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R$ 4,72 bilhões em um dia: entenda o que está fazendo estrangeiros tirarem dinheiro da Bolsa brasileira

Ultima atualização: 22 de agosto de 2026 08:00
Por Camila Souza
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R$ 4,72 bilhões em um dia: entenda o que está fazendo estrangeiros tirarem dinheiro da Bolsa brasileira
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Investidores estrangeiros retiraram R$ 4,72 bilhões da Bolsa brasileira em apenas um pregãoFoto: B3/Divulgação/ND MaisInvestidores estrangeiros retiraram R$ 4,72 bilhões da Bolsa brasileira em apenas um pregãoFoto: B3/Divulgação/ND Mais

A Bolsa brasileira viveu, em agosto, um dos episódios mais fortes de saída de capital estrangeiro dos últimos anos. No dia 11 de agosto, investidores estrangeiros retiraram R$ 4,72 bilhões da B3 em apenas um pregão, no maior fluxo diário de saída desde 22 de abril de 2021, quando o resgate havia chegado a R$ 6,6 bilhões. No mesmo dia, o Ibovespa caiu 2,5%, para cerca de 167 mil pontos.

O movimento ocorreu após o banco norte-americano JPMorgan reduzir a recomendação para as ações brasileiras de overweight (equivalente a compra) para neutra. O banco citou o fim do ciclo de flexibilização monetária, a desaceleração do crescimento e a deterioração do ciclo de crédito, além das incertezas relacionadas ao cenário eleitoral.

A intensidade da retirada chama atenção porque veio depois de um período de forte entrada de recursos. Como detalha o educador financeiro e especialista em investimentos Everton Barros, o fluxo estrangeiro foi positivo no primeiro trimestre, mas começou a mudar ao longo do segundo. “O primeiro trimestre de 2026 registrou entradas líquidas expressivas: R$ 26,31 bilhões em janeiro, R$ 15,40 bilhões em fevereiro e R$ 11,66 bilhões em março”, destaca.

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“Esses números mostram claramente que o estrangeiro veio forte no início do ano, capturou a valorização da Bolsa brasileira, que por sinal estava entre as mais baratas do mundo emergente, e agora realiza lucro e reduz risco diante de um segundo semestre carregado de incertezas.”

Por que o investidor está tirando dinheiro do Brasil?

Na avaliação de Marcelo Estrela, assessor de investimentos da Vertente Invest, existem fatores que tornam outros mercados mais atraentes neste momento. Entre eles estão a concentração do Ibovespa em commodities, bancos e empresas domésticas; os efeitos da proximidade das eleições; e o nível elevado dos juros reais.

“Um estudo recente do JP Morgan aponta que os ativos brasileiros costumam performar pior nos seis meses pré-eleição”, afirma. “Um juro real alto trava os múltiplos de lucros para avaliação do valor das empresas listadas.”

A análise encontra eco no movimento recente do mercado. Em sete pregões entre 3 e 12 de agosto, as empresas listadas na B3 perderam R$ 279 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. O montante equivale a aproximadamente 90% do valor de mercado da Vale.

Empresas listadas na B3 perderam R$ 279 bilhões em valor de mercado entre 3 e 12 de agostoFoto: Divulgação/B3/ND MaisEmpresas listadas na B3 perderam R$ 279 bilhões em valor de mercado entre 3 e 12 de agostoFoto: Divulgação/B3/ND Mais

Para Everton Barros, o cenário atual reúne ainda outro fator principal: o chamado efeito cascata institucional, quando grandes instituições mudam suas recomendações e outros gestores reavaliam suas posições. “A decisão de sair daqui raramente é sobre o Brasil isoladamente, mas sobre o Brasil em relação ao resto do mundo e hoje quatro vetores pesam contra nós nessa comparação.”

“Quando cresce a dúvida sobre a capacidade do governo de equilibrar as contas públicas, o investidor embute um prêmio de risco maior em todos os ativos do país, ações, títulos, moeda. Não por acaso, a leitura é que o capital estrangeiro está saindo justamente por conta do risco fiscal, com o call do JPMorgan servindo de catalisador”, explica.

Outro ponto citado pelo especialista é a concorrência da renda fixa. A Selic está atualmente em 14% ao ano, após o Copom reduzir a taxa de 14,25% para 14% na reunião de agosto. Com juros elevados, aplicações de renda fixa passam a competir diretamente com ativos de maior risco, como as ações.

“Com a Selic em patamar elevado, a redução da taxa básica para 14% não veio acompanhada de sinalização de um ciclo acelerado de cortes, mantendo o custo de capital das companhias e a atratividade dos títulos em patamares relevantes, o investidor tem uma alternativa de baixíssimo risco pagando retorno real historicamente alto.”

Diversificação internacional ganha espaço

A saída de recursos da Bolsa também cria uma discussão sobre a concentração do patrimônio dos brasileiros em ativos nacionais. Para Marcelo Estrela, investir fora do país não deveria ser entendido simplesmente como uma aposta na valorização do dólar.

Investir fora do país não deve ser entendido como aposta na valorização do dólar, segundo especialistaFoto: Valter Campanato/Agência BrasilInvestir fora do país não deve ser entendido como aposta na valorização do dólar, segundo especialistaFoto: Valter Campanato/Agência Brasil

“Não é ‘apostar no dólar’, mas sim reduzir a correlação com um único ciclo político-cambial. Quem aplica recursos no exterior e continua avaliando o resultado em real (R$), está fazendo errado.”

Everton Barros utiliza um conceito semelhante ao explicar o chamado home bias, a concentração excessiva dos investimentos no próprio país. “O brasileiro médio carrega, sem perceber, uma concentração de risco enorme em um único ativo chamado Brasil, já que o emprego dele depende da economia brasileira, o imóvel está precificado em reais, a aposentadoria, os investimentos, a renda, ou seja, tudo atrelado ao mesmo ciclo econômico, à mesma moeda, ao mesmo ambiente político.”

Na prática, a diversificação internacional pode reduzir a dependência de um único mercado, moeda e ciclo econômico. “Tecnicamente, ela funciona porque com a descorrelação de ciclos as economias não sobem e descem juntas e quando o Brasil enfrenta um ano difícil de juros altos, incerteza eleitoral, fluxo negativo, etc, outras regiões podem estar em expansão.”

O especialista também destaca que a exposição internacional pode funcionar como uma proteção cambial em momentos de estresse doméstico. “Existe um padrão histórico bem documentado: nos momentos de estresse local, o capital sai, e a saída de capital pressiona o real para baixo. Ou seja, exatamente quando a Bolsa brasileira cai, o dólar tende a subir. Quem tem uma parcela do patrimônio dolarizada vê essa parcela se valorizar em reais justamente no momento em que o restante da carteira sofre.”

Especialistas explicam por que os investidores estão tirando dinheiro da Bolsa brasileiraFoto: Freepik/ND MaisEspecialistas explicam por que os investidores estão tirando dinheiro da Bolsa brasileiraFoto: Freepik/ND Mais

Dolarizar agora pode ser uma armadilha?

Apesar da forte saída de estrangeiros, os especialistas alertam que acompanhar o movimento de mercado de forma automática pode trazer riscos. De acordo com Everton Barros, o momento da decisão é fundamental.

“Antes de dolarizar, ele [investidor] precisa refletir sobre qual é o seu horizonte de tempo. Sabemos que o dólar é um excelente protetor no longo prazo, mas é um ativo volátil no curto. Quem pode precisar do dinheiro em seis meses ou um ano não deveria assumir risco cambial, porque corre o risco de precisar resgatar num momento de câmbio desfavorável. Regra prática: recurso dolarizado é recurso com horizonte de anos, não de meses.”

Marcelo Estrela também recomenda cautela para quem pretende aumentar a exposição ao dólar. Segundo o assessor, o primeiro ponto é considerar a moeda dos próprios gastos e objetivos: quem tem despesas em reais e precisa do dinheiro no curto prazo deve evitar uma dolarização elevada. Ele também sugere aportes graduais, em vez de tentar acertar o melhor momento para comprar a moeda.

Outro fator é o custo de oportunidade. “Com CDI perto de 14%, praticamente nenhum outro mercado paga isso em moeda forte de curto prazo. O risco maior não é o dólar, é vender bolsa barata no pior momento e comprar exterior no melhor.”

O alerta também vale para quem reage ao noticiário depois que a movimentação já aconteceu. Barros resume o risco dessa estratégia: “O investidor que entra em pânico com a manchete, vende as ações depois da queda e compra dólar depois da alta realiza a perda duas vezes. Ele transforma uma oscilação de mercado, que é temporária, em prejuízo patrimonial permanente.”

A retirada de R$ 4,72 bilhões da Bolsa em um único dia, portanto, mostra um aumento importante da cautela internacional com os ativos brasileiros, mas não permite concluir, isoladamente, que o capital estrangeiro abandonou definitivamente o país.

Bolsa brasileira B3Bolsa brasileira viveu um dos episódios mais fortes de saída de capital estrangeiroFoto: B3/Divulgação/ND Mais

O fluxo pode mudar conforme as condições de risco, juros, câmbio, preços dos ativos e expectativas políticas. “A síntese que deixo para o leitor é que dolarizar faz sentido como estratégia permanente de diversificação, definida a frio, com percentual, veículo e horizonte claros e não como reação de fim de semana a uma manchete”, conclui Everton Barros.

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