Banco Master foi liquidado em novembro de 2025, deixando milhares de credores sob incertezaFoto: Divulgação/ND Mais
Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero contra o Banco Master, o analista financeiro Yuri Rodrigues, de 33 anos, teve a confirmação do presságio de que havia algo de errado com a instituição do banqueiro Daniel Vorcaro. As elevadas taxas de retorno de CDBs, que antes faziam brilhar os olhos, se tornaram pesadelo e temor pelo risco de não receber o que investiu.
Ao todo, ele e mais cerca de 1,6 milhão de credores investiram dinheiro nos fundos e títulos do Banco Master. O FGC (Fundo Garantidor de Crédito) calcula que, até 18 de fevereiro, 84% já teriam recebido reembolso. A instituição é privada e funciona como um “seguro” dos bancos com reembolso aos depositantes e investidores em caso de liquidação.
Leia outras reportagens especiais
Yuri, que mora em Uberlândia (MG), era um desses investidores. Embora ele tivesse essa garantia do FGC, o medo de perder tudo o que investiu nas carteiras do Banco Master rondava a sua mente devido à própria burocracia e demora para obter o reembolso.
“Eu fiquei muito apreensivo, tenso e alguns dias sem dormir. O site e o aplicativo [do FGC são] completamente pobres em informações. Era robótico e precário. Era até difícil de acreditar que o fundo mantido pelos principais bancos do nosso país tinha um atendimento daquele”.
Ele recebeu os R$ 20 mil investidos no Master quase dois meses depois da liquidação do banco, muito depois das 48 horas estimadas pelo FGC para os reembolsos. O valor caiu na conta em fevereiro de 2026 sem correção monetária do tempo parado desde novembro de 2025.
‘Sensação de vergonha por cair nessa’
A peregrinação de Yuri para o reembolso não é isolada e se repete entre os investidores do Master. O ND Mais conversou com outros cinco. Entre eles, em comum está o mesmo pacote de gatilhos mentais para terem apostado no banco: rentabilidade acima da média e garantia de reembolso pelo FGC.
No fim, viram que o verdadeiro ônus acabou sendo o custo do congelamento do dinheiro parado após a intervenção do Banco Central e a falta de transparência quando a liquidez do banco se tornou pública. A saúde mental também sofreu forte dano, sobretudo pelo receio de não receberem.
A vergonha de mostrar o rosto e de se identificar à reportagem é outro ponto em comum.
“É uma sensação de impotência e ao mesmo tempo de vergonha por cair nessa. A taxa estava muito acima do mercado e não era normal, mas mesmo assim eu decidi investir”, justificou uma representante comercial, de 55 anos, de São Paulo.
A maioria dos entrevistados investiu em CDBs, um dos principais títulos de renda fixa do país. É uma espécie de empréstimo no qual os bancos captam dinheiro dos clientes e devolvem com juros após um prazo.
A segurança dos CDBs tornou esse título a “moda” do mercado financeiro. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que eles somaram R$ 1,33 trilhão em 2025, uma alta de 27,7%. Os CDBs lideram em todas as regiões do país como o preferido dos investidores.
“Não vou mentir, não via muita firmeza, mas fui de livre e espontânea vontade. Fico com pena de quem foi atraído sem saber nada”, complementou a paulista, que investiu R$ 16 mil. Ela demorou quase três meses para receber o reembolso.
Yuri Rodrigues, investidor do Banco Master. Vídeo: Reprodução/ND Mais
Taxa do Banco Master seduzia
O Banco Master apareceu como um investimento tentador dentro da própria rotina de monitorar taxas. A sedução era basicamente oferecer uma taxa maior do que os concorrentes. Isso impulsionava os investidores a aproveitarem a janela de oportunidade.
O sergipano William Vinícius, fotógrafo de 38 anos, diz que esbarrou no Banco Master na vitrine de produtos de uma corretora, quando foi comparar CDBs. Ele costuma comprar no mercado secundário, em que o título já emitido aparece “revendido” por outro investidor; no primário, a oferta é nova e sai direto do banco. Foi nesse garimpo que, segundo ele, a taxa do Master se destacava com folga.
Willian Vinícius foi um dos investidores do Banco Master que demorou para ter o reembolsoFoto: Reprodução/ND Mais
“Enquanto a maioria do oferecido no primário a taxa era de 110%, o do Banco Master ficava em pelo menos 125% até 135%. Eu fui nessa ideia de um rendimento melhor”, destacou. O fotógrafo diz que investiu R$ 50 mil.
Carlos*, advogado de 45 anos, com domicílio em Porto Alegre (RS), descreve que a decisão não teve mistério. Ele comprou sempre no mercado primário e repetiu aplicações ao longo do tempo, porque o banco vinha pagando normalmente.
“O principal atrativo, sem dúvida, foi a taxa mais alta do que a das demais instituições financeiras no momento da aplicação.”
Daniel Vorcaro, o fundador e ex-controlador do Banco Master, chegou a ser preso pela PF, mas acabou soltoFoto: Divulgação/ND Mais
Em Belo Horizonte (MG), o empresário de construção civil Arthur*, de 33 anos, diz que a taxa agressiva também foi o que mais chamou atenção. Mas o que selou a escolha acabou sendo o formato de pagamento de juros mensais, que ele comparava com a renda de outros fundos mais conservadores. Ao todo, ele tem R$ 177 mil para receber do FGC.
“A taxa alta atraía, mas o que mais me interessou foi o pagamento mensal de ‘dividendos’ sem variação do valor do ativo. Eu comprei CDBs do Master no formato de pagamento de juros mensais. Como eu invisto em fundos imobiliários também, achei interessante variar minha renda mensal advinda dos meus investimentos.”
“Senti muita revolta”: quando a notícia do Banco Master chegou
A liquidação do Banco Master abalou o mercado financeiro na Faria Lima e o mundo político em Brasília. Mas nos rincões ou centros urbanos do Brasil, investidores corriam para entender o que estava acontecendo. Outros tiveram apenas a confirmação de um rumo que já rondava o mercado.
“Eu fiquei bastante apreensivo, né? Eu fiquei muito porque é um recurso que eu preciso bastante, fiquei muito tenso e foi ali que eu me dei conta de que várias pessoas estavam junto de mim”, recordou Yuri.
Já Carlos, de Porto Alegre, diz que a indignação veio menos do susto e mais da sensação de que o mercado foi avisado tarde demais. Para ele, o problema foi a falta de transparência antes e depois da intervenção.
“Senti muita revolta com a forma como a situação foi conduzida pelos órgãos reguladores: depois que a liquidação foi decretada e as notícias começaram a ser divulgadas na imprensa”, afirmou.
“A impressão é a de que as irregularidades com o banco eram conhecidas há muito tempo, mas isso foi escondido dos investidores em geral”.
Entenda como Banco Master chegou à liquidaçãoFoto: Abinoan Santiago/ND Mais
O escudo emocional do FGC
Os investidores ouvidos pelo ND Mais revelam que a sensação de que havia uma rede de proteção por trás tornava a aposta mais palatável. O FGC aparecia não só como regra do sistema, mas como uma garantia de que não iriam perder nada se algo desse errado.
O advogado gaúcho diz que o receio dele nunca foi de não receber, porque o valor total investido estava abaixo do limite por CPF, que é de R$ 250 mil. Porém, a angústia era o “como” e o “quando”, num sistema que, para ele, acabou sendo pouco transparente.
“Meu receio foi apenas de que o pagamento demorasse muito para ser realizado, porque desde a data da decretação da liquidação até o momento em que o FGC paga a cobertura, o valor investido fica ‘congelado’, sem receber nem mesmo reposição pela inflação”, afirmou. Ele ficou mais de 30 dias sem receber o reembolso de R$ 215 mil.
William também diz que a liquidação resultou no incômodo da falta de prazo e a incerteza sobre o dinheiro travado. “Quando aconteceu, fiquei tranquilo, porque a margem era muito grande, não corria risco não, sabia que eu ia receber pelo FGC.”
Segunda fase da Operação Compliance Zero aprofundou esquema de ativos do Banco MasterFoto: Divulgação/PF/ND
Na prática, o que desestabilizou os investidores não foi apenas a liquidação do banco, mas a corrida por informações e a percepção de que o sistema do FGC não estava preparado para um volume grande de solicitações. A crise, para eles, virou também uma crise de comunicação.
“Não há nenhuma transparência do FGC: seja em relação ao prazo para o início dos pagamentos a partir da decretação da intervenção, seja no tocante ao prazo para validação de documentos, seja nos critérios adotados para o pagamento, seja na previsão para a concretização da cobertura. A dinâmica dos pagamentos é uma verdadeira ‘caixa-preta’.”
“A minha preocupação maior era porque eles não davam prazo”, lamentou.
Procurado pelo ND Mais, o FGC não comentou sobre as falhas no sistema e falta de prazos para reembolsos.
Cronologia do caso MasterFoto: Abinoan Santiago/ND Mais
A lição depois do susto
Depois do caso, parte dos investidores diz que mudou a maneira de olhar para a renda fixa bancária. Alguns ainda defendem que investir continua sendo necessário, mas afirmam que passaram a desconfiar mais de taxas fora da curva e a reduzir exposição em instituições menores.
Yuri afirma que, após a experiência, pretende migrar para investimentos que considera mais previsíveis e com menor chance de travas inesperadas.
Investidores relatam dificuldades e demora para receber valores via FGCFoto: Adobe Stock/Reprodução/ND Mais
“Vou optar muito mais agora por investimentos de renda fixa mais segura, como Tesouro Direto, do que investir em renda fixa bancária, que pode acontecer isso a qualquer momento.”
William diz que o perfil dele não mudou completamente, mas que o caso deixou um alerta permanente. Quando vê títulos muito acima do mercado, hoje ele para e pensa duas vezes.
“Depois disso, a gente fica mais alerta. Você já fica com o pé atrás.”
*Os nomes dos investidores foram alterados a pedido dos entrevistados para preservar sua identidade

