As denúncias sobre crianças mortas em Gaza mostram como parte da opinião pública passou a enxergar guerras como disputas entre torcidas.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
As denúncias envolvendo crianças mortas em Gaza recolocam no centro do debate uma questão que vai muito além de Israel, Hamas, Hezbollah ou Irã. Notícias a esse respeito voltaram a ocupar as manchetes internacionais nesta semana.
Enquanto isso, no Líbano, o Hezbollah acusa Israel de violar o cessar-fogo após ataques que deixaram vítimas civis. Em Gaza, uma comissão de inquérito ligada à ONU afirma que crianças palestinas teriam sido deliberadamente alvejadas por forças israelenses durante o conflito. Israel rejeita as acusações e afirma que o relatório ignora o papel do Hamas e as circunstâncias operacionais da guerra.
Independentemente de quem esteja correto nas disputas jurídicas e políticas, existe uma reflexão que deveria estar acima das narrativas oficiais: quando inocentes estão morrendo, especialmente crianças, a lógica da torcida por este ou aquele lado se torna moralmente perigosa.
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Nos últimos anos, guerras passaram a ser consumidas por muitas pessoas da mesma forma que campeonatos esportivos. Escolhe-se um lado, veste-se uma camisa imaginária e passa-se a interpretar todos os acontecimentos a partir daquela preferência inicial. O sofrimento humano deixa de ser o centro da análise. O foco passa a ser defender o “próprio time”.
Foi exatamente isso que aconteceu em diferentes momentos da guerra na Ucrânia, do conflito entre Israel e Hamas e agora também na escalada envolvendo Irã, Hezbollah e Israel. Para uma parcela do público, qualquer ação de um dos lados é automaticamente justificável. Para outra parcela, qualquer ação do adversário é automaticamente condenável.
A realidade das guerras, porém, raramente é tão simples.
O Hamas é uma organização terrorista responsável pelos ataques de 7 de outubro de 2023, que deixaram mais de mil mortos em Israel e provocaram uma das maiores crises de segurança da história do país. Isso é um fato.
Também é fato que as operações militares subsequentes em Gaza produziram um nível de destruição humana e material sem precedentes na região. Entre os mortos estão milhares de civis, incluindo um número extremamente elevado de crianças.
As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Da mesma forma, o Hezbollah atua como uma organização armada apoiada pelo Irã e representa uma ameaça concreta à segurança israelense. Mas isso não transforma automaticamente qualquer morte civil no Líbano em dano colateral aceitável.
O problema das torcidas geopolíticas é que elas eliminam a capacidade de lidar com essas complexidades.
Quando alguém passa a enxergar o conflito apenas pela lente da identidade política, surge um fenômeno perigoso: a desumanização seletiva. As vítimas do próprio lado recebem nomes, rostos e histórias. As vítimas do outro lado viram números.
É justamente essa lógica que prolonga guerras ao longo da história.
Governos, grupos armados e lideranças radicais dependem dessa desumanização para manter o apoio popular. Quanto menos as pessoas enxergam a humanidade do outro lado, mais fácil se torna justificar violência, bloqueios, bombardeios e represálias sucessivas.
A acusação feita pela comissão da ONU é extremamente grave porque sugere intenção deliberada contra crianças. Se comprovada, representaria uma das violações mais sérias do direito internacional humanitário. Por outro lado, a rejeição israelense também não pode ser descartada automaticamente, especialmente considerando o histórico de disputas políticas que cercam muitos organismos internacionais e a enorme dificuldade de produzir provas definitivas em zonas de guerra.
Mas talvez a discussão principal nem seja essa.
Talvez a pergunta mais importante seja por que tantas pessoas parecem mais preocupadas em vencer uma discussão nas redes sociais do que em lamentar a morte de crianças.
Quando uma criança morre em Gaza, em Tel Aviv, no sul do Líbano, em Kiev ou em qualquer outra zona de conflito, não existe vitória geopolítica capaz de compensar essa perda.
Os Estados continuarão perseguindo seus interesses estratégicos. Exércitos continuarão combatendo ameaças que consideram existenciais. Organizações terroristas continuarão explorando populações civis como escudos humanos. Nada disso é novidade na história.
O que deveria preocupar é a naturalidade crescente com que sociedades inteiras passaram a aceitar o sofrimento de inocentes desde que ele ocorra do lado adversário.
A guerra sempre foi um fracasso humano. Quando passamos a tratá-la como um jogo de torcida, o fracasso deixa de ser apenas dos governos e passa a ser também nosso.

