Neto revive legado de engenheiro do maior túnel ferroviário de SCFoto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND Mais
Mais do que uma obra de engenharia, o maior túnel ferroviário em curva de Santa Catarina, em Apiúna, no Vale do Itajaí, guarda uma história atravessada por memória, ausência e afeto. Décadas após a construção, é pela voz do neto que o legado do engenheiro responsável volta à tona.
Edmundo Pozes cresceu ouvindo sobre o avô, o engenheiro Edmundo da Silva Pozes, mas nunca chegou a conhecê-lo. O profissional morreu aos 59 anos, pouco antes do nascimento do neto. Ainda assim, deixou marcas profundas na família e na história ferroviária do Estado.
-
1 de 22
Imagens mostram Edmundo com a equipe responsável por construir a EFSC – Arquivo pessoal/ND Mais
-
2 de 22
Edmundo da Silva Pozes, engenheiro responsável por construir o maior túnel ferroviário em curva de SC – Arquivo pessoal/ND Mais
-
3 de 22
Documento de Edmundo Pozes – Arquivo pessoal/ND Mais
-
4 de 22
Edmundo, Edith (filha), Égide (esposa) – Arquivo pessoal/ND Mais
-
5 de 22
Edmundo, Edith (filha), Égide (esposa) – Arquivo pessoal/ND Mais
-
6 de 22
Edmundo e a esposa Égide – Arquivo pessoal/ND Mais
-
7 de 22
Edmundo Pozes, neto do responsável por construir o maior túnel ferroviário de SC, na reinaguração do local – Arquivo pessoal/ND Mais
-
8 de 22
Após cinco décadas escondido pela vegetação, o maior túnel ferroviário de Santa Catarina, em Apiúna, ganha vida nova e iluminação moderna. – Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
-
9 de 22
O local preserva os cortes nas rochas e a estrutura original que serviu como peça fundamental para o transporte de cargas e passageiros em SC. – Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
-
10 de 22
A reabertura do túnel Edmundo da Silva Pozes promete atrair não apenas historiadores, escolas e crianças, mas também entusiastas do cicloturismo e do ecoturismo para a região de Apiúna. – Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
-
11 de 22
O sistema de iluminação interna foi instalado para garantir segurança aos turistas que agora podem explorar o local a pé. – Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
-
12 de 22
Com 260 metros de extensão, a estrutura construída na década de 1950 impressiona pelo estado de conservação e pelos detalhes da engenharia da época. – Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
-
13 de 22
O espaço deve receber uma placa com informações históricas para contextualizar a importância da obra. – Divulgação/ND Mais
-
14 de 22
A revitalização incluiu limpeza completa, instalação de iluminação interna, colocação de pó de brita no solo, construção de canaletas para drenagem e melhorias nos acessos. – Divulgação/ND Mais
-
15 de 22
Túnel também possui curva – tunel 3
-
16 de 22
O maior túnel ferroviário de Santa Catarina, que ficou abandonado por cerca de cinco décadas em meio à mata, em Apiúna, no Vale do Itajaí, será oficialmente inaugurado – Divulgação/ND Mais
-
17 de 22
Entrada do maior túnel da Estrada de Ferro de SC, abandonado por 50 anos – @anadotem/Reprodução/ND Mais
-
18 de 22
Entrada do maior túnel da Estrada de Ferro de SC, abandonado por 50 anos – @anadotem/Reprodução/ND Mais
-
19 de 22
Entrada do maior túnel da Estrada de Ferro de SC, abandonado por 50 anos – @anadotem/Reprodução/ND Mais
-
20 de 22
Maior túnel ferroviário de SC, escondido na mata e abandonado por décadas, volta à vida – Divulgação/ND Mais
-
21 de 22
Maior túnel ferroviário de SC, escondido na mata e abandonado por décadas, volta à vida – Divulgação/ND Mais
-
22 de 22
Maior túnel ferroviário de SC, escondido na mata e abandonado por décadas, volta à vida – Divulgação/ND Mais
“Carrego o nome dele e também a saudade. Senti falta de ter convivido, de ouvir conselhos, de ter essa presença”, conta.
Quem foi o engenheiro que construiu o maior túnel ferroviário em curva de SC
Natural de Campos, no Rio de Janeiro, o engenheiro nasceu em 1893 e se formou na então Universidade do Rio de Janeiro. Especialista em obras ferroviárias, foi transferido para o Sul do país ainda jovem e, na década de 1920, passou a atuar em Santa Catarina, onde se estabeleceu com a família.
Receba no WhatsApp as principais notícias de Blumenau e Vale do Itajaí Entre no grupo
Foi ali que liderou a construção de uma série de túneis ao longo da ferrovia que ligava o litoral ao Alto Vale do Itajaí. Entre eles, o maior e mais emblemático: um túnel em curva, com 264 metros de extensão, erguido em cerca de dois anos.
A grandiosidade da obra chama atenção até hoje, especialmente pelas técnicas utilizadas. Sem os recursos modernos, a estrutura foi construída praticamente à mão, com pedras encaixadas uma a uma, formando um arco preciso e resistente.
“Era um trabalho minucioso, quase como uma escultura. Algo que a gente não vê mais hoje”, descreve o neto.
O túnel esquecido por décadas
Maior túnel ferroviário de SC, escondido na mata e abandonado por décadas, volta à vidaFoto: Divulgação/ND Mais
Apesar da importância histórica, o túnel ficou por muito tempo esquecido, tomado pelo mato e longe dos holofotes. Ainda assim, nunca saiu da memória da família. A mãe de Edmundo, filha única do engenheiro, esteve presente na inauguração da obra, em 1954, grávida dele.
“Ela sempre dizia que eu já estava lá naquele dia. Foi um momento muito marcante pra ela. Chorou muito, mas também tinha muito orgulho”, relembra.
A reinauguração marcante e cheia de significado
Após cinco décadas escondido pela vegetação, o maior túnel ferroviário de Santa Catarina, em Apiúna, ganha vida nova e iluminação moderna.Foto: Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
Décadas depois, o neto teve a chance de repetir o gesto da mãe ao participar de uma cerimônia de resgate histórico do túnel. Coube a ele descerrar novamente a placa em homenagem ao avô.
“Foi muito emocionante”, explicou o neto.
Descrito por familiares e contemporâneos como um homem íntegro, dedicado e apaixonado pela profissão, o engenheiro também deixou sua marca dentro de casa. A própria filha seguiu carreira na área ferroviária, em uma época em que mulheres raramente ocupavam esse espaço.
Quando os trilhos se cruzam
A relação com os trilhos atravessou gerações. O neto também construiu parte da trajetória profissional ligado ao setor, antes de migrar para a área acadêmica, onde hoje atua como professor.
Antes de consolidar a carreira na área acadêmica, Edmundo Pozes também viveu, na prática, a rotina dos trilhos, uma herança direta da família. Ainda jovem, por volta de 20 anos, ele trabalhou no sistema metroviário brasileiro, com passagens tanto pelo metrô do Rio de Janeiro quanto pelo de São Paulo.
Na capital paulista, atuou em um período de expansão e consolidação do transporte sobre trilhos, tendo contato direto com a operação e a dinâmica de um dos sistemas mais complexos do país.
Hoje, aos 70 anos, Edmundo Pozes construiu uma trajetória própria, também marcada pela dedicação ao conhecimento e ao serviço público. Professor do Instituto Federal Catarinense (IFC), ele leciona disciplinas ligadas à área de gestão, como finanças, contabilidade e administração geral, formando novas gerações de profissionais no Estado.
O legado do avô que mantém vivo, agora em forma de homenagem
O túnel recebeu o nome de Edmundo da Silva Pozes, engenheiro que dedicou a vida à construção da obra e faleceu logo após sua conclusão em 1954.Foto: Gustavo Féo/NDTV/ND Mais
Mesmo com o passar dos anos, ele acredita que o legado do avô vai além da obra física. Para ele, a história também escancara o impacto da desativação das ferrovias no Brasil.
“Arrancaram os trilhos. Hoje a gente depende de rodovias sobrecarregadas. Se ainda tivéssemos o trem, a logística da região seria muito melhor”, avalia.
Ao imaginar um encontro que nunca aconteceu, Edmundo não esconde a emoção.
“Eu senti falta de um avô em casa pra me dar conselhos, pra me ajudar na matemática, na física, que ele era bom nisso. Eu sentia falta dessa companhia, de um homem orientador, que mostrasse o caminho certo pra gente”, conta emocionado.
Edmundo também revela um sentimento íntimo que o acompanha ao longo da vida: a culpa por não conseguir se enxergar à altura do legado que herdou. Criado ouvindo relatos sobre a integridade, a retidão e o caráter exemplar do engenheiro, ele diz que, muitas vezes, se cobra por não ter seguido o mesmo caminho com a mesma grandeza.
“Eu me culpo muitas vezes de não ser bom como ele foi”, desabafa.
Entre pedras encaixadas com precisão e histórias transmitidas de geração em geração, o túnel permanece como um símbolo que resiste ao tempo. Não apenas pela engenharia, mas pelo que carrega: o nome, a saudade, as inspirações e recordações.

