A tarifa de 12,5% dos EUA atinge 60 economias e amplia a pressão sobre parceiros comerciais de WashingtonFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
A nova tarifa de Trump pegou o governo brasileiro de surpresa. A reação do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reveladora: ele afirmou que não esperava a medida, disse que pretende enviar uma nova carta à Casa Branca e demonstrou frustração com o rumo das negociações entre Brasília e Washington.
A surpresa é compreensível. Afinal, o governo apostava que a recente aproximação diplomática entre os dois países havia reduzido as tensões acumuladas ao longo dos últimos meses. O próprio Lula afirmou ter deixado os encontros com Donald Trump convencido de que uma nova etapa do relacionamento bilateral estava sendo construída.
Mas a nova tarifa de Trump revelou algo que talvez Brasília ainda não tivesse percebido completamente: para Washington, as divergências com o Brasil não são apenas circunstanciais nem dependem exclusivamente da relação pessoal entre os dois presidentes. Elas passaram a fazer parte de uma agenda mais ampla de política comercial e estratégica dos Estados Unidos.
Essa nova medida não foi criada especificamente contra o Brasil. O relatório divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos inclui 60 economias investigadas por suposta falha no combate ao comércio de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Entre elas estão China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, África do Sul, Rússia, Chile, Colômbia, Peru e diversos outros parceiros comerciais relevantes dos próprios Estados Unidos.
Isso não torna a situação brasileira menos preocupante. Mas muda completamente a interpretação política do episódio. Parte da narrativa construída pelo governo brasileiro sugere que Washington estaria promovendo uma ofensiva direcionada exclusivamente ao Brasil. Os fatos apontam para algo diferente.
O governo Trump está conduzindo uma estratégia mais ampla de revisão das cadeias globais de suprimentos, utilizando investigações comerciais para pressionar parceiros econômicos em temas que vão desde trabalho forçado até propriedade intelectual, tecnologia e segurança econômica.
O Brasil acabou incluído nesse movimento. Aliás, o próprio Itamaraty reconhece reservadamente que parte dessas medidas possui forte relação com a estratégia americana de contenção da influência chinesa nas cadeias produtivas globais. Esse contexto é importante porque ajuda a separar duas discussões que estão sendo misturadas.
A primeira é comercial. A segunda é política. Do ponto de vista comercial, Washington está utilizando instrumentos previstos em sua legislação para pressionar dezenas de países simultaneamente.
Do ponto de vista político, porém, o governo Lula parece ter optado por uma estratégia de enfrentamento retórico.
Ao comentar a nova rodada de tarifas, o presidente afirmou ter sido pego de surpresa, anunciou que pretende enviar mais uma carta a Donald Trump e voltou a atacar o secretário de Estado Marco Rubio, chamando-o de “latino-americano frustrado”. Além disso, classificou como “imbecis” brasileiros que apoiam as medidas americanas e sugeriu que alguns estariam agindo contra os interesses nacionais por razões eleitorais.
A questão é que nenhuma dessas declarações altera a posição do USTR. Nenhuma reduz tarifas. Nenhuma modifica os cronogramas das audiências públicas marcadas para julho. Nenhuma muda a percepção que Washington construiu sobre temas como comércio digital, propriedade intelectual, combate à corrupção ou regulação das plataformas digitais.
Na verdade, existe o risco de produzir o efeito contrário.
Em negociações internacionais, especialmente quando envolvem governos conhecidos por adotar posições duras, ataques pessoais raramente facilitam acordos.
O problema se torna ainda maior porque o Brasil enfrenta uma situação delicada. Ao mesmo tempo em que precisa defender sua soberania e seus interesses econômicos, também depende de diálogo para evitar uma escalada das restrições comerciais.
Essa combinação exige firmeza, mas também pragmatismo. O governo brasileiro tem razão ao apontar que muitas das acusações americanas são discutíveis e, em alguns casos, claramente influenciadas por interesses políticos. Mas reconhecer isso não elimina a necessidade de negociar. A história do comércio internacional mostra que tarifas raramente são reduzidas por meio de discursos. Normalmente são reduzidas por meio de acordos.
Talvez a principal lição desta semana seja justamente essa.
Durante muito tempo, o governo brasileiro tratou a crise como um problema que poderia ser resolvido principalmente por meio do diálogo entre líderes políticos. A nova tarifa de Trump sugere uma realidade mais complexa. Os Estados Unidos continuam negociando, mas também continuam acumulando instrumentos de pressão comercial sobre o Brasil.
O que Lula não esperava era que, mesmo após reuniões, cartas, grupos de trabalho e negociações bilaterais, Washington avançasse para mais uma rodada de tarifas. E o que o governo brasileiro descobriu é que a disputa deixou de ser apenas política. Ela se tornou institucional, econômica e estratégica — exatamente por isso, muito mais difícil de resolver.

