O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (c) reunido com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
As derrotas de Lula no Congresso marcam uma série de problemas neste terceiro mandato. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acumula ao menos 23 derrotas neste período, segundo levantamento do Poder360 organizado pelo Ranking dos Políticos.
O balanço reúne episódios considerados relevantes, como vetos presidenciais derrubados, projetos retirados de pauta por falta de votos, derrotas em comissões, medidas econômicas barradas e a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A contagem aponta seis derrotas em 2023, cinco em 2024, oito em 2025 e quatro em 2026. O levantamento considera diferentes tipos de derrotas, que vão desde votações perdidas no plenário até pautas que o governo não conseguiu fazer avançar.
Receba as principais notícias de política e eleições
Entre os episódios de maior impacto estão a derrubada do veto ao marco temporal das terras indígenas, a resistência do Congresso a medidas econômicas como o aumento do IOF e, em 2026, a rejeição inédita de uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal.
Lula 3 enfrenta Congresso diferente dos primeiros mandatos
A comparação entre governos precisa considerar que não existe uma metodologia oficial única para medir “derrotas presidenciais” no Congresso. A composição do Legislativo, as regras de funcionamento e o peso dos partidos mudaram ao longo das últimas décadas, segundo apontou o levantamento.
O principal contraste está na capacidade de articulação política, aponta o documento, baseado na dificuldade de intelocução política entre o Planalto e o Congresso, com resistência a nomes do Executivo e trocas de comando na pasta.
Nos dois primeiros mandatos de Lula, entre 2003 e 2010, o governo conseguiu formar uma coalizão parlamentar mais previsível. A aproximação com partidos de centro e a distribuição de espaços na Esplanada ajudaram o Executivo a aprovar projetos considerados estratégicos.
Já neste terceiro mandato, iniciado em 2023, Lula chegou ao Planalto após uma eleição marcada por uma ampla frente contra Jair Bolsonaro (PL). A aliança eleitoral, porém, não se transformou automaticamente em uma base parlamentar fiel.
O governo passou a depender de negociações específicas para cada votação, e passou a depender do Centrão para aprovar matérias.
CPMI do 8 de janeiro mostrou dificuldades do governo em controlar agenda política do CongressoFoto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil1
2023: os primeiros sinais de dificuldade no Congresso
Logo no primeiro ano, o Planalto acumulou seis derrotas relevantes, segundo destaca o documento.
Entre elas esteve o avanço da oposição com a instalação da CPMI do 8 de Janeiro, além da criação da CPI do MST, movimentos que mostraram dificuldade do governo em controlar a agenda política do Congresso.
Outro episódio foi o avanço do marco temporal das terras indígenas. O Congresso derrubou o veto presidencial e manteve a tese que restringia demarcações de terras indígenas às áreas ocupadas em 5 de outubro de 1988.
Também em 2023, o governo enfrentou dificuldades com o chamado PL das Fake News, retirado de pauta por falta de votos.
A disputa pelo comando de comissões da Câmara também evidenciou a força do Legislativo e a dificuldade do Executivo em ocupar espaços estratégicos.
Um dos embates mais desafiadores ocorreu com a indicação de Nikolas Ferreira (PT-MG) para comandar a Comissão de Educação na Câmara, tradicional reduto da esquerda.
2024: vetos derrubados e desgaste em pautas sociais
No ano seguinte, o Congresso manteve o movimento de contrariar decisões do presidente Lula.
Entre os principais episódios esteve a derrubada do veto presidencial à lei que restringiu as chamadas “saidinhas” de presos.
O Legislativo também rejeitou vetos relacionados a temas orçamentários e avançou em pautas que contrariavam posições defendidas pelo governo.
A desoneração da folha de pagamentos foi outro ponto de tensão. Após a derrubada do veto presidencial, o governo precisou negociar uma transição e buscar alternativas para preservar parte da arrecadação.
Ao mesmo tempo, propostas como a regulamentação do trabalho por aplicativos não avançaram por falta de consenso.
Enquanto o relator estava coom o texto pronto para votação na Câmara, o Planalto barrou o avanço do projeto por discordar dos valores pagos a motoristas.
Ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad tentou negociar aumento do IOF com CongrressoFoto: Diogo Zacarias/MF/ND
2025: IOF vira símbolo da dificuldade econômica
A área econômica passou a concentrar parte dos principais reveses do governo Lula no Congresso.
A derrota mais emblemática foi a derrubada do decreto que aumentava o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
A medida era considerada importante pela equipe econômica para ampliar receitas e ajudar no cumprimento das metas fiscais. O governo estimava arrecadar cerca de R$ 20,5 bilhões com a mudança.
O Congresso, porém, rejeitou a iniciativa. Na Câmara, o decreto foi derrubado por 383 votos a 98. No Senado, a decisão também foi contrária ao Executivo.
O episódio obrigou o governo a buscar alternativas para recompor receitas e expôs os limites da articulação do Planalto mesmo em uma pauta considerada prioritária.
Ainda em 2025, o governo enfrentou derrotas envolvendo a lei das eólicas offshore, regras trabalhistas para atletas e a disputa pela condução da CPMI do INSS. Numa manobra, a oposição conseguiu derrubar nomes da base para conduzir as investigações.
Parlamentares de oposição comemoraram rejeição de Jorge Messias pelo plenário do SenadoFoto: Marcel van Hattem/@marcelvanhattem/Instagram
2026: rejeição de Messias marca crise política
O episódio de maior impacto político deste terceiro mandato de Lula ocorreu em abril deste ano, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF.
O advogado-geral da União, indicado por Lula, recebeu 34 votos favoráveis e 42 contrários. Para ser aprovado, precisava de pelo menos 41 votos.
A rejeição entrou para a história como a primeira vez, desde a República, que o Senado recusou uma indicação presidencial ao Supremo em mais de um século.
A derrota foi interpretada como um sinal de enfraquecimento da articulação do governo entre os senadores.
No dia seguinte, o Congresso também derrubou o veto ao chamado PL da Dosimetria, ampliando o desgaste político do Planalto.
Vetos presidenciais se tornam principal marca do desgaste
Uma das características do terceiro mandato de Lula foi a quantidade de vezes em que o Congresso passou por cima de uma decisão presidencial.
A derrubada de vetos mostra que o Executivo não conseguiu sustentar posições aprovadas pela Presidência mesmo após a tramitação das propostas.
Além do marco temporal e das saidinhas, outros vetos relacionados a temas econômicos, sociais e eleitorais foram revertidos pelos parlamentares.
Comparação com Dilma e Bolsonaro
A dificuldade de relacionamento com o Congresso também marcou outros governos recentes, mas em contextos diferentes.
No segundo mandato de Dilma Rousseff, a perda de apoio político no Legislativo contribuiu para a crise que terminou no processo de impeachment em 2016.
Já Jair Bolsonaro iniciou o mandato com uma postura de confronto com parte do Congresso, mas posteriormente ampliou a aproximação com o centrão para construir uma base de apoio.
No caso de Lula 3, o desafio foi transformar uma ampla aliança eleitoral em uma coalizão parlamentar estável.
Lula chega ao final do terceiro mandato com preocupações políticas e pré-campanha para a reeleiçãoFoto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Reprodução/ND Mais
Governo chega ao fim do mandato pressionado
A sequência de derrotas não significa que o governo deixou de aprovar projetos importantes. A reforma tributária, por exemplo, avançou durante o mandato de Lula.
O problema, neste caso, foi a dificuldade de manter uma maioria consistente para sustentar a agenda presidencial.
Com a aproximação das eleições de 2026, o ambiente tende a ficar ainda mais complexo. Parlamentares passam a priorizar estratégias eleitorais próprias, enquanto o governo busca recuperar capacidade de articulação no Legislativo.

