Na janela de casa, dona Ana recebe o carinhoda filha Regina (à esq.), acompanhada daneta Bruna (à dir.) e da bisneta Joana.Foto: Alan Pedro/ND
Por trás da fala espontânea, do riso fácil e da memória ainda impressionante aos 89 anos, Ana Melo de Souza carrega uma história que ajuda a contar também a transformação da maternidade brasileira ao longo do último século.
Nascida em São José, criada entre a roça, o engenho de farinha e uma família numerosa, ela viu o mundo mudar sem abandonar aquilo que considera essencial: o amor pelos filhos.
No bairro Roçado, sentada na sala da casa onde recebe filhos, netos e bisnetos, dona Ana observa três gerações da própria família enquanto fala sobre trabalho, criação, dificuldades financeiras, religião, acolhimento e o desafio permanente de proteger quem ama. Ao lado dela estão a filha Regina Ana de Souza, de 58 anos, a neta Bruna Regina da Conceição, de 38, e a bisneta Joana Dominoni Velloso, de 6.
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A conversa entre as quatro gerações atravessa quase cem anos de mudanças sociais e culturais. Passa pelas diferenças entre criar os filhos na roça ou em meio às redes sociais, pela transformação do papel da mulher dentro da família e pela pressão contemporânea sobre a maternidade. Ao mesmo tempo, revela algo que permanece praticamente intacto: a ideia de que ser mãe é um exercício permanente de presença e cuidado.
Primeiro filho aos 23 anos
Antes de se tornar mãe de oito filhos, Ana viveu uma infância marcada pelo trabalho pesado. Filha de uma família com 16 irmãos, cresceu entre Forquilhas, Colônia Santana e Praia Comprida, sempre ligada à vida rural. A produção de farinha fazia parte da rotina da família e, muitas vezes, os próprios filhos substituíam os bois no engenho. “Botava a canga aqui no pescoço e fazia o papel do boi para fazer farinha”, lembra.
Ana teve o primeiro filho aos 23 anos e recorda do medo que sentiu ao descobrir a gravidez antes do casamento. “Como é que eu vou contar pro meu pai e pra minha mãe?”, diz.
O acolhimento veio da sogra, figura que até hoje ela define como uma segunda mãe. Ana viveu dez anos na casa dela até conseguir construir a própria residência. Quando se mudou, já tinha cinco filhos.
A vida mudou radicalmente depois da morte do marido. Viúva há mais de quatro décadas, precisou assumir sozinha a criação dos filhos, conciliando trabalho, casa e educação das crianças. “Saía às 5h30 e chegava às 19h”, relembra.
Enquanto Ana trabalhava em faxinas, os filhos ajudavam como podiam. “Ela dava uma missão para cada um. Uma fazia comida, outra cuidava da roupa, os meninos vendiam jornal”, conta Regina.
Mesmo em meio às dificuldades, o acolhimento permaneceu como marca da família. “Às vezes faltava dinheiro, mas nunca faltou amor”, resume a matriarca.
Cuidado constante, mesmo na dificuldade
Regina cresceu observando a mãe enfrentar dificuldades sem deixar de cuidar dos filhos. Quando se tornou mãe, aos 18 anos, reproduziu parte dessa lógica.
Durante mais de uma década permaneceu em casa cuidando integralmente das filhas. Ela lembra das fraldas de pano espalhadas pelo varal e da tentativa constante de oferecer às meninas uma infância melhor do que a que teve.
Quando teve sua filha, aos 18 anos, Regina (à esq.) reproduziu parte do comportamento que observou na mãe, dona Ana.Foto: Alan Pedro/ND
“Eu só sabia que queria dar o meu melhor para elas”, afirma. Ao olhar para trás, Regina percebe diferenças importantes entre a maternidade da sua geração e a das mulheres mais jovens. “A gente vivia mais para conversar. Hoje cada um fica no celular”, comenta.
Ana concorda imediatamente. “O amor vem da conversa”, responde.
A exaustão das mães contemporâneas
Embora as três mulheres reconheçam avanços importantes nas relações familiares, existe também um consenso sobre o aumento da pressão emocional sobre as mães contemporâneas.
Bruna acredita que as mulheres da sua geração enfrentam um tipo diferente de sobrecarga. Se antes o desafio estava concentrado na sobrevivência financeira, hoje a cobrança envolve múltiplas áreas ao mesmo tempo.
“A gente precisa trabalhar, cuidar da casa, acompanhar emocionalmente os filhos e ainda existe uma cobrança absurda de perfeição”, afirma.
Mãe da pequena Joana, ela fala sobre o impacto das redes sociais e da sensação de que os filhos precisam ter desempenho elevado desde muito cedo. “Parece que eles têm que estudar mil coisas e serem impecáveis em tudo”, diz.
Apesar das diferenças entre as gerações, algumas angústias permanecem iguais. “Mãe sempre acha que está falhando”, resume Regina.
Bruna e a filha Joana sentem, na casa da “bisa”, o acolhimento que sempre marcou asrelações entre as mulheres da famíliaFoto: Alan Pedro/ND
Ao longo da conversa, também surgem diferenças na forma como cada geração enxerga alimentação, educação e rotina infantil. Bruna relembra os conflitos que surgiram quando Joana nasceu, principalmente em relação aos cuidados com açúcar e alimentação.
“Para minha avó e para minha mãe, poder dar comida é demonstração de amor. Para nossa geração existem muitas outras preocupações. Vai que a criança tem alguma alergia ainda não identificada”, explica.
O acolhimento como herança
Apesar das diferenças geracionais, entre elas existe uma característica que aparece repetidamente durante a conversa: o acolhimento.
Ana acolheu Regina quando ela engravidou ainda adolescente. Regina fez o mesmo com Bruna durante a juventude. Bruna afirma que cresceu sabendo que poderia conversar sobre qualquer assunto dentro de casa. “Eu sempre tive uma mãe que me ouviu”, conta.
Ela diz que talvez a mãe não tivesse todas as respostas, mas nunca houve julgamento. “Ela sempre foi mãe, não amiga. Mas era uma mãe que acolhia”, define.
Quando dona Ana olha para a filha, a neta e a bisneta, um sentimento aflora: “Eu sou muito feliz!”Foto: POLLIANE SJ/Divulgação/ND
Mesmo com as mudanças no conceito de maternidade ao longo das décadas, o senso de família permanece forte. A casa de Ana continua sendo ponto de encontro de filhos, netos e bisnetos. Joana resume a importância daquele espaço de maneira simples:
“Eu gosto de brincar, andar de bicicleta e pegar hortelã no quintal”, conta a bisneta.
Recentemente, a família ganhou mais duas integrantes: gêmeas que nasceram há poucas semanas e deram a Ana um novo título dentro da família, o de tataravó.
Instinto de proteção, fé e religiosidade como pilares
Ao longo da conversa, filha e neta descrevem Ana como a principal referência feminina da família. “Ter ficado viúva com oito filhos e conseguido criar todos eles não é pouca coisa”, afirma Bruna.
Regina também reconhece na mãe a responsável por construir os vínculos familiares que permanecem até hoje. “Ela sempre protegeu todo mundo”, diz.
Na iminência de completar 90 anos, Ana ainda acompanha a rotina dos filhos, se preocupa quando alguém demora para chegar em casa e mantém hábitos que atravessam gerações, como escrever pedidos de oração e colocá-los embaixo das imagens dos santos espalhados pela casa.
A religiosidade aparece como um dos pilares afetivos da família. Embora as gerações mais novas não mantenham exatamente a mesma prática religiosa da matriarca, todas afirmam carregar a fé ensinada por ela.
“Talvez a religiosidade tenha mudado, mas a fé ficou”, resume Bruna.
Ao final da conversa, as diferenças entre as maternidades de cada época ficam evidentes. Ana criou os filhos em meio à pobreza e ao trabalho pesado. Regina viveu a maternidade ainda muito jovem, dedicada integralmente às filhas. Bruna enfrenta as pressões de uma rotina acelerada e marcada por cobranças constantes.
As formas de criar mudaram, assim como os desafios. Mas há algo que permanece: a preocupação quando um filho demora, o impulso de proteger e a tentativa permanente de construir um ambiente seguro para quem vem depois.
Ana olha para a filha, a neta e a bisneta reunidas na sala e resume o sentimento com simplicidade: “Eu sou muito feliz”.
A maternidade na era da comparação
Se para a tataravó Ana a maternidade esteve ligada principalmente à sobrevivência e ao cuidado prático dos filhos, para as gerações seguintes o papel de mãe passou a incorporar questões emocionais e sociais mais complexas. Na avaliação da psicóloga, sexóloga e terapeuta de casais Eliza Góes, a transformação da maternidade acompanha as mudanças da sociedade ao longo das décadas.
“A maternidade vai mudando de geração para geração porque existe influência da cultura, da informação e do desenvolvimento humano”, explica.
Segundo a especialista, a forma como cada mulher foi acolhida enquanto filha influencia diretamente o modo como ela irá exercer a maternidade. Ainda assim, experiências negativas não determinam a repetição de padrões familiares.
“Existe a possibilidade de ressignificar experiências e construir relações mais saudáveis”, afirma.
Para Eliza, um dos maiores desafios das mães contemporâneas está relacionado ao excesso de informação e à influência das redes sociais. Embora o acesso a conteúdos sobre criação infantil seja positivo, a comparação constante gera sensação de insuficiência. “Parece que hoje existe uma maternidade de currículo. As mães sentem que precisam estudar teorias e dar conta de tudo perfeitamente para se sentirem boas mães”, observa.
Para Eliza, a transformação da maternidade acompanha as mudanças na sociedadeFoto: CRIS SCHULZE/DIVULGAÇÃO/ND
Na avaliação da psicóloga, esse excesso de referências externas acaba afastando muitas mulheres da própria intuição. “É tanta comparação que muitas vezes elas deixam de escutar o próprio coração”, diz.
Outro fenômeno percebido pela especialista é o aumento do número de mulheres que passaram a refletir mais profundamente sobre a decisão de ter filhos. Questões relacionadas à carreira, independência financeira e sobrecarga emocional aparecem com frequência nos consultórios. “Muitas mulheres estão repensando a maternidade porque entendem o quanto ela exige tempo, energia e renúncia”, afirma.
Para a especialista, apesar das mudanças sociais e comportamentais das últimas décadas, a maternidade continua sendo profundamente atravessada pelas relações afetivas construídas dentro da família e pelas referências emocionais que cada mulher carrega da própria história.

