O Brasil abre os discursos na Assembleia Geral da ONU — porque nos primeiros anos ninguém queria ser o primeiro e o Brasil se voluntariou várias vezes até virar tradição. É o único país no mundo com esse privilégio protocolar conquistado por disposição, não por poderFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Esta semana, 193 países estão representados em Nova York para o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral da ONU, que vai de 22 a 28 de setembro. Presidentes, primeiros-ministros, reis e ministros das relações exteriores de praticamente todo o mundo subirão ao famoso pódio de mármore verde para discursar.
O primeiro a falar será o Brasil.
Não porque o Brasil seja o mais importante, o mais rico ou o mais poderoso. Mas porque num dia nos anos 1950 ninguém queria ser o primeiro — e o Brasil se voluntariou.
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A história da tradição mais improvável da diplomacia
Quando a ONU foi criada em 1945 e o Debate Geral começou a tomar forma, os países-membros se depararam com um problema protocolar singelo: quem fala primeiro?
A lógica sugeriria os países mais poderosos. Mas os países mais poderosos — especialmente os da Guerra Fria — tinham razões políticas para não querer ser o primeiro. Falar primeiro significava definir o tom, expor posições antes de ouvir os outros, assumir um protagonismo que trazia ônus.
Em várias ocasiões no início dos anos 1950, o silêncio na sala foi constrangedor. Ninguém se voluntariava. O Brasil — que já tinha uma tradição de ativismo na Liga das Nações, predecessora da ONU, e que via na diplomacia multilateral uma forma de projeção de poder proporcional à sua dimensão continental — levantou a mão.
Fez isso em várias ocasiões consecutivas. E o que começou como disposição se tornou tradição. Desde então, o Brasil abre formalmente o Debate Geral da Assembleia Geral — seguido pelos EUA como país-anfitrião. Os outros 191 países falam depois, numa ordem determinada por nível de representação, equilíbrio geográfico e ordem de inscrição.
A tradição tem uma elegância que combina bem com o Brasil: não é poder imposto, é protagonismo conquistado pela disposição de aparecer quando outros hesitavam.
O que é a Assembleia Geral — e o que não é
Ontem, escrevemos aqui sobre por que a ONU “não faz nada” — e explicamos que o Conselho de Segurança é o único órgão da ONU com poder de tomar decisões vinculantes. A Assembleia Geral é diferente — e entender a diferença é fundamental para não sair frustrado com o que acontece esta semana em Nova York.
A Assembleia Geral reúne os 193 países-membros da ONU em condições de igualdade formal: cada país tem um voto. Nauru, com 10 mil habitantes, tem o mesmo peso formal que os EUA, com 340 milhões. É o princípio da soberania igualitária dos Estados — cada um conta como um, independentemente do tamanho.
Essa igualdade formal tem consequências práticas. A Assembleia Geral pode aprovar resoluções por maioria — mas essas resoluções não são vinculantes. São declarações políticas, expressões da opinião majoritária da comunidade internacional, instrumentos de pressão moral e diplomática. Não são leis que os países são obrigados a seguir.
O Debate Geral, especificamente, não é um debate no sentido usual da palavra. É uma série de discursos — cada país fala, sem interrupções, sem réplica imediata dos outros. O limite sugerido é de 15 minutos. Fidel Castro ignorou o limite em 1960 e falou por 4 horas e meia. Muammar Gaddafi falou por mais de 90 minutos em 2009. Os presidentes americanos costumam falar por 40 minutos ou mais.
O que acontece além dos discursos
O Debate Geral é a parte visível de uma semana muito mais densa. Ao redor dos discursos formais, acontecem centenas de reuniões bilaterais — os famosos “encontros à margem” — que frequentemente são mais substanciais do que os discursos.
É numa dessas reuniões à margem que líderes que não têm relações diplomáticas formais podem conversar. Que acordos informais são explorados antes de serem formalizados. Que um ministro das relações exteriores e um colega de país adversário trocam mensagens num corredor do Secretariado que nunca aparecem em comunicados oficiais.
Esta semana em Nova York tem uma agenda lateral particularmente densa. Em 23 de setembro, o secretário-geral Guterres organizou uma Cúpula do Clima para marcar os dez anos do Acordo de Paris.
Em 24 de setembro — o mesmo dia da cúpula Trump-Xi na Casa Branca — a ONU realiza uma reunião sobre as ameaças do aumento do nível do mar. Em 25 de setembro, debates sobre reforma do próprio Conselho de Segurança.
E nos bastidores, toda a semana: conversas sobre quem vai substituir Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro de 2026.
O discurso do Brasil desta semana — num contexto único
O Brasil que abre os discursos esta terça-feira não está numa posição comum. Está a 13 dias das eleições presidenciais de 4 de outubro. Está sob pressão americana por causa das tarifas de 37,5% e da acusação de ter “falhado” contra o PCC e CV.
Está com o STF em crise. E está numa janela geopolítica em que sua posição entre EUA e China está sendo definida por uma série de escolhas que o próximo governo precisará ou confirmar ou reverter.
O discurso do Brasil na Assembleia Geral é sempre lido pelo mundo diplomático com atenção específica: que posição o Brasil toma sobre os grandes conflitos? Como equilibra as relações com EUA, China e Europa? Que papel reivindica para si numa ordem internacional em transição?
Num ano eleitoral, o discurso tem uma camada adicional: quem fala está prestes a deixar ou a permanecer no cargo. O que diz define não apenas a posição do Brasil mas o legado político do governante.
A ONU que não para guerras — mas que o mundo não pode dispensar
Escrevemos ontem sobre as limitações da ONU. Mas a Assembleia Geral que começa esta semana é também um lembrete do que o mundo sem ela pareceria.
Sem a ONU, não haveria um fórum onde Nauru e os EUA tenham formalmente o mesmo voto. Não haveria um espaço onde a maioria dos países do mundo pode expressar sua posição sobre qualquer conflito — mesmo que essa expressão não obrigue ninguém. Não haveria o sistema de agências especializadas que alimenta refugiados, vacina crianças e padroniza o tráfego aéreo.
A ONU não é o governo do mundo. É o único espaço onde o mundo inteiro se senta numa mesma sala — e isso, por si só, tem valor que é difícil de quantificar mas fácil de imaginar perdido.
O Brasil vai falar primeiro esta semana porque se voluntariou quando outros hesitavam. É uma metáfora que o próprio Brasil raramente aplica às oportunidades geopolíticas que tem disponíveis e frequentemente deixa passar.

