Um dos mais raros do mundo, mel é produzido em larga escala em Santa CatarinaFoto: Joel de Souza Rosa/Arquivo pessoal/ND Mais
Santa Catarina é o maior produtor do mel de melato da bracatinga, considerado um dos mais raros do mundo. O destaque é de São Joaquim, na Serra Catarinense. A cor mais escura e o sabor menos doce caracterizam o alimento, cuja produção é feita a cada dois anos exclusivamente no Sul no Brasil.
Diferente dos méis convencionais, que surgem a partir do néctar das flores, esse é especial e chama a atenção por vir de uma planta distinta: a árvore bracatinga, nativa também nos estados do Rio Grande do Sul e Paraná.
As bracatingas abrigam pequenos insetos chamados de cochonilhas, que perfuram a casca da árvore para se alimentar da seiva e liberam um líquido açucarado, o melato, que é então coletado pelas abelhas. As principais produtoras são as abelhas da espécie Apis mellifera, conhecidas popularmente como abelhas-europeias.
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Abelha-europeia é principal produtora do melato de bracatingaFoto: Wikipédia/Divulgação
Desvalorizado no Brasil, luxo na Europa
Produzido unicamente no Sul do Brasil, o produto atraiu a atenção estrangeira por suas propriedades únicas, sendo a Alemanha o maior comprador e principal mercado consumidor. Atualmente, mais de 90% da produção catarinense é destinada ao exterior.
Rodrigo Durieux da Cunha, chefe da Divisão de Estudos Apícolas da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) explica porque do produto ainda ter pouco destaque no Brasil. “A nossa cultura valoriza méis claros, e até um tempo atrás os apicultores não gostavam porque era um mel que não era aproveitado, não tinha valor.”
Produto é feito através do néctar das flores é mais claro e mais valorizado no BrasilFoto: Joel de Souza Rosa/Arquivo pessoal
A valorização só começou depois que o produto foi devidamente avaliado por sua composição e exportado. Santa Catarina, no entanto, vêm trabalhando para mudar o cenário nacional.
“A produção do melato da bracatinga já é uma tradição aqui na região do Planalto e existe um associativismo bastante organizado. Tem instituições que prestam orientações aos produtores, a Epagri leva informações para se produzir com qualidade, além de outras parcerias”, afirma Rodrigo.
Em 2021, o produto de São Joaquim recebeu o selo de IG (Indicação Geográfica) Planalto Sul Brasileiro, abrangendo uma área de produção de 58.987 km², com 134 cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. O selo permite rastreabilidade, autenticidade e comprova que a produção só pode ocorrer nesta região, o que valoriza e agrega valor aos produtos.
Serra Catarinense é principal produtora do melato de bracatingaFoto: Mycchel Legnaghi/São Joaquim Online/ND Mais
Produção e desafios
Joel de Souza Rosa, apicultor na Apiários Real em São Joaquim, na Serra Catarinense, afirma que a colheita do mel de melato pode render até 80kg por colmeia em anos com clima favorável. O clima mais seco é ideal para a produção, que é atrapalhada por períodos de muita chuva. Dependendo do ano, o máximo adquirido é apenas 10kg.
A oferta de alimento para os insetos que participam do processo também é essencial: a bracatinga começa a secar após cinco anos, sendo necessária uma nova plantação.
Colheita depende do clima e da flora disponívelFoto: Joel de Souza Rosa/Arquivo pessoal
O apicultor considera que a produção poderia ser potencializada se houvesse algum tipo de incentivo. “Algo do governo ou de algum órgão ambiental para a gente fazer renovações das plantas. Senão a gente vai se preocupar porque está diminuindo muito, elas estão secando, né? Depois de secar, elas morrem e não tem uma renovação” explica Joel.
Mel de flor e de melato: qual a diferença?
O floral é geralmente colhido de duas a três vezes no ano, nas épocas de outono e primavera. Ele possui sabor mais suave, coloração mais clara e, por conter mais glicose, é comum que cristalize com o tempo.
Já a composição química do melato da bracatinga, que vem da seiva das árvores, faz com que ele seja rico em sais minerais (até 10 vezes mais que o mel floral) e tenha um baixo teor de açúcares como glicose e frutose. Entre suas propriedades, se destacam as funções antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas.
Além disso, sua colheita ocorre a cada dois anos por conta do ciclo de vida das cochonilhas, que requerem esse tempo para se reproduzir e infestar a árvore. A produção ocorre geralmente de janeiro a março, dependendo das condições climáticas na região.

