O veto da União Europeia à carne brasileira amplia a pressão sobre o agronegócio em um momento de tensões comerciais com Estados Unidos e EuropaFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
O veto da União Europeia à carne brasileira chegou no pior momento possível. O problema não é apenas perder mercado. O problema é perder credibilidade.
A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal para o bloco representa muito mais do que uma questão sanitária. Ela envia um sinal político, econômico e regulatório para todo o sistema internacional. E esse sinal chega em um momento particularmente delicado.
Nos últimos meses, o Brasil passou a enfrentar uma crescente deterioração de seu ambiente comercial externo. Os Estados Unidos avançaram com novas investigações, ameaças tarifárias e questionamentos sobre diferentes aspectos da economia brasileira. Agora, a Europa adiciona uma nova camada de pressão ao retirar o país da lista de exportadores autorizados, alegando insuficiência de informações sobre mecanismos de controle relacionados ao uso de antimicrobianos na pecuária.
O governo brasileiro foi pego de surpresa. O mais preocupante é que a medida não foi aplicada contra Argentina, Paraguai ou Uruguai. O Brasil foi o único país relevante do Mercosul excluído por não apresentar as garantias exigidas pelas autoridades europeias.
Essa diferença importa. Muito. Porque a mensagem recebida pelos importadores internacionais não é que a Europa está endurecendo regras para todos. A mensagem é que os vizinhos conseguiram atender aos requisitos e o Brasil não.
O problema não é a carne
Existe um erro comum ao analisar essa decisão. Muitos observadores enxergam apenas uma disputa envolvendo frigoríficos e exportações. Mas a questão central é outra.
A União Europeia afirma que o problema não está necessariamente na qualidade da carne brasileira. O ponto principal envolve comprovação, rastreabilidade, fiscalização e capacidade regulatória. Em outras palavras, o debate gira em torno da confiança nos mecanismos brasileiros de controle sanitário.
No século XXI, confiança regulatória virou um ativo econômico. Países não competem apenas por preço. Competem por credibilidade. Quando um importador compra proteína animal, ele também compra garantias sanitárias, mecanismos de fiscalização e reputação institucional.
É justamente por isso que o episódio preocupa.
O efeito dominó
A União Europeia representa aproximadamente US$ 1,8 bilhão por ano em compras de carnes brasileiras. É um mercado relevante, mas não é o maior. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras de proteínas animais.
O risco, portanto, não está apenas na perda imediata de receitas. O risco está no efeito demonstração.
Quando um mercado conhecido por suas exigências sanitárias decide retirar um fornecedor de sua lista de aprovados, outros compradores naturalmente passam a observar a situação com mais atenção.
Isso não significa que China, Oriente Médio ou Sudeste Asiático adotarão medidas semelhantes. Mas significa que o Brasil passa a gastar energia defendendo sua reputação em vez de utilizá-la como vantagem competitiva.
O pior timing possível
O aspecto mais preocupante da decisão talvez seja o momento escolhido. Ela ocorre poucos meses após a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, justamente quando o Brasil esperava ampliar oportunidades comerciais com o bloco.
Ela ocorre no mesmo período em que Washington aumenta a pressão comercial sobre Brasília. Ela ocorre quando o mundo discute rastreabilidade, sustentabilidade, compliance e segurança alimentar com intensidade crescente.
E ela ocorre em um ambiente internacional no qual barreiras regulatórias estão substituindo tarifas como principal instrumento de proteção de mercados. Por isso, o episódio não deve ser tratado apenas como uma questão do Ministério da Agricultura.
Ele se tornou uma questão de competitividade nacional.
O que o Brasil precisa fazer
O governo e o setor privado provavelmente conseguirão resolver a questão. A própria Comissão Europeia afirmou que o Brasil poderá retornar à lista assim que comprovar o cumprimento dos requisitos exigidos.
Mas essa não é a principal lição. A principal lição é que o comércio internacional está mudando. Cada vez menos as disputas serão travadas em torno de tarifas tradicionais. Cada vez mais elas envolverão rastreabilidade, certificações, requisitos ambientais, governança sanitária e capacidade regulatória.
O país que não compreender essa transformação continuará acreditando que exporta produtos. Na realidade, exportará confiança. E confiança, uma vez colocada em dúvida, costuma ser muito mais difícil de recuperar do que mercados perdidos.

