O Monumento ao Tropeiro em Lages: homenagem aos homens que cruzaram a Serra catarinense a cavalo nos séculos XVIII e XIX.Foto: Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
Existe uma história que começa antes de Lages ser cidade, antes das estradas de asfalto, antes da Festa do Pinhão e antes dos vinhos de altitude. Uma história de homens que conduziam milhares de animais pelos caminhos de pedra do planalto serrano, dormiam ao relento, aqueciam a costela no fogo de chão e tomavam chimarrão ao amanhecer. Esses homens se chamavam tropeiros, e eles construíram, sem saber, a identidade da Serra catarinense.
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Tropeirismo na Serra catarinense: como a cultura dos tropeiros ainda vive no povo serrano. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
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De pedra e memória: o monumento que Lages ergueu para não esquecer os tropeiros — os arquitetos da cultura, da gastronomia e do jeito de ser do povo serrano. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
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Eles cruzaram a Serra a cavalo há 300 anos, e sua herança ainda está no prato, na música e no jeito de ser serrano. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
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O tropeirismo moldou a identidade, a gastronomia e as tradições da Serra catarinense. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
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O Monumento ao Tropeiro em Lages: homenagem aos homens que cruzaram a Serra catarinense a cavalo nos séculos XVIII e XIX. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
O Caminho das Tropas que moldou a região
O tropeirismo teve início no Brasil no início do século XVIII e se prolongou até o século XX, quando o tropeiro foi aos poucos substituído pelo caminhoneiro. Durante esse período, o Caminho das Tropas, que conectava o Rio Grande do Sul ao mercado de Sorocaba, em São Paulo, transformou a Serra catarinense em um entreposto vital.
O Caminho das Tropas, que outrora conectava o Rio Grande do Sul ao mercado de Sorocaba, transformou a região em um entreposto vital durante os séculos XVIII e XIX. O tropeirismo não foi apenas um ciclo econômico: foi o arquiteto da identidade local.
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Lages, fundada em 1766 pelo bandeirante Antônio Correia Pinto de Macedo, nasceu exatamente nesse contexto, como ponto de descanso e reabastecimento das tropas que transitavam pelo planalto. São Joaquim, Bom Jardim da Serra e outros municípios da Serra catarinense também foram moldados por esse fluxo constante de homens, animais e mercadorias.
As taipas de pedra que resistiram ao tempo
Um dos vestígios mais visíveis do tropeirismo na Serra catarinense são as taipas de pedra, muros construídos sem argamassa, apenas com pedras empilhadas, que delimitam as propriedades rurais da região. Algumas têm mais de 200 anos, e ainda estão de pé.
As tradicionais fazendas centenárias de Lages, demarcadas por taipas (muros de pedra), continuam desenvolvendo as atividades primárias, agregando o turismo como nova fonte de renda.
Na Coxilha Rica, em Lages, esse cenário é especialmente impressionante: fazendas históricas cercadas de taipas, campos abertos e araucárias formam uma paisagem que parece parada no tempo, e que atrai visitantes de todo o país em busca de autenticidade e cultura campeira.
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Um dos vestígios mais visíveis do tropeirismo na Serra Catarinense são as taipas de pedra — muros construídos sem argamassa, apenas com pedras empilhadas, que delimitam as propriedades rurais da região. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
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As taipas de pedra que resistiram ao tempo. – Divulgação/Arquivo Prefeitura de Lages/ND
A gastronomia que nasceu no fogo de chão
O tropeiro não tinha cozinha, tinha o chão e o fogo. E dessa simplicidade nasceu uma das tradições gastronômicas mais ricas do Sul do Brasil.
Quando se pensa no Sul do nosso país, logo imaginamos aqueles espetos fincados no chão, com peças enormes de carne sendo lentamente assadas pelas chamas, o famoso fogo de chão, que surgiu nas fazendas. Os peões faziam um buraco no chão e fincavam lanças de madeira com pedaços de costela coberta de sal grosso, onde ficavam horas assando. Quando terminavam o trabalho, os peões sentavam-se em volta do fogo e, ao sabor do chimarrão, degustavam lentamente a costela.
Essa tradição sobreviveu séculos e ainda define o cardápio das fazendas e dos grandes eventos da Serra catarinense. Na Festa do Pinhão, o fogo de chão é presença garantida. Nos hotéis fazenda de Lages, o turista ainda pode sentar ao redor do fogo e comer costela assada lentamente, exatamente como os tropeiros faziam.
O Frescal de São Joaquim: a carne que o tropeiro inventou
Um dos produtos mais emblemáticos da herança tropeira na Serra catarinense acaba de ganhar reconhecimento oficial. O Frescal de São Joaquim conquistou recentemente a Indicação Geográfica (IG) concedida pelo INPI, tornando-se patrimônio cultural catarinense.
Na época, tropeiros conduziam grandes tropas de gado do Rio Grande do Sul até Sorocaba, no interior paulista, utilizando a região de São Joaquim como ponto estratégico de descanso e engorda dos animais. Para garantir a conservação da carne durante as longas viagens, surgiu o hábito de salgar e curar o produto. Com o passar das décadas, as famílias da Serra catarinense aperfeiçoaram a técnica até criar um produto único, diferente tanto do charque quanto da carne de sol tradicional.
O nome “Frescal” surgiu há cerca de 50 anos, quando um jornalista paulista provou a carne em uma churrascaria local e afirmou que ela não era exatamente fresca nem charque, mas um “frescal”. A expressão pegou, e hoje é sinônimo da identidade gastronômica de São Joaquim.
O chimarrão, o poncho e os costumes que ficaram
Mais do que comida e estradas, o tropeirismo deixou na Serra catarinense um modo de ser. O chimarrão que circula de mão em mão ao redor do fogão a lenha. O poncho que aquece nas madrugadas de inverno. A hospitalidade genuína de receber o visitante como se fosse família. O respeito pela terra e pelo gado.
Mais do que uma cadeia produtiva, o tropeirismo criou uma cultura, e essa cultura é amplamente cultivada até os dias de hoje na Região Sul, na gastronomia, na economia, nas artes, principalmente a música e a literatura, no artesanato, no folclore e nas lendas.
As Sapecadas da Canção Nativa em Lages, os festivais de música gauchesca espalhados pela Serra e os rodeios crioulos que reúnem famílias inteiras nos fins de semana de inverno são expressões vivas dessa herança. O tropeiro foi embora, mas a cultura que ele criou ficou.
O turismo rural que nasceu dessa história
Não é coincidência que Lages seja a pioneira do turismo rural no Brasil. Na década de 1980, os fazendeiros da região perceberam que a herança tropeira, as fazendas centenárias, o fogo de chão, a costela, o chimarrão, tinha um valor que ia além da produção agrícola. Abriram as porteiras para os visitantes, e nasceu uma das experiências turísticas mais autênticas do Brasil.
Hoje, as fazendas históricas da Serra catarinense recebem turistas de todo o país, e do exterior, que querem entender, mesmo que por um fim de semana, como era viver o ciclo do tropeirismo. Cavalgadas, fogo de chão, ordenha, colheita de pinhão e noites ao relento com o frio da Serra são as experiências que mais se aproximam do que esses homens viveram por séculos.
Uma herança que não passa
De pequenas a grandes fazendas produtoras de gado, leite, pinhão, vinho e embutidos, com o famoso churrasco, e além disso suas características culturais diferenciadas, mais o clima das Serras Catarinense e Gaúcha onde a neve é o grande atrativo, esta região se tornou um dos destinos mais queridos do Brasil.
O tropeiro não existe mais. Mas cada vez que alguém senta ao redor de um fogo de chão em Lages, prova um Frescal em São Joaquim, toma chimarrão numa manhã de geada em Bom Jardim da Serra ou atravessa uma fazenda delimitada por taipas de pedra de 200 anos, está, sem saber, repetindo um gesto que começou no século XVIII.
A Serra catarinense é, em muitos sentidos, a casa que o tropeiro construiu. E ela ainda está de pé.

