Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigaçãoFoto: Imagem ilustrativa gerada por IA/ND Mais
A investigação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas) revelou que o esquema de desvios na merenda escolar em Blumenau não dependia apenas de acordos digitais, mas de uma estrutura física e logística para o transporte de valores.
Ronaldo Rogério Wan-Dall, ex-diretor geral do Gabinete do Prefeito de Blumenau, atuava como o braço operacional do grupo, realizando viagens frequentes ao Paraná para a captação do dinheiro da propina em espécie.
“Bate e volta” ao Paraná
A análise dos investigadores identificou um ciclo que se repetia com precisão: logo após a prefeitura liquidar as faturas da Risotolândia, o então Secretário da Fazenda, César Domenico Poltronieri, fornecia relatórios financeiros detalhados que serviam de base para o esquema.
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Com esses dados, o então Chefe de Gabinete, Lúcio César Dib Botelho, calculava o “pedágio” de 3% sobre os valores pagos.
Documentos revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND Mais
Imediatamente após essa consolidação de valores, Wan-Dall se deslocava até a sede da Risotolândia em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, para coletar o dinheiro vivo. Ao todo, a força-tarefa mapeou 14 viagens realizadas pelo investigado entre 2022 e 2024.
Em trocas de mensagens, os investigados utilizavam códigos para manter a discrição: Ronaldo Wan-Dall usava o termo “subir” para indicar o início da viagem ao estado vizinho, enquanto Lúcio Botelho referia-se à empresa como “amigos de Curitiba” ou apenas “Curitiba”.
Prints revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND Mais
As mensagens interceptadas mostram o acompanhamento detalhado das operações, com questionamentos sobre horários e envio de prints de GPS.
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Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigação – Especial/ND Mais
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Em alguns casos, o Wan-Dall não precisava viajar, já que representantes da empresa entregavam o dinheiro diretamente em Blumenau.
As entregas eram combinadas para ocorrer de forma discreta, em garagens da prefeitura, estacionamentos de supermercados ou residências particulares.
Carros alugados, pedágios e postos de gasolina
Para comprovar os trajetos, a Justiça autorizou o acesso aos dados de concessionárias de rodovias e do sistema de pagamento automático “Sem Parar”, obteve comprovantes de carros alugados e detectou paradas frentes em um posto de gasolina localizado a menos de um quilômetro da sede da Risotolândia.
Reajuste no preço do pedágio da BR-116 vai afetar cinco praças entre Santa Catarina e ParanáFoto: Autopista Planalto Sul/Divulgação/ND Mais
No início do esquema, o Wan-Dall utilizava carros alugados, como Peugeot 208, para reduzir rastreabilidade e evitar que seus veículos pessoais ficassem ligados às viagens de captação de propina.
Com o tempo, o grupo passou a usar veículos de luxo próprios, como BMW, Land Rover e Mini Cooper, à medida que ganhou mais confiança, segundo a análise do MPSC.
Outro elemento crucial para a investigação foi a identificação de paradas frequentes em um posto de gasolina localizado a menos de um quilômetro da sede da empresa beneficiada pelo esquema.
Gastos em cartões e dados de geolocalização confirmaram a presença física do agente investigado exatamente no local e horário das tratativas de repasse.
Os peritos notaram que o investigado frequentemente adotava medidas para evitar o rastreamento, como desligar ou desconectar o aparelho celular durante os trajetos rodoviários.
No entanto, em ocasiões específicas, falhas nessa estratégia permitiram ao GAECO reconstruir os vínculos comunicacionais com membros do alto escalão e consolidar o nexo entre as viagens e a finalidade ilícita do grupo.
O ND Mais buscou contato com a defesa dos servidores investigados, mas não a localizou até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para posicionamento.
Operação Arbóreo investiga desvios na merenda em Blumenau
Operação Arbóreo investiga desvios na merenda em BlumenauFoto: Gaeco/Prefeitura de Blumenau/ND Mais
A Operação Arbóreo, deflagrada em 7 de maio, é uma investigação conduzida pelo GAECO e pela 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau para apurar um esquema estruturado de fraude à licitação e corrupção no serviço de alimentação escolar do município.
Ao menos três servidores do alto escalão da Prefeitura de Blumenau, à época do período investigado, e dois diretores da Risotolândia são suspeitos de integrar a organização criminosa, segundo o MPSC.
No período monitorado, entre junho de 2022 e fevereiro de 2024, os envolvidos teriam desembolsado R$ 3,6 milhões em propina.
Até o momento, foram afastados sigilos, cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Blumenau, Indaial e Araucária (PR), e monitorados trajetos dos investigados para coleta de provas.
Desde que a operação foi deflagrada, o GAECO realizou oitivas, segue analisando dados telemáticos e aguarda informações bancárias para finalizar o relatório.
A descoberta das irregularidades na merenda escolar ocorreu por acaso, durante outra investigação sobre desvios em obras públicas. Problemas em contratos de segurança pública também foram identificados, o que deu início a uma terceira investigação.
Próximos passos
A Justiça bloqueou bens e valores dos investigados para a garantia de recuperação de recursos públicos, até que a investigação seja concluída.
Até o momento, foram afastados sigilos, cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Blumenau, Indaial e Araucária (PR), e monitorados trajetos dos investigados para coleta de provas.
Desde que a operação foi deflagrada, o GAECO realizou oitivas, segue analisando dados telemáticos e aguarda informações bancárias para finalizar o relatório.
A descoberta das irregularidades na merenda escolar ocorreu por acaso, durante outra investigação sobre desvios em obras públicas. Problemas em contratos de segurança pública também foram identificados, o que deu início a uma terceira investigação.
O que diz a Prefeitura de Blumenau
Em nota, a Prefeitura de Blumenau alegou que as duas operações realizadas pelo Gaeco em 7 de maio investigam contratos firmados pela gestão anterior, encerrada em 2024.
“A atual administração está à disposição das autoridades e colabora de forma transparente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos”.
Já a prefeitura de Indaial ressaltou que não tem envolvimento com a investigação e a contratação dos serviços tem relação apenas com o município de Blumenau.
O que diz a Risotolândia
A Risotolândia, empresa envolvida na investigação, afirma que os dois diretores citados na investigação não fazem mais parte da empresa há mais de quatro anos. Mesmo assim, o grupo permanece à disposição das autoridades, colaborando com todas as solicitações.
“A empresa também ressalta novamente que a existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”, acrescenta a Risotolândia em nota.

