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Os EUA declararam dia D Econômico contra o Irã. O Brasil pode ser afetado?

Ultima atualização: 25 de agosto de 2026 08:00
Por Joao Alfredo Nyegray
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Dia D Econômico contra o Irã: após meses de guerra militar sem capitulação, os EUA passam para a asfixia econômica. Foto: Imagem gerada por IA/ND MaisDia D Econômico contra o Irã: após meses de guerra militar sem capitulação, os EUA passam para a asfixia econômica. Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Ontem, 24 de agosto, o secretário do Tesouro americano Scott Bessent convocou uma coletiva de imprensa no Departamento do Tesouro e anunciou o que chamou de “D-Day Econômico” contra o Irã. Bessent comparou o plano às preparações dos Aliados para o Dia D na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial e nomeou a campanha de “Operação Economic Outcast”.

O Tesouro americano impôs sanções a quase 60 entidades, navios e indivíduos ao redor do mundo — incluindo nos Emirados Árabes Unidos, Hong Kong, China, Singapura e Suíça — acusando-os de permitir a “imprudência do regime iraniano”.

Mas a parte mais importante do anúncio não foi o que já aconteceu. Foi o aviso sobre o que ainda pode acontecer.

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O que é o “D-Day Econômico” e a Operação Outcast

Bessent disse que os EUA estão expandindo as categorias de sanções secundárias para os campos de ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e navios. Disse que essas áreas são usadas pelo Irã para gerar receita, evadir sanções ou de outra forma mitigar a pressão econômica.

As sanções secundárias são o instrumento mais poderoso — e mais controverso — do arsenal do Tesouro americano. Diferentemente das sanções primárias, que proíbem empresas e cidadãos americanos de negociar com o Irã, as sanções secundárias puniem entidades de terceiros países que negociem com o Irã.

Em outras palavras: uma empresa chinesa, suíça, emiradense ou brasileira que faça negócios com empresas iranianas pode ser cortada do sistema financeiro americano — mesmo que não seja americana e mesmo que não tenha violado nenhuma lei de seus próprios países.

“Ninguém está acima disso”, disse Bessent em resposta à pergunta sobre se a iniciativa alcançaria a China. “Isso é asfixia econômica deste regime… e ninguém deveria testar nossa determinação.”

60 entidades sancionadas e a China no centro da questão

O Irã vive uma queda recorde de sua moeda em relação ao dólar americano, mas o país tem conseguido resistir à pressão por mais tempo do que muitos esperavam.

Bessent disse que o presidente Trump está fazendo ligações para líderes mundiais com “pedidos específicos” para que cessem o comércio com o regime iraniano. Quais líderes? Não disse. Com qual prazo? Também não revelou. “Não vou definir um prazo, mas não temos paciência infinita aqui”, afirmou.

A ação dos Emirados Árabes Unidos de suspender negócios com o Irã na semana passada foi citada por Bessent como sinal de que sua campanha estava funcionando.

A mudança de estratégia que o anúncio revela

Para entender a importância do anúncio de ontem, é preciso colocá-lo na trajetória desta guerra que dura seis meses.

A estratégia militar — ataques diretos ao Irã em fevereiro, março e junho — não forçou a capitulação de Teerã. O cessar-fogo de 60 dias expirou sem acordo em 17 de agosto, como escrevemos aqui ontem. Trump recusou extensão. Mas também não retomou os ataques militares.

Autoridades americanas disseram que as sanções secundárias expandidas devem ser o principal curso de ação contra o Irã pelo menos até depois das eleições de meio de mandato em novembro, quando uma nova campanha militar pode voltar à mesa.

Traduzindo: até novembro, a guerra com o Irã vai ser travada pelo Tesouro, não pelo Pentágono.

A lógica — e os limites — da asfixia econômica

A lógica do D-Day Econômico tem coerência: se os ataques militares não forçaram o Irã a negociar, talvez cortar todas as suas fontes de receita — petróleo, ouro, criptoativos, aviação — faça o que as bombas não fizeram.

O Irã já está sofrendo economicamente: a moeda atingiu mínima histórica.

Mas há um limite que o próprio Bessent nomeou ontem. Quando questionado por que estava ameaçando parceiros do Irã em vez de sancioná-los imediatamente, Bessent respondeu: “Bom, estamos dando a todos a oportunidade de corrigir o mau comportamento. Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?”

É uma admissão importante. Sanções secundárias aplicadas de forma ampla contra bancos chineses, por exemplo, poderiam desestabilizar cadeias de pagamento globais — o que faria mais mal aos EUA do que ao Irã.

A análise do Eurasia Group sobre o anúncio foi direta: “Seria uma escalada contra a China num momento em que acho que a administração ainda está muito consciente de gerenciar sua relação com Pequim. Bessent gosta de falar grande quando se trata do dossiê do Irã, então é possível que não entregue sua ameaça.”

O elefante na sala: o que acontece com a China

Aqui está a questão que nenhum jornalista presente ontem conseguiu resolver — e que tem implicações diretas para o Brasil.

A China compra aproximadamente 90% das exportações de petróleo do Irã. É o principal comprador do petróleo iraniano que sustenta o regime de Teerã. Sem a China, as sanções americanas ao petróleo iraniano funcionariam muito melhor do que funcionam. Com a China comprando, o Irã sempre tem para quem vender.

A questão principal é se o Tesouro vai além das pequenas refinarias chinesas e começa a ter como alvo os grandes bancos chineses.

Se os EUA sancionarem grandes bancos chineses que processam pagamentos de petróleo iraniano, corta-se a maior tábua de salvação financeira do Irã. Mas também se desestabiliza a relação com o maior parceiro comercial da maioria dos países do mundo — incluindo o Brasil.

O Brasil nessa equação

O Brasil não compra petróleo iraniano. Não tem relações comerciais diretas com o Irã de magnitude que o coloque na mira das sanções. Mas há dois mecanismos pelos quais o “D-Day Econômico” pode chegar ao Brasil indiretamente.

O primeiro é via China. O Brasil é o maior parceiro comercial da China entre os países emergentes. A JBS vende carne para a China. A Vale exporta minério de ferro para a China. A Petrobras negocia parcerias com empresas chinesas.

Se grandes bancos chineses forem sancionados e cortados do sistema do dólar, as cadeias de pagamento do comércio Brasil-China ficam comprometidas — mesmo sem o Brasil ter feito nada errado.

O segundo é de precedente. O anúncio de ontem estabelece que os EUA estão dispostos a usar o sistema do dólar como arma não apenas contra o Irã, mas contra qualquer país ou empresa que faça negócios com o Irã.

Essa mesma lógica — “escolha entre nós e o inimigo” — é a que está sendo aplicada ao Brasil em outros contextos. A Doutrina Monroe que analisamos aqui em agosto é a expressão geopolítica do mesmo princípio que o D-Day Econômico expressa na esfera financeira.

O senso entre analistas é que a estratégia americana de “nenhuma guerra, nenhum acordo” — o limbo atual — mantém a pressão econômica enquanto se aguarda um momento mais propício para uma eventual escalada militar depois de novembro.

Quando o “martelo do Tesouro” pode cair

Bessent foi deliberadamente vago sobre prazos e alvos. Mas disse uma coisa com clareza: a expectativa é que até o fim desta semana uma instituição financeira importante seja sancionada — sinalizando que o anúncio não era apenas retórica.

O Irã, por sua vez, disse que responderá de forma “sísmica”. O Foreign Minister Araghchi disse que sanções americanas não são novidade para o Irã. E o regime já mostrou que consegue resistir por mais tempo do que os analistas ocidentais geralmente preveem.

O que está em jogo é uma batalha de resistência: quanto tempo o Irã consegue sobreviver à asfixia econômica versus quanto tempo Trump tem — política e eleitoralmente — para esperar o resultado. Com eleições americanas em novembro, a janela para a estratégia econômica funcionar sem precisar de uma nova escalada militar é de apenas dois meses.

O martelo do Tesouro está no ar. Quando — e em quem — vai cair é a pergunta que vai definir os próximos meses desta guerra.

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