Ponte Hercílio Luz completa 100 anos nesta quarta-feira, 13 de maio. Foto: Arquivo pessoal/@arqdesterro
Num pedacinho de terra perdido no mar surgiu uma ponte. A Ponte da Independência, que virou Ponte Hercílio Luz. Lembro-me bem de passar por ela no banco de trás do Buick vermelho conversível de meu pai, admirando sua estrutura e a beleza sem par da nossa Ilha. Depois, com minha moto, meio louco, atravessando madrugadas e amanheceres.
E algumas vezes, com meus amigos de Coqueiros, voltando pra casa a pé, rindo todos, pela ponte. Mais tarde, com meus filhos, ao volante do meu carro, já com a responsabilidade de pai. E agora, com meus netos. Uma alegria imensa me invade toda vez que a cruzo. E eles a observam com o mesmo espanto no olhar que eu tinha um dia. Gigantesca. Majestosa.
A ponte é muito mais do que um símbolo ou um mero cartão-postal. Ela foi a grande responsável pelo desenvolvimento urbano da cidade. Sem ela, a Capital talvez tivesse saído daqui na época, escutei do prefeito Topázio. E Florianópolis certamente não seria a mesma.
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Atravessar a ponte é adentrar a Ilha da Magia. É convergir para a terra das moças faceiras, das velhas rendeiras, dos pescadores, boêmios e artistas, das lendas e das bruxas, das praias e do vento sul. Mais do que unir a Ilha ao Continente, ela une os ilhéus ao mundo. Para nós, ver a ponte surgir no horizonte da chegada traz uma sensação imediata de segurança. Depois de uma longa viagem, sua silhueta da senhora nos devolve algo difícil de explicar: a certeza tranquila de estar, enfim, em casa.
Ponte Hercílio Luz, um dos principais cartões postais de FlorianópolisFoto: Andy Puerari/PMF/ND Mais
A aniversariante de hoje é a testemunha silenciosa da nossa história. Viu uma vila de pescadores se transformar em polo político e econômico. Viu o mané ter orgulho de ser mané, quando tentaram dizer que seu sotaque era defeito e sua simplicidade era atraso. Viu os manés conquistarem o mundo. Viu também guerras, golpes, enchentes, apagões, procissões, carnavais, pandemias, juras de amor eterno, namoros escondidos e despedidas definitivas. E viu, e ainda nos vê, passar por ela.
Cada cabo de aço parece carregar um pedaço da vida de quem a atravessa: os sonhos, as dores, os recomeços e as pequenas vitórias cotidianas de um povo que aprendeu a resistir sem perder a ternura. Orgulhosa de nós. E nós, orgulhosos dela.
A velha e bela senhora, sestrosa e dengosa, completa cem anos não como um monumento frio, mas como a matriarca de todas as famílias da Ilha e do Continente. Talvez, lá do alto de sua imponência centenária, olhando a Baía Norte ao entardecer, ela saiba de algo que às vezes esquecemos: cidades não são feitas apenas de concreto e aço. São feitas de afeto. Parabéns, Ponte Hercílio Luz.
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