A crise energética e econômica em Cuba reacende comparações com a recente pressão americana sobre a Venezuela e amplia tensões geopolíticas no Caribe.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Durante meses, a crise em Cuba parecia apenas mais um capítulo do longo desgaste econômico da ilha. Agora, porém, a situação começa a ganhar contornos muito mais amplos — e perigosos. O avanço da pressão americana sobre Havana, combinado ao colapso energético cubano, faz crescer uma pergunta que até pouco tempo parecia exagerada: os Estados Unidos tentam repetir em Cuba a estratégia usada recentemente na Venezuela?
A comparação não surge por acaso. Depois da derrubada de Nicolás Maduro na Venezuela, Washington passou a adotar uma combinação de bloqueio energético, pressão diplomática, sanções econômicas, isolamento financeiro e ofensiva narrativa para forçar mudanças políticas na região. Em Cuba, o roteiro começa a apresentar semelhanças inquietantes.
Nos últimos meses, os EUA intensificaram restrições ao envio de petróleo para a ilha, pressionaram parceiros internacionais que abasteciam Havana e aprofundaram o cerco econômico justamente no ponto mais vulnerável do regime: a energia. O resultado é uma crise humanitária crescente, marcada por apagões diários, escassez de combustível, falta de alimentos e deterioração dos serviços públicos.
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Ao mesmo tempo, Washington passou a elevar o tom político. O indiciamento de Raúl Castro por acusações ligadas ao episódio do abatimento de aeronaves civis em 1996 representa uma escalada sem precedentes nas relações entre os dois países. Marco Rubio também deixou claro que a possibilidade de um acordo negociado com o regime cubano é hoje considerada baixa pela Casa Branca.
Mas há uma contradição estratégica interessante. Enquanto amplia a pressão econômica, os Estados Unidos oferecem US$ 100 milhões em ajuda humanitária para Cuba — preferencialmente distribuída pela Igreja Católica e organizações independentes. A lógica parece clara: aumentar o desgaste interno do regime enquanto tenta construir pontes diretas com a população cubana.
O problema é que Cuba não é Venezuela.
Embora ambos os regimes compartilhem raízes autoritárias e estruturas econômicas altamente centralizadas, a Revolução Cubana construiu ao longo de décadas uma identidade política muito mais profunda dentro do aparato estatal e militar. O nacionalismo antiamericano continua extremamente presente na narrativa oficial cubana. E justamente por isso, uma pressão externa excessiva pode produzir o efeito contrário: fortalecer a coesão interna do regime.
Além disso, existe um componente geopolítico relevante. Cuba voltou a atrair atenção de Rússia e China, especialmente após o agravamento da crise energética. Moscou já enviou petróleo para aliviar parcialmente o colapso da ilha, enquanto Pequim ampliou ajuda financeira e humanitária. Ou seja: qualquer tentativa de mudança abrupta em Havana hoje teria impactos muito maiores do que apenas na política doméstica cubana.
Também há um risco estratégico para os próprios Estados Unidos. Donald Trump parece acreditar que pressão máxima gera capitulação. Funcionou parcialmente na Venezuela. Mas Cuba possui uma história muito diferente de resistência a embargos, isolamento e crises econômicas. A ilha sobreviveu ao colapso soviético nos anos 1990, resistiu a décadas de sanções e continua tratando o confronto com Washington como parte central de sua identidade política.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja se Cuba repetirá a Venezuela. Talvez seja se os Estados Unidos realmente compreenderam que Havana não reage da mesma maneira que Caracas.
Porque uma coisa é pressionar um regime enfraquecido. Outra, muito diferente, é tentar desestabilizar um sistema político que transformou a própria resistência externa em instrumento de sobrevivência interna há mais de 60 anos.

