O placar de seis meses: programa nuclear iraniano danificado ✓, Khamenei morto ✓, Estreito de Ormuz aberto ✗, regime derrubado ✗, proxies eliminados ✗, custo aceitável ✗. Vitórias táticas que não se converteram em vitórias estratégicas — o padrão mais comum das guerras modernas americanasFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Em 28 de fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram a “Operação Epic Fury” — ataques em larga escala contra as instalações nucleares do Irã e sua liderança. O aiatolá Khamenei foi morto no primeiro dia. O Estreito de Ormuz foi fechado em retaliação. A guerra começou.
Seis meses e duas semanas depois, o Estreito continua fechado. O custo já superou US$ 38 bilhões pelo cálculo oficial do Pentágono — e US$ 113 bilhões pela estimativa independente do WarCosts.org, que inclui custos indiretos, de mobilização e de depreciação de equipamentos.
Dezoito militares americanos foram mortos. A pipeline de petróleo saudita East-West foi desligada em 11 de setembro, perturbando 39% do comércio global de energia. E Trump disse, numa entrevista recente, que a guerra termina “depois das eleições de novembro.”
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Seis meses é tempo suficiente para fazer um balanço honesto. O que os EUA conseguiram? O que não conseguiram? E o que custou?
O que os EUA conseguiram
Há vitórias reais que o balanço precisa registrar.
O programa nuclear iraniano foi gravemente danificado. As instalações de enriquecimento de urânio em Natanz, Fordow e Isfahan foram atingidas. A instalação nuclear de Darkhovin foi destruída em 19 de julho.
Os ataques americanos assassinaram o aiatolá Khamenei no primeiro dia do conflito, decapitando a liderança do regime num golpe sem precedente.
A capacidade militar convencional iraniana foi significativamente degradada. Irã reportou 3.528 pessoas mortas e 27.170 feridas — incluindo forças militares e civis. Sistemas de mísseis de longo alcance, radares e infraestrutura de defesa aérea foram destruídos em múltiplas rodadas de ataques.
A Guarda Revolucionária perdeu capacidade de projeção. Os proxies do Irã — Hezbollah, milícias iraquianas, Houthis — foram enfraquecidos pela perda de financiamento e abastecimento que passava pelo Irã.
O que os EUA não conseguiram
A lista do que não foi alcançado é mais longa.
O Estreito de Ormuz não foi reaberto. O estreito está efetivamente fechado, com apenas 6 a 10 navios por dia passando contra os 85 normais. O objetivo declarado da operação — garantir o livre fluxo de petróleo — não foi atingido seis meses depois.
O regime iraniano sobreviveu. Com a morte de Khamenei, o poder foi transferido para um conselho de liderança — mais difuso e talvez mais difícil de negociar do que um único líder.
O regime que os EUA esperavam que colapsasse ou capitulasse sob pressão militar e econômica continua funcionando.
O cessar-fogo não durou. Apesar de ter assinado um acordo de cessar-fogo de 60 dias em meados de junho, a guerra só escalou nas semanas recentes. Um memorando de 14 pontos foi assinado em 19 de junho, mas colapsou no início de julho quando o Irã atacou 3 navios durante uma pausa diplomática. O acordo mais próximo de encerrar a guerra durou menos de três semanas.
Os arsenais americanos foram criticamente depletados. O Escritório de Orçamento do Congresso estimou que pode levar cinco anos para repor os estoques americanos de munições.
Isso significa que os EUA entraram no conflito com a Ucrânia ainda em andamento, depletaram sistematicamente seus interceptores de mísseis THAAD e Patriot — e agora, se a OTAN precisar deles para responder a um movimento russo, os arsenais não estão completos.
Os números que definem o conflito
A guerra custou US$ 38 bilhões até agosto de 2026, com projeção de crescer US$ 3 bilhões por mês — pelo cálculo oficial do Pentágono. A estimativa independente do WarCosts.org, que inclui custos indiretos e de depreciação de equipamentos, aponta para mais de US$ 113 bilhões.
A diferença entre os dois números não é apenas metodológica. É política. O Pentágono tem interesse em apresentar o custo menor. O Congresso americano, que votou três vezes pela interrupção da guerra sem resultado, tem interesse em apresentar o custo maior.
O Pentágono falhou em fornecer atualizações regulares sobre baixas e não atribuiu mortes após o acordo de cessar-fogo de meados de junho ao conflito.
Do lado iraniano, os custos são diferentes mas igualmente graves. O rial iraniano atingiu mínimas históricas. As exportações de petróleo foram reduzidas drasticamente pelo bloqueio naval americano.
O Departamento de Defesa estimou que o bloqueio custou ao Irã US$ 4,8 bilhões em receitas de petróleo perdidas até 1 de maio — apenas nos primeiros dois meses do bloqueio, que continua até hoje.
A escalada que não parou
O balanço de seis meses não seria completo sem mapear como a guerra se expandiu geograficamente além do que qualquer planejador americano havia previsto publicamente.
O Líbano entrou no conflito em 2 de março — quatro dias depois do início da guerra — com Israel invadindo o sul do país em resposta ao Hezbollah.
Um cessar-fogo em abril foi estendido múltiplas vezes. Em junho, foi incluído no memorando de Islamabad — mas o Hezbollah rejeitou o acordo e exigiu retirada completa israelense.
Os Houthis do Iêmen escalaram sistematicamente, passando de ataques a navios no Mar Vermelho para ataques diretos à Arábia Saudita. Em julho, impuseram bloqueio marítimo à Arábia Saudita. Em setembro, tomaram o porto de Mocca e agora controlam efetivamente o acesso ao Bab el-Mandeb.
O Iraque tornou-se palco de ataques de milícias contra bases americanas. A Jordânia foi atingida por mísseis iranianos. O Bahrein teve sua base naval americana temporariamente inutilizada.
A guerra que começou como operação cirúrgica contra o programa nuclear iraniano transformou-se num conflito regional com múltiplos fronts ativos simultaneamente.
O que Trump disse — e o que isso revela
Há uma frase que sintetiza o estado atual da guerra com a clareza que nenhum comunicado oficial consegue: Trump disse que a guerra termina “depois das eleições de novembro.”
Seis meses depois do que afirmou seria uma operação militar rápida, a guerra no Irã se tornou um atoleiro. A frase sobre novembro não é apenas sobre timing eleitoral. É uma admissão implícita de que a guerra não termina pelos seus próprios termos militares — termina quando houver uma janela política americana para encerrar.
Isso tem consequências para todos os atores. O Irã, que sabe que novembro é a data-alvo americana, pode calcular que resistir até novembro muda o cálculo de Trump. Os aliados americanos no Golfo, que precisam de clareza sobre quando o Estreito abre novamente, ficam em suspense até o resultado eleitoral.
Os exportadores brasileiros de soja e madeira, que pagam frete mais caro por causa do desvio de rotas, continuam pagando enquanto novembro não chega.
O placar dos seis meses
Fazer um balanço honesto da guerra de seis meses exige olhar para cada objetivo declarado.
Destruir o programa nuclear iraniano: Parcialmente atingido. Instalações foram destruídas, mas o conhecimento técnico persiste. A Iran pode reconstruir em anos se o regime sobreviver.
Remover a liderança iraniana: Khamenei morto. Mas o regime sobreviveu com liderança mais difusa — potencialmente tornando negociações mais complicadas, não mais fáceis.
Reabrir o Estreito de Ormuz: Não atingido. Seis meses depois, o Estreito continua operando a uma fração de sua capacidade normal.
Encerrar a ameaça dos proxies do Irã: Parcialmente atingido. Hezbollah enfraquecido. Houthis, paradoxalmente, mais audaciosos — tomando o Bab el-Mandeb e atacando a Saudi Aramco.
Custo aceitável: Não atingido pelos próprios parâmetros americanos. US$ 38 bilhões em seis meses, arsenais que levam 5 anos para repor, 18 militares mortos, inflação que o CBO projeta aumentar 0,5 ponto percentual no primeiro trimestre de 2027.
O balanço honesto é de uma operação que atingiu seus objetivos táticos mais claros — dano ao programa nuclear, eliminação de Khamenei — e falhou nos objetivos estratégicos mais importantes: encerrar o conflito em condições favoráveis e garantir o fluxo de energia global.
É o tipo de resultado que os estudos de caso de guerras modernas identificam repetidamente: vitórias militares que não se convertem em vitórias estratégicas. E que produzem a pergunta mais difícil de qualquer conflito — não “como ganhamos?” mas “como saímos?”

