Padre de Madagascar atravessou o oceano e vive sua missão religiosa no Oeste catarinenseFoto: Arquivo pessoal/ND Mais
Aproximadamente 10 mil quilômetros separam o Brasil de Madagascar, uma ilha localizada no Oceano Índico, ao sudeste do continente africano. A distância é enorme, mas não foi suficiente para impedir que o padre Jean Mickael atravessasse continentes para cumprir sua missão religiosa.
Natural da maior ilha da África e da quarta maior do mundo, o sacerdote vive hoje uma realidade completamente diferente daquela em que cresceu. Desde que chegou a São Carlos, cidade termal de pouco mais de 10 mil habitantes no Oeste catarinense, passou a conviver com tradições alemãs e italianas, um novo idioma e costumes que até então desconhecia.
A mudança foi resultado de uma missão da congregação religiosa à qual pertence.
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“A oportunidade surgiu através da missão religiosa, com o intercâmbio entre as províncias da América Latina e Madagascar. Quem pertence à congregação sempre tem essa missão de ir ao encontro daqueles que estão mais longe”, explica.
Padre de Madagascar encontrou acolhida, fé e uma nova rotina em cidade termal de SCFoto: Divulgação/Arquivo Pessoal/ND Mais
Apesar da distância, ele conta que não teve medo da mudança. “Era minha primeira saída de Madagascar. Havia a questão da língua, da cultura e de um lugar desconhecido, mas confiei em Deus. Foi Ele que me enviou aqui.”
Antes de chegar a Santa Catarina, Jean Mickael viveu por três anos em Porto Alegre. O Oeste catarinense, porém, apresentou uma realidade diferente.
“Foi uma aventura impressionante. Recebi uma acolhida calorosa no meio dos alemães, italianos e de tantas culturas.”
Infância simples e vocação precoce
A história do padre começou em um contexto bastante simples em Madagascar. Filho único, ele foi criado pela mãe, que enfrentou dificuldades para garantir seus estudos.
“Minha vida era simples. Eu estudava, ajudava minha mãe na roça e era muito ligado à família e à Igreja. Passávamos por muitas dificuldades, mas ela fez o possível para me colocar na escola”, relembra o padre de Madagascar.
A paróquia também se despediu do Pe. Firmino, agradecendo por sua dedicação e testemunho, e o enviando para sua nova missão em União dos PalmaresFoto: Divulgação/Arquivo Pessoal/ND Mais
As lembranças da infância passam pelas brincadeiras na natureza, pela convivência com os vizinhos e pelos desafios enfrentados pela família.
A vocação religiosa surgiu cedo, quando tinha apenas 12 anos. Segundo ele, a inspiração veio das celebrações da Semana Santa, da formação recebida em uma escola católica e do contato com missionários que atuavam na região onde morava.
Uma ilha de cultura e biodiversidade únicas
Com cerca de 32 milhões de habitantes, Madagascar reúne 18 grupos étnicos e uma rica mistura de influências africanas e asiáticas. O país possui maioria cristã e mantém tradições ancestrais muito presentes na cultura local.
Ao falar de sua terra natal, Jean Mickael destaca a diversidade cultural, a hospitalidade e a riqueza natural da ilha.
“Madagascar é uma ilha fascinante, marcada por uma história singular, uma cultura vibrante e um povo acolhedor. Mais de 90% das espécies de animais e plantas não existem em nenhum outro lugar do planeta”, explica.
Entre os símbolos do país estão os lêmures, os baobás e as florestas tropicais que atraem visitantes do mundo inteiro. Na culinária, o arroz é presença obrigatória nas refeições diárias dos malgaxes.
Adaptação ao jeito catarinense
Em São Carlos, o maior desafio foi aprender a língua portuguesa e compreender os costumes locais.
“O maior choque cultural foi a língua e os costumes. O português foi difícil no início”, conta.
Com o tempo, algumas expressões regionais passaram a fazer parte do vocabulário. Entre elas estão palavras como “guria” e “piá”.
Paróquia São Carlos Borromeu, no Oeste de Santa Catarina tem o padre de Madagascar como novo vigárioFoto: Divulgação/Arquivo pessoal/ND Mais
O padre também já estava familiarizado com outra tradição bastante presente no Sul do Brasil: o chimarrão.
“Já tomei bastante chimarrão quando morei no Rio Grande do Sul e continuo tomando aqui em Santa Catarina.”
Na gastronomia, ele revela preferência por dois clássicos brasileiros: a feijoada e o churrasco.
Já o frio catarinense não chegou a assustar. “Lá em Madagascar também faz frio. Brasil e Madagascar são parecidos no clima porque estamos abaixo da linha do Equador.”
Saudade da mãe e gratidão pela acolhida
Hoje, Jean Mickael afirma que já se sente em casa em São Carlos. O que mais aprecia é a proximidade com as pessoas e a participação nas celebrações religiosas.
A experiência de viver tão longe do país natal também trouxe aprendizados.
Jean conta que foi acolhido na pequena cidadeFoto: Arquivo pessoal/ND Mais
“Fortaleceu minha fé e ampliou minha visão de mundo. Aprendi a valorizar a diversidade e a resiliência.”
Mesmo adaptado à nova realidade, a saudade da família permanece, especialmente da mãe.
“Sinto saudade da família, especialmente da minha mãe, porque sou filho único.”
O contato é mantido por chamadas e mensagens de WhatsApp. À comunidade que o acolheu, ele deixa uma mensagem de agradecimento.
“Gratidão pela acolhida e que sigamos unidos na fé e na fraternidade. Felizes os que se ajudam nessa vida, porque somos peregrinos nesta terra. A união faz a força”, explica padre de Madagascar.

