Estádio Centenário, casa do Caxias, um dos filiados da Federação Gaúcha de FutebolFoto: Vitor Soccol/S.E.R. Caxias/ND
A alternância de poder é saudável em qualquer instituição. Permite renovação de ideias, oxigenação da gestão e, principalmente, impede que estruturas de comando se transformem em espaços de permanência pessoal.
Por isso, chama atenção a proposta da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) de alterar seu estatuto para permitir a reeleição ilimitada do presidente. Hoje, são permitidos apenas dois mandatos consecutivos.
É legítimo discutir a continuidade de uma gestão bem avaliada. Um dirigente que apresenta resultados, organiza a instituição e conquista a confiança dos filiados naturalmente pode defender a permanência. O problema começa quando se pretende retirar do estatuto qualquer limite para essa permanência.
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Uma coisa é permitir que um bom trabalho tenha continuidade por um período razoável. Outra, completamente diferente, é transformar a possibilidade de permanecer no cargo em algo sem prazo definido.
Limites de mandato não existem para impedir bons gestores de trabalhar. Existem para preservar a própria instituição. A alternância cria a possibilidade de novas ideias, permite a chegada de diferentes grupos e reduz o risco de concentração de poder. Mesmo quando uma administração é eficiente, a instituição precisa ser maior do que qualquer dirigente.
O futebol brasileiro já convive há décadas com estruturas excessivamente concentradas, em que determinados grupos permanecem por longos períodos no comando de clubes, federações e entidades. Quando isso acontece, o processo eleitoral corre o risco de deixar de ser uma disputa de projetos para se transformar apenas na manutenção de uma estrutura já estabelecida.
E há uma questão ainda mais preocupante: o precedente. Se a mudança for aprovada no Rio Grande do Sul, nada impede que outras federações passem a enxergar a alteração como um modelo possível. O argumento será sempre parecido: se a gestão é boa, por que impedir sua continuidade? Mas a pergunta deveria ser outra: se a gestão é realmente boa, por que a instituição precisa eliminar o limite de mandatos para garantir sua continuidade?
Não se trata de questionar a competência ou a legitimidade de quem ocupa atualmente a presidência da FGF. A discussão é maior e envolve o desenho institucional da entidade. Regras não devem ser alteradas pensando apenas no dirigente de hoje, mas nas administrações que virão amanhã.
Uma federação forte não deveria depender da permanência de uma única pessoa. Precisa ter mecanismos capazes de garantir continuidade administrativa sem abrir mão da renovação política. É possível preservar projetos bem-sucedidos sem transformar o cargo de presidente em uma posição de permanência indefinida.
O futebol precisa de gestão profissional, transparência e estabilidade, mas também precisa de alternância. A perpetuação no poder, mesmo quando começa sob o argumento de continuidade de um bom trabalho, pode criar vícios, acomodação e dependência institucional.
A proposta da Federação Gaúcha de Futebol precisa ser acompanhada com atenção
Por isso, a proposta da FGF merece ser acompanhada com atenção. Mais do que uma simples alteração estatutária, ela estabelece um conceito sobre como uma entidade esportiva deve lidar com o poder. E, nesse aspecto, retirar o limite de mandatos parece muito mais um retrocesso do que um avanço.
Se a moda pega, outras federações podem seguir o mesmo caminho. E o futebol brasileiro, definitivamente, não precisa de mais concentração de poder. Precisa de alternância, transparência, fiscalização e renovação. O dirigente passa. A instituição fica. É justamente por isso que as regras precisam proteger a instituição, e não facilitar a permanência de quem está no comando.

