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Região

Servidor fazia viagens secretas para buscar propina da merenda de Blumenau, diz investigação

Ultima atualização: 30 de maio de 2026 08:00
Por Ana Julia Kamchen
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Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigaçãoEsquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigaçãoFoto: Imagem ilustrativa gerada por IA/ND Mais

A investigação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas) revelou que o esquema de desvios na merenda escolar em Blumenau não dependia apenas de acordos digitais, mas de uma estrutura física e logística para o transporte de valores.

Ronaldo Rogério Wan-Dall, ex-diretor geral do Gabinete do Prefeito de Blumenau, atuava como o braço operacional do grupo, realizando viagens frequentes ao Paraná para a captação do dinheiro da propina em espécie.

“Bate e volta” ao Paraná

A análise dos investigadores identificou um ciclo que se repetia com precisão: logo após a prefeitura liquidar as faturas da Risotolândia, o então Secretário da Fazenda, César Domenico Poltronieri, fornecia relatórios financeiros detalhados que serviam de base para o esquema.

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Com esses dados, o então Chefe de Gabinete, Lúcio César Dib Botelho, calculava o “pedágio” de 3% sobre os valores pagos.

Documentos revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND MaisDocumentos revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND Mais

Imediatamente após essa consolidação de valores, Wan-Dall se deslocava até a sede da Risotolândia em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, para coletar o dinheiro vivo. Ao todo, a força-tarefa mapeou 14 viagens realizadas pelo investigado entre 2022 e 2024.

Em trocas de mensagens, os investigados utilizavam códigos para manter a discrição: Ronaldo Wan-Dall usava o termo “subir” para indicar o início da viagem ao estado vizinho, enquanto Lúcio Botelho referia-se à empresa como “amigos de Curitiba” ou apenas “Curitiba”.

Prints revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND MaisPrints revelam ‘matemática da propina’ em desvios milionários na merenda em BlumenauFoto: Especial/ND Mais

As mensagens interceptadas mostram o acompanhamento detalhado das operações, com questionamentos sobre horários e envio de prints de GPS.

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    Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigação - Especial/ND Mais

    Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigação – Especial/ND Mais

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    Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigação - Especial/ND Mais

    Esquema de desvios na merenda em Blumenau envolvia logística de viagens ao Paraná para captar dinheiro da propina em espécie, segundo a investigação – Especial/ND Mais

Em alguns casos, o Wan-Dall não precisava viajar, já que representantes da empresa entregavam o dinheiro diretamente em Blumenau.

As entregas eram combinadas para ocorrer de forma discreta, em garagens da prefeitura, estacionamentos de supermercados ou residências particulares.

Carros alugados, pedágios e postos de gasolina

Para comprovar os trajetos, a Justiça autorizou o acesso aos dados de concessionárias de rodovias e do sistema de pagamento automático “Sem Parar”, obteve comprovantes de carros alugados e detectou paradas frentes em um posto de gasolina localizado a menos de um quilômetro da sede da Risotolândia.

Reajuste no preço do pedágio da BR-116 vai afetar cinco praças entre Santa Catarina e ParanáFoto: Autopista Planalto Sul/Divulgação/ND MaisReajuste no preço do pedágio da BR-116 vai afetar cinco praças entre Santa Catarina e ParanáFoto: Autopista Planalto Sul/Divulgação/ND Mais

No início do esquema, o Wan-Dall utilizava carros alugados, como Peugeot 208, para reduzir rastreabilidade e evitar que seus veículos pessoais ficassem ligados às viagens de captação de propina.

Com o tempo, o grupo passou a usar veículos de luxo próprios, como BMW, Land Rover e Mini Cooper, à medida que ganhou mais confiança, segundo a análise do MPSC.

Outro elemento crucial para a investigação foi a identificação de paradas frequentes em um posto de gasolina localizado a menos de um quilômetro da sede da empresa beneficiada pelo esquema.

Gastos em cartões e dados de geolocalização confirmaram a presença física do agente investigado exatamente no local e horário das tratativas de repasse.

Os peritos notaram que o investigado frequentemente adotava medidas para evitar o rastreamento, como desligar ou desconectar o aparelho celular durante os trajetos rodoviários.

No entanto, em ocasiões específicas, falhas nessa estratégia permitiram ao GAECO reconstruir os vínculos comunicacionais com membros do alto escalão e consolidar o nexo entre as viagens e a finalidade ilícita do grupo.

O ND Mais buscou contato com a defesa dos servidores investigados, mas não a localizou até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para posicionamento.

Operação Arbóreo investiga desvios na merenda em Blumenau

Operação Arbóreo investiga desvios na merenda em BlumenauFoto: Gaeco/Prefeitura de Blumenau/ND MaisOperação Arbóreo investiga desvios na merenda em BlumenauFoto: Gaeco/Prefeitura de Blumenau/ND Mais

A Operação Arbóreo, deflagrada em 7 de maio, é uma investigação conduzida pelo GAECO e pela 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau para apurar um esquema estruturado de fraude à licitação e corrupção no serviço de alimentação escolar do município.

Ao menos três servidores do alto escalão da Prefeitura de Blumenau, à época do período investigado, e dois diretores da Risotolândia são suspeitos de integrar a organização criminosa, segundo o MPSC.

No período monitorado, entre junho de 2022 e fevereiro de 2024, os envolvidos teriam desembolsado R$ 3,6 milhões em propina.

Até o momento, foram afastados sigilos, cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Blumenau, Indaial e Araucária (PR), e monitorados trajetos dos investigados para coleta de provas.

Desde que a operação foi deflagrada, o GAECO realizou oitivas, segue analisando dados telemáticos e aguarda informações bancárias para finalizar o relatório.

A descoberta das irregularidades na merenda escolar ocorreu por acaso, durante outra investigação sobre desvios em obras públicas. Problemas em contratos de segurança pública também foram identificados, o que deu início a uma terceira investigação.

Próximos passos

A Justiça bloqueou bens e valores dos investigados  para a garantia de recuperação de recursos públicos, até que a investigação seja concluída.

Até o momento, foram afastados sigilos, cumpridos nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Blumenau, Indaial e Araucária (PR), e monitorados trajetos dos investigados para coleta de provas.

Desde que a operação foi deflagrada, o GAECO realizou oitivas, segue analisando dados telemáticos e aguarda informações bancárias para finalizar o relatório.

A descoberta das irregularidades na merenda escolar ocorreu por acaso, durante outra investigação sobre desvios em obras públicas. Problemas em contratos de segurança pública também foram identificados, o que deu início a uma terceira investigação.

O que diz a Prefeitura de Blumenau

Em nota, a Prefeitura de Blumenau alegou que as duas operações realizadas pelo Gaeco em 7 de maio investigam contratos firmados pela gestão anterior, encerrada em 2024.

“A atual administração está à disposição das autoridades e colabora de forma transparente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos”.

Já a prefeitura de Indaial ressaltou que não tem envolvimento com a investigação e a contratação dos serviços tem relação apenas com o município de Blumenau.

O que diz a Risotolândia

A Risotolândia, empresa envolvida na investigação, afirma que os dois diretores citados na investigação não fazem mais parte da empresa há mais de quatro anos. Mesmo assim, o grupo permanece à disposição das autoridades, colaborando com todas as solicitações.

“A empresa também ressalta novamente que a existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”, acrescenta a Risotolândia em nota.

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