Violência atinge principalmente mulheres entre 18 e 39 anosFoto: Reprodução/Freepik/ND
A Prefeitura de Florianópolis divulgou, nesta semana, o primeiro Relatório de Dados da Violência Contra as Mulheres no município. O documento inédito compila e analisa registros de atendimentos públicos e indicadores de segurança pública entre o início de 2019 e o final de 2024.
O relatório se baseia em dados de órgãos municipais como o CREMV (Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência), a Casa de Acolhimento e o recém-inaugurado Espaço Acolher, além de estatísticas do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina) e da SSP-SC (Secretaria de Estado da Segurança Pública).
Principais indicadores da violência contra a mulher em Florianópolis
O levantamento revela dados alarmantes sobre os crimes praticados contra as mulheres no município e a crescente busca por apoio institucional. Entre eles, está a alta demanda por pedidos de Medidas Protetivas de Urgência, número que saltou de 1.196, em 2020, para 1.778, em 2023.
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Entre janeiro e novembro de 2024, já haviam sido contabilizados 1.568 pedidos de proteção feitos ao Poder Judiciário.
O pedido de medida protetiva pode ser feito diretamente pela vítima em uma delegacia da Polícia Civil, ao Ministério Público, à Defensoria Pública ou pelo telefone 180Foto: Polícia Civil/Reprodução/ND
As denúncias de violência também apresentam um número expressivo: entre 2020 e 2023, a capital registrou 8.807 crimes de ameaça e 4.502 casos de lesão corporal dolosa (quando há intenção de ferir a vítima). Em ambos os crimes, os meses de maior incidência coincidem com a temporada de verão, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.
Outra constatação alarmante foi relacionada aos registros de estupros consumados, que cresceram consecutivamente ano a ano, passando de 27 casos em 2020 para 35 em 2023. A idade média das vítimas desse crime na cidade é de pouco mais de 26 anos.
O perfil da violência
De acordo com o CREMV, os principais autores das agressões são companheiros e ex-companheiros das vítimas. O relatório aponta que o risco de violência frequentemente se eleva logo após o término dos relacionamentos, momento em que o agressor tenta manter mecanismos de poder e dominação sobre a mulher.
Dos 2.272 atendimentos prestados pelo centro entre 1 de janeiro de 2019 até o dia 16 de dezembro de 2024, 826 denunciavam ex-companheiros como autores das agressões. Os parceiros atuais concentraram 525 das denúncias.
Ex-companheiros são os maiores autores de violência contra as mulheres em FlorianópolisFoto: Reprodução/Freepik
A violência psicológica desponta nos atendimentos como a mais reportada, com 1.418 casos. Embora muitas vezes considerada silenciosa ou invisível, ela é classificada pelas equipes técnicas como o alicerce para que outras formas de abuso, como a violência física, moral e sexual, se materializem.
Outro fator de risco mapeado foi o crescimento de casos em que o uso abusivo de álcool e drogas por parte do agressor atuou como o estopim ou agravante para a violência doméstica.
A reincidência como um dos maiores impasses para o fim da violência
Um dos pontos mais preocupantes identificados no relatório é a natureza cíclica da violência doméstica. Os dados do CREMV apontam um patamar elevado e persistente de reincidência: foram 73 mulheres que voltaram a sofrer agressões em 2019, número que subiu para 91 reincidentes em 2023 e atingiu 86 casos até dezembro de 2024.
O documento também liga o alerta para a subnotificação. Os registros de violência contra mulheres com deficiência e contra a população LBTQIA+ são estatisticamente muito baixos. A análise conclui que a escassez de dados reflete a dificuldade de acesso dessas populações específicas aos canais de denúncia, gerando uma invisibilização que precisa ser enfrentada com políticas públicas direcionadas e inclusivas.
Cremv presta atendimento à mulheres vítimas de violênciaFoto: Divulgação/PMF/Divulgação/ND
Fortalecimento da rede pública
Apesar dos desafios, Florianópolis se destaca positivamente no cenário estadual por sua estrutura institucional. A rede municipal conta com o suporte do CREMV para atendimento psicossocial de média complexidade, e com a Casa de Acolhimento (Projeto Amadas), que oferece abrigo seguro provisório a mulheres sob risco de morte e a seus filhos de até 18 anos.
Entre os anos de 2022 e 2024, a Casa realizou uma média de 140 a 160 acolhimentos anuais, sendo que cerca de 40% dos abrigados eram crianças e adolescentes acompanhando suas mães.
Mais recentemente, em agosto de 2024, o município inaugurou o Espaço Acolher no MultiHospital, que integra no mesmo local serviços de saúde 24h e segurança pública para evitar o deslocamento e a revitimização de pessoas em situação de violência. Em seus primeiros quatro meses de funcionamento, a estrutura realizou 296 atendimentos de urgência.

