Presidente Lula disputa mais uma eleição e pode chegar ao 4º mandato – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se aproxima do final de um ciclo marcado por uma sequência de derrotas no Congresso Nacional.
Um levantamento que contabiliza 23 reveses de Lula no Congresso Nacional mostra que o problema não ficou concentrado em uma área específica, e atingiu desde pautas políticas até medidas econômicas consideradas estratégicas pelo Planalto.
Entre os episódios de maior impacto neste período estão a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), a derrubada do decreto que aumentava o IOF e uma série de vetos presidenciais revertidos pelo Congresso.
Receba as principais notícias de política e eleições
O cenário expõe uma combinação de fatores que dificultou a relação entre Executivo e Legislativo. Veja os sete pontos que ajudam a explicar o desgaste.
Executivo encontrou dificuldades no Congresso para aprovar matériasFoto: Kayo Magalhães/Camara dos Deputados/Divulgação/ND
1. Falta de base de apoio sólida no Congresso dificultou relações entre Executivo e Legislativo
Lula voltou ao Palácio do Planalto em 2023 após uma eleição marcada por uma frente ampla contra Jair Bolsonaro e forte polarização política entre direita e esquerda. A aliança reunia partidos de diferentes correntes políticas, mas não se transformou em uma base parlamentar organizada e fiel a Lula.
Na prática, o governo precisou negociar votação por votação, sem contar com uma maioria automática para aprovar sua agenda prioritária tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.
A dificuldade apareceu em temas econômicos, sociais e institucionais, onde o Planalto precisou ampliar concessões para tentar garantir apoio e emplacar matérias de interesse.
Fachada do Congresso Nacional, sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro .Foto: Leonardo Sá/Agência Senado
2. O novo peso do Congresso e a autonomia parlamentar
O Congresso Nacional passou por uma grande transformação nos últimos anos, com ampliação do poder sobre o Orçamento público.
Com maior controle sobre emendas parlamentares e recursos destinados às bases eleitorais, deputados e senadores passaram a ter mais autonomia em relação ao Executivo.
Com isso, a lógica da política mudou e a simples liberação de recursos deixou de garantir apoio automático nas votações, com o enfraquecimento do uso de recursos como moeda de troca política.
Matérias econômicas do governo Lula enfrentaram teste para conseguir apoio no ParlamentoFoto: João Geraldo Borges Júnior/ixabay
3. Governo perdeu a disputa em medidas econômicas estratégicas
Uma das maiores derrotas do terceiro mandato ocorreu na área fiscal, com a derrubada do decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
A medida fazia parte da estratégia do governo para ampliar a arrecadação e equilibrar as contas públicas, mas enfrentou forte resistência no Congresso.
A Câmara derrubou o decreto e o Senado também rejeitou a medida, obrigando o governo a buscar alternativas para compensar a perda de receitas. O tema chegou até o Supremo Tribunal Federal (STF), após meses de queda de braço entre os poderes sobre o aumento do imposto.
O episódio mostrou que o Planalto enfrentava dificuldades para aprovar até propostas consideradas centrais pela equipe econômica.
Fachada do Palácio do Planalto em Brasília (DF), local de trabalho do Presidente da República e seu vice.Foto: Pedro França/Agência Senado/ND
4. Negociação política tardou, e muitas vezes falhou
Outro problema enfrentado por Lula neste terceiro mandato foi a dificuldade de antecipar crises e construir acordos antes de votações importantes para o governo.
Em diferentes momentos, a articulação do governo se intensificou quando a resistência parlamentar já estava consolidada, o que expôs e marcou crises entre o Planalto, Câmara e Senado.
A queda do decreto do IOF e outras derrotas em plenário mostraram que o Executivo teve dificuldade para transformar diálogo institucional em votos suficientes, com muita polêmica e derrubadas de vetos presidenciais.
Relação de Lula com Motta e Alcolumbre foi marcada por momentos de tensão ao longo do mandato Foto: Jonas Pereira/Agência Senado
5. Acordos com líderes não garantiram votos no plenário
A fragmentação partidária tornou ainda mais difícil transformar negociações com dirigentes de partidos e líderes parlamentares em apoio efetivo à medidas governamentais.
Deputados e senadores passaram a atuar com maior independência, levando em consideração interesses regionais, eleitorais e posicionamentos próprios.
Com isso, acordos construídos pela articulação política nem sempre foram suficientes para garantir vitória nas votações.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (c) reunido com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (d), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (e)Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
6. Governo teve dificuldade para controlar a própria agenda
Além das derrotas em propostas enviadas pelo Executivo, o governo também enfrentou problemas com pautas que avançaram no Congresso sem o apoio do Planalto.
Foi o caso de temas como marco temporal das terras indígenas, restrição das saidinhas de presos e mudanças em projetos com impacto econômico e social.
A derrubada de vetos presidenciais se tornou um dos principais sinais de desgaste da relação entre os Poderes.
Ano eleitoral esvaziou Congresso Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
7. Ano eleitoral reduziu espaço para negociações difíceis
A proximidade das eleições de 2026, em outubro, aumentou ainda mais a resistência do Congresso a medidas consideradas impopulares.
Parlamentares passaram a avaliar o impacto eleitoral das decisões e reduziram o espaço para apoiar propostas que poderiam gerar desgaste junto às bases.
O ambiente eleitoral tornou mais difícil a aprovação de mudanças que exigiam maior custo político.
Jorge Messias foi rejeitado pelo Senado em uma das derrotas mais significativas do mandato de LulaFoto: Lula Marques/ND Mais
Messias no STF virou símbolo da crise
A rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF foi o episódio de maior impacto político do mandato atual do presidente Lula.
Em abril de 2026, o Senado rejeitou o nome indicado por Lula por 42 votos a 34. Messias precisava de 41 votos para ser aprovado.
A derrota representou um sinal de fragilidade da articulação do governo no Senado e entrou para a história por ser a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao Supremo em mais de um século.
Lula critica Jorginho Mello e questiona sobre ausência do governador em eventos do governo federalFoto: Alan Pedro/ND Mais
O desafio de Lula até o fim do mandato
As derrotas no Congresso não significam que o governo deixou de aprovar projetos importantes. A reforma tributária, por exemplo, avançou durante o mandato.
O problema foi a dificuldade de construir uma maioria estável para sustentar a agenda presidencial.
Na reta final do governo, Lula enfrenta o desafio de recuperar a capacidade de articulação política e evitar que novas derrotas reforcem a imagem de um Executivo com pouco controle sobre o Legislativo.

