Quatro países já aceitaram operações militares dos EUA contra o narcotráfico em seu território. A pergunta que fica é sobre o que os demais estão fazendo sozinhos.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
A guerra às drogas saiu do mar e pisou em terra firme? Desde setembro do ano passado, os Estados Unidos bombardeiam embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico oriental. O saldo, segundo a AFP, já passa de 215 mortos — sem julgamento, sem processo, sem direito de defesa. Washington chama isso de guerra contra organizações terroristas.
Críticos chamam de execução extrajudicial. Os dois lados têm razão, e é exatamente aí que mora o problema: quando uma potência decide que pode matar por decreto, a discussão jurídica vira detalhe.
Quem já disse sim — e o preço que pagam por isso
Equador abriu o caminho em março. Depois vieram Colômbia, Guatemala e Honduras, que aceitaram formalmente permitir que forças dos EUA conduzam operações conjuntas contra grupos classificados por Washington como narcoterroristas. Hegseth foi direto: “será o mesmo efeito em terra” que já se viu no mar.
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Para esses governos, a lógica é pragmática, mas cara: aceitar a presença americana em troca de recursos e inteligência significa ceder parte do controle sobre o uso da força no próprio território.
É uma barganha desigual — e cada país que assina reduz o custo político dos próximos a fazer o mesmo, ampliando a influência direta de Washington sobre a segurança da região.
O problema não é a ausência do Brasil na lista — é a ausência de um plano
O Brasil abriga uma das maiores organizações criminosas transnacionais do continente, com rotas que atravessam Bolívia e Paraguai rumo ao litoral brasileiro e à Europa.
Diferente dos países que assinaram acordos com os EUA, o Brasil não terceirizou essa guerra — e isso, em princípio, é coerente com qualquer defesa séria de soberania nacional.
O problema é que soberania não se sustenta apenas recusando ingerência externa. Ela se sustenta apresentando uma resposta própria que efetivamente funcione.
E é exatamente aí que a política de segurança brasileira patina: décadas de operações pontuais, presídios que funcionam como sede administrativa de facções e uma fronteira porosa que segue sendo corredor logístico do tráfico internacional, sem que isso tenha mudado de forma estrutural.
Recusar tropas estrangeiras é uma escolha legítima. Recusar sem colocar algo robusto no lugar é apenas transferir o custo do discurso soberanista para quem convive com o crime organizado todos os dias — o brasileiro comum, não o Estado.
Soberania não é ausência de resposta
O padrão que se desenha na região prova que a alternativa à cooperação militar americana não pode ser a inércia.
Países como Colômbia e Equador não assinaram esses acordos por falta de compromisso com a própria soberania — assinaram porque, diante da escala do problema, concluíram que não tinham estrutura própria suficiente.
O Brasil, com seu peso econômico, populacional e institucional, tem — ou deveria ter — condições de construir essa estrutura própria sem depender de tropas de fora.
A pergunta que caberia fazer não é se o país vai ou não aceitar presença militar estrangeira, mas por que, com todo esse potencial, a resposta brasileira ao crime organizado segue tão aquém do tamanho do problema.
O que vem a seguir
Hegseth já deixou claro que a lista de países parceiros pode crescer “onde quer que operem grupos do narcotráfico”. Isso significa que a pressão sobre países que ainda não assinaram — Brasil incluído — tende a aumentar, ainda que apenas como comparação regional.
O ponto não é se o Brasil vai entrar nessa lista. É se o país vai continuar adiando a construção de uma resposta própria à altura do problema, ou se vai seguir tratando a recusa à cooperação estrangeira como se isso, por si só, já fosse uma política de segurança.

