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Região

República dos escândalos: de festas e jatinhos ao STF, como Vorcaro construiu uma rede de acesso ao poder

Ultima atualização: 22 de setembro de 2026 08:00
Por Ana Paula Bittencourt
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República dos escândalos: de festas e jatinhos ao STF, como Vorcaro construiu uma rede de acesso ao poder
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Nascido em 1983, Daniel Vorcaro é a figura principal no escândalo envolvendo o Banco MasterNascido em 1983, Daniel Vorcaro é a figura principal no escândalo envolvendo o Banco MasterFoto: Márcio Gustavo Vasconcelos/Flickr (Reprodução)

Whisky em Londres, charutos em Nova York, jantares em clubes exclusivos, jatinhos particulares e festas privadas com proporções de até seis mulheres para cada homem. As investigações sobre o Banco Master revelam a dimensão da rede de relações construída pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao longo dos anos. Entre os convidados e interlocutores aparecem políticos, empresários, autoridades do Judiciário e integrantes de instituições responsáveis por fiscalizar e investigar seus negócios.

Com o auxílio das chamadas “suíças” (termo usado em mensagens entre Vorcaro e o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria para se referir a modelos estrangeiras recrutadas para festas privadas), o banqueiro mantinha uma agenda de encontros que combinava hospitalidade, viagens, eventos, consultorias e negócios.

Leia o editorial do Grupo ND: O Brasil chegou ao limite: o atual modelo do STF e de uma elite dos Poderes cercada de privilégios, suspeitas e blindagens se esgotou; o país exige mudança

Eventos milionários em Londres e Nova York envolvia charutos, degustação de Whisky e até DJ Set

Em abril de 2024, durante um fórum jurídico patrocinado pelo Banco Master em Londres, Daniel Vorcaro reserva o George Club, clube privado de Mayfair, para uma degustação de whisky que reúne cerca de 40 convidados. Entre eles os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o ministro do STJ Benedito Gonçalves, o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, e o deputado federal Hugo Motta (Republicanos), presidente da Câmara.

Além da degustação de whisky Macallan, foram oferecidos charutos, aperitivos e até um DJ Set. O custo total registrado foi de US$ 640.831,88 (cerca de R$ 3,3 milhões).

Na mesma viagem, Vorcaro oferece um jantar no Annabel’s, outro clube fechado da capital britânica. À época, Toffoli ainda era o relator do caso Master no STF, cargo que só deixaria dez meses depois, quando veio à tona a venda de uma participação da família dele num resort de luxo a um fundo ligado ao banqueiro.

Um mês depois, em maio de 2024, o roteiro se repete em Nova York. Cerca de dez convidados se reúnem no Carnegie Club, clube de charutos no centro da cidade, entre eles o presidente da Câmara Hugo Motta e o senador Ciro Nogueira. Os dois ocupam hoje posições importantes no destino político do escândalo. Motta preside a Casa que trava a instalação de uma CPI sobre o Master, e Nogueira integra a base aliada ao Planalto no Senado, onde tramitam os pedidos de CPMI sobre o caso.

O contato entre Vorcaro e Moraes não se resumiu a Londres. Um relatório da Polícia Federal identificou entre seis e oito encontros presenciais entre os dois, parte deles intermediados pelo então ministro das Comunicações Fábio Faria, o mesmo nome que aparece meses depois organizando festas com recrutamento de mulheres para autoridades. Em mensagens trocadas em março de 2025, já com a crise do banco em curso, Gonet comenta com Vorcaro sobre charuto e uísque Macallan. Toffoli negou publicamente, em nota, qualquer vínculo impróprio com o banqueiro.

Sessão do STF sobre relação entre Moraes e Vorcaro será transmitida em tempo real pela TV Justiça, Rádio Justiça e YouTube. Foto: Agência Brasil/Reprodução/ND MaisSessão do STF sobre relação entre Moraes e Vorcaro será transmitida em tempo real pela TV Justiça, Rádio Justiça e YouTube. Foto: Agência Brasil/Reprodução/ND Mais

Rede de voos, consultorias e contratos

Fora do circuito de festas, mensagens e documentos reunidos pela investigação mostram uma rede paralela de pagamentos a políticos e ex-autoridades, sob forma de consultorias, voos em jato particular e patrocínios.

  • Nikolas Ferreira (PL): O deputado federal aparece como usuário de um jato de Vorcaro durante uma caravana de campanha em 2022 e, num áudio de março de 2025, pede ajuda pessoalmente ao banqueiro para liberar um ativo de minério que estava retido.
  • Michel Temer (MDB): O ex-presidente foi contratado em 2025 para tentar reverter, junto ao Banco Central, uma decisão desfavorável ao Master.
  • Ricardo Lewandowski: Prestou consultoria jurídica remunerada ao Banco Master.
  • Jaques Wagner (PT): A Operação Compliance Zero aponta ao menos 74 ligações telefônicas entre o senador e um sócio de Vorcaro. Entre as suspeitas estão o recebimento de vantagens indevidas, como um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões e repasses de R$ 5,8 milhões a empresas ligadas à família do senador.

As festas com recrutamento de mulheres

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro descrevem a organização de festas com recrutamento de mulheres para os convidados.

Na primeira delas, de Halloween, em outubro de 2023, na boate Madame Satã, em São Paulo, as instruções trocadas entre os organizadores pedem para recrutar “só menina nova” e proíbem qualquer celular no local. Segundo essas mensagens, autoridades também estariam entre os convidados, mas os então presidentes do Senado e da Câmara, citados nas trocas, negaram publicamente ter comparecido ao evento.

Uma segunda festa é organizada com participação do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, mesmo nome apontado pela Polícia Federal como intermediário de parte dos encontros entre Vorcaro e Moraes. O evento ficou conhecido internamente como festa das “suíças”, apelido dado às mulheres levadas para acompanhar os convidados. Mensagens da época mostram o deslocamento de modelos entre Lisboa e Saint-Tropez.

Arte: Jornal NDArte: Jornal ND

Caso Master chegou ao STF e rachou a Corte por dentro

À medida que documentos apreendidos pela Polícia Federal vieram a público, a rede de relações construída por Daniel Vorcaro alcançou o núcleo do Supremo Tribunal Federal. Ao menos cinco dos dez ministros atualmente em atividade (Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques) aparecem de alguma forma nos elementos reunidos na investigação. Os casos, porém, são distintos: há relações empresariais envolvendo familiares, mensagens com filhos de ministros, encontros pessoais, convites, contratos e decisões judiciais relacionadas a interesses do Banco Master.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro citam um encontro e uma cobrança de R$ 10 milFoto: Reprodução/ND MaisMensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro citam um encontro e uma cobrança de R$ 10 milFoto: Reprodução/ND Mais

Os vínculos dos ministros

  • Dias Toffoli: A conexão mais antiga envolve Dias Toffoli. Uma empresa da família do ministro foi sócia do resort Tayayá, no Paraná, com o fundo Arleen, apontado pela PF como parte da estrutura financeira ligada a Vorcaro. A participação foi encerrada em 2025, mas documentos apreendidos no celular do banqueiro passaram a indicar que Vorcaro realizou pagamentos que somaram R$ 35 milhões relacionados ao empreendimento. Relatório da PF chegou a apontar a suspeita de que Toffoli seria beneficiário final do fundo. O ministro nega irregularidades e afirma que a venda de sua participação ocorreu antes de ele assumir a relatoria do caso Master. As suspeitas não levaram à abertura de investigação contra Toffoli e, após a divulgação das relações, ele deixou a relatoria do caso.
  • Kassio Nunes Marques: As mensagens envolvem seu filho, Kevin Marques. Conversas entre Vorcaro e o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, mencionam pagamentos de R$ 500 mil mensais ao advogado por meio da Consult Inteligência Tributária. Segundo dados citados na investigação, a empresa recebeu R$ 6,6 milhões do Master em um ano. Kevin nega ter prestado serviços ao banco ou recebido dinheiro de Vorcaro e afirma ter recebido R$ 281,6 mil da Consult por serviços tributários. No julgamento de 15 de setembro, Nunes Marques declarou-se impedido.
  • Luiz Fux: Mensagens apreendidas no celular de Vorcaro mostram contato com Rodrigo Fux, filho do ministro, incluindo conversas sobre encontros e articulações.
  • Alexandre de Moraes: Aparece em mensagens diretas com Vorcaro e em contratos milionários celebrados entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.André Mendonça: Virou relator do caso e assumiu papel central na controvérsia.

André Mendonça e o ministro que virou relator

A relação de André Mendonça com Vorcaro ganhou importância diferente das demais porque o ministro acabou assumindo a relatoria das investigações sobre o Banco Master. Antes disso, porém, os dois já haviam se encontrado. Em março de 2025, Vorcaro foi recebido por Mendonça no Instituto Iter, entidade fundada pelo ministro. Mensagens apreendidas pela PF também registram tentativas de aproximação do banqueiro por meio de intermediários e convites para eventos do instituto.

Moraes e Mendonça batem boca no STF durante uma conversa sobre a investigação que revelou diálogos com Daniel VorcaroFoto: STF/ReproduçãoMoraes e Mendonça batem boca no STF durante uma conversa sobre a investigação que revelou diálogos com Daniel VorcaroFoto: STF/Reprodução

A conexão ganhou outro elemento em setembro, quando veio a público que o Iter recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, empresa de Lucas Kallas. O empresário havia sido parceiro de negócios de Vorcaro em outras empresas. O contrato, firmado em 2024, previa até R$ 5,9 milhões em um mútuo conversível. O Iter diz que o acordo foi encerrado antecipadamente e que começou a devolver os recursos em janeiro de 2026, antes de Mendonça ser sorteado relator do caso Master. A Cedro afirma que Vorcaro jamais teve vínculo societário com a empresa.

A condução de Mendonça passou a ser alvo de uma segunda frente de críticas. O ministro tornou públicas mensagens extraídas do celular de Vorcaro que colocaram Moraes no centro da investigação, enquanto dezenas de quebras de sigilo bancário e fiscal permaneciam sob reserva. Gilmar Mendes acusou Mendonça de selecionar informações e de agir com “viés político-eleitoral”. Moraes também questionou a condução da apuração e pediu investigação sobre a atuação do colega. Mendonça rejeitou as acusações e afirmou que suas decisões tinham base nos elementos obtidos pela investigação.

A controvérsia chegou até uma suspeita de que Vorcaro teria pago um terno para Mendonça, depois que mensagens registraram uma tentativa de aproximação por intermédio do advogado Ciro Rocha Soares. O ministro negou a hipótese e apresentou notas fiscais que somavam R$ 26,4 mil em compras na alfaiataria.

Dark Horse e o componente eleitoral

Parte da disputa ganhou contornos eleitorais por envolver diretamente políticos que estarão no centro da eleição de 2026. Uma das frentes do caso Master investiga o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, admitiu ter procurado Vorcaro em busca de recursos para a produção. Documentos da investigação apontam que o banqueiro repassou pelo menos US$ 12,3 milhões para a estrutura de financiamento do filme, embora o acordo previsse US$ 24 milhões. Flávio nega irregularidades e afirma que buscava patrocínio privado para uma produção sobre o pai.

Daniel Vorcaro fez novo repasse para fundo ligado ao filme “Dark Horse”, sobre Jair BolsonaroFoto: Reprodução/Márcio Gustavo Vasconcelos/Andressa Anholete/Agência SenadoDaniel Vorcaro fez novo repasse para fundo ligado ao filme “Dark Horse”, sobre Jair BolsonaroFoto: Reprodução/Márcio Gustavo Vasconcelos/Andressa Anholete/Agência Senado

A história se cruzou com uma segunda investigação sobre emendas parlamentares. A Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up para apurar suspeitas de desvio de recursos públicos destinados por emendas. Entre os alvos está o deputado Mário Frias, que destinou R$ 2 milhões a projetos ligados ao Instituto Conhecer Brasil, de Karina Gama, produtora de Dark Horse. A PF investiga a cadeia de transferências e a possível conexão entre os recursos públicos e a produção do filme.

As duas frentes chegaram ao STF por caminhos diferentes. Flávio Dino autorizou a Operação Make Up, voltada à suspeita de uso irregular de emendas. A sobreposição entre o caso Master, políticos ligados à oposição e a eleição presidencial de 2026 passou a integrar o conflito entre os ministros.

Foi nesse ambiente que surgiu a acusação de “viés eleitoral” contra Mendonça. Seus críticos questionaram a diferença entre o momento em que foram divulgadas as mensagens envolvendo Moraes e o tratamento inicialmente dado às investigações que atingiam políticos ligados ao grupo Bolsonaro. A PGR e ministros do Supremo defenderam maior publicidade dos autos; Mendonça posteriormente levantou parte dos sigilos e rejeitou a acusação de que tivesse conduzido a investigação com finalidade política.

R$ 131 milhões e um escritório que cresceu junto com a carreira de Moraes

O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados existe desde 21 de setembro de 2004, treze anos antes de Alexandre de Moraes tomar posse no Supremo Tribunal Federal. Com sede no Jardim Europa, em São Paulo, a sociedade tem capital social registrado de R$ 500 mil e onze sócios, entre eles Alexandre Barci de Moraes, filho do casal, que entrou na sociedade em dezembro de 2020.

Viviane Barci elogiou uso de jato de luxo repassado por Daniel Vorcaro em acordo de R$ 50 milhõesFoto: Viviane Barci de Moraes elogiou jato de VorcaroViviane Barci elogiou uso de jato de luxo repassado por Daniel Vorcaro em acordo de R$ 50 milhõesFoto: Viviane Barci de Moraes elogiou jato de Vorcaro

A chegada de Moraes ao STF, em março de 2017, marcou um ponto de inflexão na presença do escritório nos tribunais superiores. Levantamento baseado em dados públicos mostra que o número de processos acompanhados pela banca no STJ passou de 18 antes da nomeação para pelo menos 136 depois dela. No próprio STF, o número subiu de nove para 23. Considerados os dois tribunais, foram 27 registros antes da chegada de Moraes à Corte e pelo menos 159 depois, quase seis vezes o volume anterior.

Contratos milionários com o Banco Master e empresas ligadas

  • Primeiro Contrato (Banco Master – Jan/2024): O escritório assinou com o banco um contrato de três anos para serviços jurídicos, consultoria estratégica e compliance. O valor previsto era de R$ 3 milhões líquidos por mês, durante 36 meses, ou cerca de R$ 108 milhões líquidos e R$ 131 milhões no valor bruto. Até novembro de 2025, quando o banco foi liquidado, os pagamentos declarados pelo Master chegaram a aproximadamente R$ 80,2 milhões.
  • Segundo Contrato (Viking Participações – Mai/2025): O escritório firmou outro acordo com a empresa representada por Daniel Vorcaro. O contrato previa até R$ 50 milhões em honorários por três anos. Parte da remuneração seria quitada por meio de participações em empresas ligadas a um jato Legacy 650 e a um helicóptero Airbus EC155 B1. O acordo previa R$ 40 milhões em participações relacionadas às aeronaves e R$ 10 milhões em despesas.

Documentos e mensagens reunidos pela Polícia Federal indicam que as aeronaves chegaram a ser utilizadas por Viviane Barci. O escritório, porém, afirma que o contrato relativo às aeronaves não chegou a ser efetivamente concluído. A documentação sobre a operação passou a integrar a investigação do caso Master.

Somados, os dois contratos chegaram a prever até R$ 181 milhões em valores brutos (R$ 131 milhões no primeiro e até R$ 50 milhões no segundo).

O patrimônio da família

A expansão da atividade profissional ocorreu em paralelo a um crescimento patrimonial relevante. Dados fiscais divulgados em 2025 mostram que o patrimônio declarado de Viviane Barci passou de R$ 24 milhões, em 2023, para R$ 79,7 milhões, em 2024, alta de 232%. Naquele ano, ela recebeu R$ 57 milhões em distribuição de lucros do escritório.

No patrimônio imobiliário do casal, o salto também é expressivo:

  • Em 2017 (posse no STF): 12 imóveis avaliados em R$ 8,6 milhões.
  • Entre 2021 e 2025, as compras registradas em cartório somaram R$ 23,4 milhões, todas pagas à vista, segundo levantamento baseado nos registros imobiliários.
  • Atualmente (2026): 17 imóveis avaliados em R$ 31,5 milhões.

O que o contrato previa e o posicionamento da defesa

O documento estabelecia atuação do escritório em diferentes frentes: procedimentos e processos perante a Polícia Federal, Banco Central, Receita Federal, CADE e outros órgãos, além de consultoria de compliance e acompanhamento de questões de interesse do banco. O texto traz uma ressalva expressa de que o escritório não atuaria perante o Supremo Tribunal Federal, justamente a Corte onde Alexandre de Moraes é ministro.

O escritório afirma que nunca representou o Master em processos no STF e que sua atuação se restricted às áreas previstas no contrato. A defesa de Viviane Barci também sustenta que o contrato não estabelecia relação com a atuação profissional de seu marido. Apesar da cláusula, a contratação passou a ser um dos principais pontos de questionamento quando as relações pessoais entre Vorcaro e Moraes vieram a público.

Quem é Daniel Vorcaro

Daniel Bueno Vorcaro nasceu em Belo Horizonte, filho do empresário Henrique Vorcaro, fundador da incorporadora Multipar. Estudou na Fundação Torino e se formou em Economia pelo Ibmec. Antes de entrar no mercado financeiro, trabalhava no ramo imobiliário da família.

Daniel Vorcaro Foto: Reprodução/ND MaisDaniel Vorcaro Foto: Reprodução/ND Mais

A trajetória empresarial de Vorcaro ganhou outra dimensão quando ele decidiu entrar no setor bancário. A instituição que acabaria sob seu controle já existia havia décadas: o Banco Máxima, fundado em 1974, tinha uma operação de pequeno porte até ser adquirido pelo empresário.

A entrada não aconteceu de imediato. Em 2017, o Banco Central negou o primeiro pedido de Vorcaro para assumir o controle da instituição. Em mensagens, ele reclamou a um diretor do BC que estava havia dois anos sendo rechaçado e passou a atuar pessoalmente pela liberação do negócio. A autorização veio em agosto de 2019, e a transferência de controle foi concretizada em outubro de 2019, com um aporte superior a R$ 75 milhões.

De banco pequeno a grupo bilionário

Sob o comando de Vorcaro, o Máxima passou por uma transformação acelerada:

Em 2021, a instituição foi rebatizada como Banco Master e adotou uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs que chegaram a pagar 140% do CDI.Com os recursos captados, comprou instituições menores como Will Bank, Voiter e Kovr.

Passou a ter participações em empresas de diferentes setores, entre elas Light, Gafisa, Oncoclínicas e no clube de futebol Atlético-MG.O patrimônio líquido do banco saltou de R$ 219 milhões para mais de R$ 5 bilhões em cinco anos.

O crescimento que virou alvo das investigações

A expansão do Master passou a ser questionada pelas investigações sobre a forma como o banco construía e contabilizava seus ativos.

Segundo a investigação, empresas ligadas ao banco aplicavam recursos em fundos que compravam créditos de baixíssima liquidez. Entre eles estavam cartas de crédito do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc, contabilizadas em bilhões de reais, mas avaliadas por peritos como praticamente sem valor.

A partir de novembro de 2024, o Master passou também a vender ao banco público BRB carteiras de crédito consignado supostamente vinculadas a empréstimos de aposentados do INSS. Segundo a Polícia Federal, o BRB comprou cerca de R$ 12,2 bilhões dessas carteiras mesmo depois de ter sido alertado pelo Banco Central. As fraudes identificadas nas operações entre as duas instituições somam R$ 17 bilhões, segundo a investigação

A queda e a prisão

Ex-dono do Banco Master foi preso em operação da Polícia FederalFoto: Reprodução/NDEx-dono do Banco Master foi preso em operação da Polícia FederalFoto: Reprodução/ND

Em novembro de 2025, a trajetória de expansão chegou ao fim. Horas antes de ser preso pela primeira vez, Vorcaro divulgou a informação de que o Master estaria sendo vendido a um grupo dos Emirados Árabes. Segundo a investigação, a notícia foi usada como pretexto para embarcar em um jato particular com destino a Dubai.

A Polícia Federal o interceptou no Aeroporto de Guarulhos antes da decolagem. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição e Vorcaro foi preso por suspeita de comandar organização criminosa.

A Rede de Vorcaro (conexões e entidades)

Vínculos políticos e institucionais

  • Supremo Tribunal Federal (STF): Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Nunes Marques, Gilmar Mendes, Edson Fachin, Flávio Dino, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin.
  • Superior Tribunal de Justiça (STJ): Benedito Gonçalves (presença em evento no George Club em Londres).
  • Procuradoria-Geral da República (PGR): Paulo Gonet (encontro em Londres e mensagens sobre Macallan/charutos).
  • Polícia Federal (PF): Andrei Rodrigues (diretor-geral à época do encontro em Londres).
  • Congresso Nacional: Hugo Motta (Republicanos): presidente da Câmara dos Deputados, esteve em eventos no George Club (Londres) e Carnegie Club (NY); Ciro Nogueira (PP): senador, esteve no Carnegie Club (NY); Nikolas Ferreira (PL): uso de jato executivo em 2022 e áudio solicitando liberação de ativo de minério em 2025; Jaques Wagner (PT): 74 ligações telefônicas mapeadas pela PF com sócio de Vorcaro; suspeita de recebimento de apartamento de R$ 2,5 mi e R$ 5,8 mi a empresas familiares; Flávio Bolsonaro (PL): captação de US$ 12,3 mi (dos US$ 24 mi previstos) para o filme Dark Horse; Mário Frias (PL): destinação de R$ 2 mi em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (produtora Karina Gama).
  • Ex-autoridades e Consultores: Michel Temer (MDB): Contratado em 2025 para interlocução junto ao Banco Central. Fábio Faria: Ex-ministro das Comunicações, intermediário de encontros com Moraes e organizador das festas com recrutamento de modelos (“suíças”). Ricardo Lewandowski: Prestou consultoria jurídica remunerada ao banco.

Os 10 Ministros do STF no Caso Master

Foto: Jornal NDFoto: Jornal ND

Foto: Jornal NDFoto: Jornal ND

“Até a máfia tem ética” — O embate no Plenário do STF

A frase de Gilmar Mendes durante a sessão do Supremo Tribunal Federal de 15 de setembro resume o nível de tensão que tomou conta da Corte durante a discussão sobre a possibilidade de investigar Alexandre de Moraes no caso Banco Master.

O decano do STF dirigia-se ao colega André Mendonça, responsável pela condução da investigação que colocou Moraes no centro da crise. Gilmar acusou Mendonça de conduzir os processos com “evidente viés político-eleitoral” e classificou a atuação como uma “relação de máfia”. Também chamou o ministro de “pixuleco” e “boneco eleitoral”.

Fachin tira caso que envolve Moraes e Vorcaro das mãos de Mendonça no STFFoto: Reprodução/ND MaisFachin tira caso que envolve Moraes e Vorcaro das mãos de Mendonça no STFFoto: Reprodução/ND Mais

A sessão, que deveria discutir os elementos para uma eventual investigação sobre um integrante da própria Corte, transformou-se em um confronto público entre ministros:

  • Moraes acusou Mendonça de atuar politicamente e de tentar interferir na investigação.
  • Mendonça reagiu e pediu respeito, sustentando que suas decisões eram fundamentadas nas provas colhidas pela Polícia Federal.
  • Flávio Dino pediu vista, interrompendo a análise quando o placar preliminar registrava 4 votos a 3.

O Perfil de Gilmar Mendes e o Desgaste de Imagem do STF

Aos 70 anos, Gilmar Ferreira Mendes é o ministro mais antigo em atividade no Supremo, nomeado por Fernando Henrique Cardoso em 2002. Ao longo de mais de duas décadas, acumula decisões de grande impacto e embates históricos — como o confronto de 2018 com Luís Roberto Barroso, que o chamou de “a mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. É fundador do IDP e organizador do Fórum de Lisboa (apelidado de “Gilmarpalooza”).

Decano Gilmar Mendes confirmou audiência institucional com representantes do Banco Master em seu gabinete.Foto: Nelson Jr/SCO/STF/Reprodução/ND MaisDecano Gilmar Mendes confirmou audiência institucional com representantes do Banco Master em seu gabinete.Foto: Nelson Jr/SCO/STF/Reprodução/ND Mais

A crise do Banco Master ocorre em um momento de acentuada perda de confiança da população na Corte:

Pesquisa Datafolha (Setembro/2026):

  • 76% dos entrevistados consideram que os ministros do STF têm poder demais.
  • 71% afirmam que o STF é essencial para a democracia.
  • 77% acreditam que a população confia menos no Supremo hoje do que no passado.

Pesquisa Datafolha (Março/2026):

  • Recorde de desconfiança, com 43% afirmando não confiar no STF, contra 38% em dez/2024 e apenas 16% declarando confiar muito.

Histórico de Decisões Marcantes de Gilmar Mendes

  • 2008 / Operação Satiagraha: Concedeu dois habeas corpus sucessivos ao banqueiro Daniel Dantas, revogando prisões decretadas pelo juiz Fausto De Sanctis.
  • 2018 / Operação Lava Jato: Concedeu 21 habeas corpus soltando réus da Lava Jato no Rio em menos de 30 dias (chegando a 24 ao longo do ano), gerando forte reação do juiz Marcelo Bretas.
  • 2018 / Aécio Neves: Determinou o arquivamento de inquérito por corrupção passiva e lavagem de dinheiro contra o senador.
  • 2019 / Execução de Pena em 2ª Instância: Votou pela alteração do entendimento do STF, condicionando a prisão ao trânsito em julgado, o que permitiu a libertação de réus condenados na Lava Jato em todo o país.
  • 2021 / Suspeição de Sergio Moro: Abriu divergência reconhecendo a parcialidade de Moro nos processos contra o ex-presidente Lula, abrindo caminho para a anulação de suas condenações e reabilitação política.
  • 2022 / Sérgio Cabral: Votou pela revogação da prisão preventiva do ex-governador do Rio de Janeiro, alegando excesso de prazo.

___________________________________________________

Equipe de Produção e Edição: Ana Paula Vecchia Rocha, Andressa da Rosa Luz, Vanessa da Rocha, Lorenzo Dornelles, Queli Caroline, Angel Zamparette (Revisão), Gil Jesus (Diagramação).

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