Cão Orelha vivia na Praia Brava, no Norte da Ilha Foto: Carolina Bechelli Zylan/Arquivo Pessoal/ND Mais/Licensed under CC BY-SA 4.0
A família de um adolescente acusado nas redes sociais de ter participado da morte do cão comunitário Orelha e cometido outros delitos na Praia Brava, em Florianópolis, se manifestou nesta quarta-feira (5).
O posicionamento da família ocorre após a investigação da Polícia Civil afastar o adolescente de qualquer responsabilidade tanto por crimes contra animais quanto por atos de vandalismo.
“A verdade prevaleceu. Recebemos essa conclusão com o alívio de quem vê restabelecido o senso de justiça em relação ao nosso filho. Isso não apaga o sofrimento terrível vivido. Nossa família atravessou semanas de angústia, medo, desgaste emocional e pressão psicológica. Fomos alvos de boatos, mentiras, incitação de violência e crimes digitais que jamais deveriam fazer parte de uma sociedade que preza pelo respeito à vida de humanos e animais”, escreveram os pais do garoto.
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Em despacho, o delegado de polícia Renan Balbino Silva Araújo destacou que, considerando todos os elementos, como testemunhos, imagens analisadas e relatórios, a condição do adolescente deve ser alterada de investigado para testemunha, “já que não há nada que aponte a autoria a ele”.
Manifestação na Avenida Paulista reuniu multidão comovida com a morte do cão OrelhaFoto: Guilherme Correia/ND Mais
Na nota, os pais classificaram o episódio como “o pior momento de suas vidas”. O texto destaca que o trabalho da polícia confirmou aquilo que a família sustentou desde o início: a inexistência de qualquer vínculo do filho com a morte do cão Orelha e outros fatos investigados.
A seguir, a íntegra da nota divulgada pelos pais do adolescente.
NOTA PÚBLICA
Hoje encerramos o período mais difícil de nossas vidas.
A Polícia Civil concluiu o inquérito sobre a morte do cão comunitário Orelha, sobre fatos relativos ao cão Caramelo e outras infrações e reconheceu aquilo que sempre soubemos e afirmamos com serenidade e firmeza: nosso filho não tem qualquer relação com o ocorrido e não cometeu qualquer crime, nem contra animais, nem atos de vandalismo. Por essa razão, não foi indiciado pela delegacia responsável pelas investigações. A verdade prevaleceu. Recebemos essa conclusão com o alívio de quem vê restabelecido o senso de justiça em relação ao nosso filho.
Isso não apaga o sofrimento terrível vivido. Nossa família atravessou semanas de angústia, medo, desgaste emocional e pressão psicológica. Fomos alvos de boatos, mentiras, incitação de violência e crimes digitais que jamais deveriam fazer parte de uma sociedade que preza pelo respeito à vida de humanos e animais. A indignação social contra a morte de um cão comunitário é legítima. Mas há uma grande diferença quando a manifestação ultrapassa os limites do bom senso ao criar narrativas difamatórias que geram ameaças à vida de um inocente e de seus familiares, além do boicote direto às nossas atividades empresariais. Ainda assim, graças a uma estrutura familiar baseada no afeto, na fé e na segurança dos valores humanos que sustentamos, resistimos à tentação de responder a tudo isso com ódio, de alimentar confrontos ou de entrar na espiral destrutiva que, infelizmente, tem dominado as redes sociais.
Seguimos convictos de que não é assim que se constrói justiça.
O que este episódio nos ensinou, e acreditamos que deve ensinar a todos, é que o pânico digital, os factóides, os julgamentos sumários e o uso oportunista de tragédias destroem reputações, adoecem pessoas e colocam em risco valores essenciais ao convívio democrático. A indignação, ainda que compreensível em determinados contextos, não pode substituir a verdade e o devido processo legal.
A partir de agora, nosso foco é seguir em frente: cuidar da nossa família, mitigar os impactos pessoais deixados por esse terrível episódio e recompor, com dignidade, o que foi abalado. Buscaremos a reparação legal dos danos sofridos não por revanchismo ou rancor, mas como exercício de cidadania, transparência e afirmação de que crimes digitais e difamações não podem ser naturalizados. E, infelizmente, não foram apenas anônimos que adotaram esse comportamento. Entre os julgadores, havia formadores de opinião, da imprensa, da política e de organizações sociais.
Também refletimos, com serenidade, sobre a possibilidade de transformar essa experiência dolorosa em algo que vá além de nós. Queremos contribuir para um debate mais qualificado sobre a violência digital, os tribunais das redes e a destruição de reputações no ambiente online. Se algo positivo puder surgir como legado de tudo isso, que seja o aprendizado coletivo.
Por fim, desejamos que os próximos capítulos deste episódio sejam conduzidos com a serenidade necessária para que o desfecho seja o mais adequado a todos os envolvidos. A verdade sobre nosso filho apareceu. E é com ela, e não com o ódio, que escolhemos seguir.

