo eleitor, mas também precisa convencer que não será apenas uma extensão do atual governador.
De acordo com o cientista político, André Rosa da Universidade de Brasília, os votos de Ibaneis não terão trajetória única.
“Uma parte dos votos irá para Celina Leão, e outra para Arruda”, afirma categoricamente.
Nas pesquisas, Celina aparece entre os principais nomes da corrida. Levantamento Correio/OPINIÃO realizado em junho mostrou a governadora com 27,8% das intenções de voto, contra 23,5% de José Roberto Arruda. Os dois estavam tecnicamente empatados pela margem de erro. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número DF-08746/2026.
Izalci tentou usar mandato como credencial
O senador Izalci Lucas tentou posicionar o mandato no Senado como credencial para disputar o Governo do Distrito Federal. A estratégia era apresentar experiência política, trânsito no Congresso e capacidade de buscar recursos para Brasília.
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária. Período do expediente.Senador Izalci Lucas (PL-DF) em discurso à tribuna.Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
O projeto, no entanto, esbarrou na falta de apoio interno. Michelle Bolsonaro contestou publicamente a pré-candidatura e reafirmou o compromisso do PL com Celina. Izalci acabou admitindo que não seria candidato, sob o argumento de que não recebeu legenda para entrar na disputa.
A retirada evita, por enquanto, uma candidatura própria do PL contra Celina. Mas não elimina o peso do senador nas negociações. Izalci pode reivindicar espaço na chapa ou participar da construção de uma alternativa dentro da direita caso o acordo entre PL e PP seja rompido.
Antes da desistência, o senador aparecia com 4,9% no levantamento Correio/OPINIÃO. Outra pesquisa, realizada pelo Instituto Veritá e encomendada pelo próprio PL, chegou a mostrar Izalci com 20,7% em um cenário estimulado, o que foi usado por ele para defender a viabilidade da candidatura.
Arruda transforma eleição em disputa pela memória dos governos
José Roberto Arruda (PSD) é o principal fator de pressão sobre o projeto de continuidade de Celina e Ibaneis. Mesmo afastado de cargos eletivos há anos, o ex-governador mantém elevado grau de conhecimento e uma base eleitoral consolidada no Distrito Federal.
Arruda tenta resgatar a lembrança de obras e realizações de sua passagem pelo Buriti. Essa estratégia o coloca em disputa direta com Celina pelo eleitorado de centro-direita.
Arruda faz campanha pelo DFFoto: Reprodução Instagram/@arruda.df
A eventual candidatura, porém, ainda depende de uma definição jurídica. Arruda sustenta que pode concorrer com base nas mudanças feitas pela Lei Complementar 219/2025, que alterou a forma de contagem dos prazos de inelegibilidade.
Enquanto a dúvida permanece, Arruda continua no tabuleiro. Se tiver o registro confirmado, poderá reunir parte dos eleitores que rejeitam a continuidade do grupo de Ibaneis, mas não pretendem votar em candidatos de esquerda.
Fragmentação pode abrir espaço para a esquerda
Celina e Arruda concentram hoje as maiores fatias do eleitorado de direita, mas não são os únicos nomes. O tabuleiro ainda inclui candidaturas ou projetos ligados ao Novo, PSDB e outras legendas de centro e direita.
No campo da esquerda, Leandro Grass (PT) aparece como um dos principais nomes. Também estão no radar Ricardo Cappelli (PSB) e Samara Mineiro (UP), além de outras candidaturas que podem ser confirmadas durante as convenções.
Leandro Grass é eleito governador do Distrito Federal Foto: Câmara Legislativa/Divulgação/ND
O principal nó da eleição no Distrito Federal não está apenas na escolha de um nome. Está na capacidade de reunir partidos que, nacionalmente, adotaram estratégias diferentes.
Celina ocupa o governo e lidera parte das pesquisas. Arruda carrega lembrança eleitoral e ameaça dividir a direita. Izalci perdeu espaço para concorrer, mas o PL continua indispensável. À esquerda, os adversários observam a fragmentação e tentam construir uma candidatura competitiva.
A neutralidade da União Progressista na corrida presidencial tornou esse arranjo mais delicado. Para chegar às urnas como favorita, Celina terá de mostrar que é, ao mesmo tempo, a sucessora de Ibaneis e a candidata capaz de representar uma direita que hoje está longe de falar com uma só voz.

