Tel-Aviv protestos Netanyahu 7 de outubro: toda semana, israelenses voltam às ruas de Tel Aviv exigindo a verdade — e o Brasil quase nunca conta essa históriaFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Há uma história sobre Israel que o noticiário brasileiro quase nunca conta. Não é a história das bombas em Gaza. Não é a história dos reféns. Não é a história da guerra com o Irã.
É a história das pessoas que, todo sábado à noite, vão à Praça Habima em Tel Aviv — e exigem que seu próprio governo responda pela maior falha de segurança da história do Estado de Israel.
Três guerras depois — Gaza, Irã e Líbano — os israelenses ainda buscam a verdade sobre o 7 de outubro. Estão acompanhando ansiosamente os eventos nos conflitos com o Irã e o Hezbollah.
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Mas uma grande maioria ainda exige respostas sobre o que falhou naquele dia de outubro de 2023, especialmente sobre o que levou ao ataque e o que não funcionou.
Todo sábado, Tel Aviv protesta — e o Brasil não sabe
Na noite de domingo, 9 de agosto, manifestantes voltaram às ruas de Tel Aviv exigindo uma investigação governamental sobre o 7 de outubro. Não foi um protesto isolado.
É parte de uma sequência que dura meses — com israelenses se reunindo em Tel Aviv, Haifa, Jerusalém e outras cidades, pedindo uma comissão de investigação estatal e responsabilidade governamental sobre os reféns, a segurança do Estado e os fracassos que permitiram o ataque.
Em Jerusalém, a polícia usou canhões de água para dispersar manifestantes reunidos perto da residência do primeiro-ministro.
A praça que nunca esvazia
A Praça Habima em Tel Aviv tornou-se o símbolo dessa exigência que não cala.
Semana após semana, familiares de reféns, sobreviventes do ataque, pais de soldados mortos e cidadãos comuns voltam ao mesmo lugar com o mesmo pedido: uma investigação verdadeiramente independente sobre como o 7 de outubro foi possível.
Ayala Metzger, nora de Yoram Metzger — refém sequestrado aos 80 anos e depois assassinado em cativeiro — participou de um protesto em junho e disse que “à medida que o tempo passa, as perguntas apenas se acumulam.”
O que os manifestantes querem — e o que Netanyahu ofereceu em troca
A exigência dos manifestantes tem um nome técnico preciso: uma “comissão estatal de inquérito.”
Em Israel, esse é o mais alto mecanismo investigativo do país — liderado por um juiz aposentado nomeado pelo presidente do Supremo Tribunal, com poderes amplos para intimar testemunhas e acessar documentos sigilosos, e com independência total do poder executivo.
É o equivalente a uma CPI com dentes — mas com independência institucional garantida, não dependente de votos políticos.
Netanyahu investigando Netanyahu
Netanyahu finalmente concordou em criar uma investigação sobre o 7 de outubro — mas não uma comissão estatal independente. Em vez disso, criou um “comitê governamental”, sob sua própria supervisão, com aproximadamente metade dos membros indicados diretamente por ele.
A composição do comitê favorece fortemente as autoridades governantes. Quase 50% de seus membros serão indicados diretamente pelo primeiro-ministro Netanyahu, com o restante designado pelas facções da oposição.
Críticos descrevem o processo como politicamente contaminado, questionando sua legitimidade para revelar a verdade.
Como disse uma manifestante sobre o comitê político proposto: “Se os membros da oposição se recusarem a participar dessa conduta perversa, os três membros da coalizão atuarão como comitê e investigarão os crimes pelos quais eles próprios são responsáveis.” É, em essência, Netanyahu investigando Netanyahu.
A voz que veio de dentro da máquina de segurança
A crítica mais poderosa não vem dos manifestantes nas ruas. Vem de dentro.
O ex-diretor do Shin Bet — a inteligência interna israelense —, Ronen Bar, alertou que, sem uma investigação completa, Israel está “se condenando ao próximo 7 de outubro.”
“Quando frustramos um ataque, podemos apenas imaginar quem foi salvo. Quando falhamos em prevenir uma chacina, vemos com nossos próprios olhos quem foi assassinado. Isso aconteceu durante nossa gestão.
Portanto, é nossa responsabilidade”, disse Bar. “Vamos parar de brigar e entrar nesse processo juntos, para aprender e melhorar.”
O homem que por anos dirigiu o serviço de inteligência mais sofisticado do Oriente Médio está dizendo publicamente: sem investigação, o erro se repetirá. Netanyahu, o chefe de governo sob cuja gestão o 7 de outubro aconteceu, continua resistindo a qualquer investigação que ele não controle.
O calendário eleitoral que explica tudo
Netanyahu não é irracional. Sua resistência à investigação tem uma lógica política clara — e é exatamente por isso que ela incomoda tanto seus críticos.
Num ano eleitoral, Netanyahu tenta reescrever a narrativa do 7 de outubro. Uma comissão independente com poderes reais de investigação poderia concluir que decisões tomadas pelo próprio Netanyahu — sobre o financiamento do Hamas, sobre a desatenção aos alertas de inteligência, sobre o enfraquecimento do exército e do serviço de segurança para servir a objetivos políticos — contribuíram para que o ataque fosse possível.
Essas conclusões, se chegassem antes de uma eleição, seriam devastadoras. Um comitê que ele controla produzirá conclusões que ele controla. A matemática política é simples.
O político que precisa da guerra para sobreviver
Há uma crueldade adicional nessa equação que os manifestantes sabem — e nomeiam abertamente.
O mesmo Netanyahu que resiste à investigação sobre os fracassos do 7 de outubro é o mesmo que está sendo pressionado pela sua própria base a não ceder num acordo em Gaza que traria os reféns de volta.
O mesmo que é descrito, nos bastidores diplomáticos de Washington, como o principal obstáculo ao acordo de paz que Trump tenta costurar.
O Fórum de Famílias de Reféns e Desaparecidos declarou: “Um acordo para o retorno dos reféns está na mesa há mais de dois meses. Se não fosse pelos atrasos, sabotagens e desculpas, aqueles cuja morte soubemos esta manhã provavelmente ainda estariam vivos.”
Um governo que resiste à investigação do passado e às negociações do presente está, na avaliação de seus críticos, colocando a sobrevivência política de um homem acima da segurança do país e da vida dos reféns.
Os pais que querem a verdade — e que o governo quer calar
Por trás dos debates institucionais sobre comissões e comitês, há histórias humanas que o noticiário técnico não conta.
Eyal Eshel esperou 34 dias para que as autoridades israelenses confirmassem que sua filha de 19 anos, Roni, havia sido morta quando militantes do Hamas invadiram a base do exército perto da fronteira de Gaza onde ela estava estacionada.
A família recebeu de volta suas plaquetas de identificação, ilesas. Seus anéis, carteira de identidade e carteira de motorista foram eventualmente encontrados numa casa em Gaza. Mas o pai ainda não sabe como ou quando exatamente ela foi morta.
“Meu filho não morreu porque escolheu ser herói, mas porque foi abandonado pelo Estado. Não estou preparado para deixar a história ser escrita incorretamente”, disse uma mãe enlutada em entrevista à emissora pública israelense Kaan.
São os pais de soldados abandonados, os familiares de reféns assassinados, os sobreviventes do festival de música de Nova. Pessoas que perderam alguém e que, quase três anos depois, ainda não sabem a verdade completa sobre como e por que aquilo aconteceu.
O que o Brasil não está vendo
A cobertura brasileira da guerra em Israel tende a apresentar dois campos: Israel de um lado, Palestina do outro, com o mundo tomando partido. É uma simplificação que serve à polarização mas falha na compreensão.
A Israel real de 2026 é um país com profundas divisões internas: entre quem apoia a guerra em Gaza sem concessões e quem quer um acordo para trazer os reféns; entre quem quer uma investigação independente do 7 de outubro e quem quer proteger Netanyahu; entre uma população que foi traumatizada por um ataque sem precedentes e um governo que prefere não prestar contas sobre como aquele ataque foi possível.
Os manifestantes de Tel Aviv não são inimigos de Israel.
São israelenses que amam o país a ponto de exigir que ele se olhe honestamente no espelho. Como disse o ex-diretor do Shin Bet: é responsabilidade de quem falhou garantir que o erro não se repita — e isso só acontece com investigação real, não com comitês controlados por quem está sendo investigado.
Toda semana, eles voltam à Praça Habima. Toda semana, Netanyahu resiste. E a pergunta que ficará para a história — como o maior ataque contra judeus desde o Holocausto foi possível — continua sem uma resposta oficial que o país inteiro possa acreditar.

