Parque Sino da Paz homenageia as vítimas e seus sobreviventes de Explosões de Bombas Atômicas.Foto: Divulgação/SECOM/ND Mais
No interior do Meio-Oeste catarinense, entre colinas suaves e estradas rurais que ainda preservam o ritmo lento da vida no campo, Frei Rogério abriga uma das experiências culturais mais singulares do Brasil.
A colônia japonesa é formada no contexto do pós-guerra e um monumento que conecta Santa Catarina diretamente à memória da tragédia de Hiroshima e Nagasaki.
É ali, na comunidade de Núcleo Celso Ramos, que está o Parque Sino da Paz, considerado um dos poucos do mundo a abrigar um sino original ligado à reconstrução simbólica da paz após a Segunda Guerra Mundial.
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Uma colônia japonesa no coração de Santa Catarina
A história começa oficialmente em 28 de janeiro de 1963, quando o então governador Celso Ramos assinou o documento que instituiu a primeira colônia japonesa de Santa Catarina.
Frei Rogério é reconhecido como a principal colônia japonesa catarinense.Foto: Rian Lima de Souza/ND Mais
Pouco mais de um ano depois, em abril de 1964, chegaram as primeiras famílias: cerca de oito núcleos familiares, somando pouco mais de 50 pessoas.
Essas famílias se estabeleceram em uma área rural planejada para a agricultura familiar, dando origem ao Núcleo Celso Ramos, hoje reconhecido como a principal referência da cultura japonesa no estado.
A imigração se consolidou como parte de um mosaico cultural típico do Meio-Oeste catarinense, região marcada por colonizações diversas — italianos, alemães, poloneses e caboclos —, mas que encontrou na presença japonesa uma identidade singular voltada à disciplina agrícola, à organização comunitária e à preservação cultural.
Agricultura, tradição e identidade
A colônia se estruturou principalmente em torno da agricultura. Ao longo das décadas, os imigrantes e seus descendentes desenvolveram técnicas produtivas e parcerias que ajudaram a consolidar culturas como a pêra nashi, hoje uma das marcas da produção local.
Fundada na década de 1960, a colônia japonesa de Frei Rogério é uma das principais referências da cultura japonesa em Santa Catarina.Foto: Divulgação/SECOM/ND Mais
Além da produção agrícola, a comunidade mantém elementos culturais típicos do Japão, como:
- Associação cultural Brasil-Japão;
- Práticas de artes marciais como kendô;
- Cerimônia do chá;
- Festas tradicionais e eventos sazonais.
O resultado é uma comunidade que preserva costumes japoneses em pleno ambiente rural brasileiro, com forte ligação entre cultura e território.
O Parque Sino da Paz: símbolo raro no mundo
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Todos os anos, em agosto, o sino é tocado para relembrar as vítimas da Segunda Guerra Mundial. – Prefeitura de Frei Rogério/ND Mais
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Parque Sino da Paz foi inaugurado em 2002 com a presença de autoridades japonesas e catarinenses. – Prefeitura de Frei Rogério/ND Mais
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Apenas três sinos como este existem — em Hiroshima, na sede da ONU e em Frei Rogério. – Prefeitura de Frei Rogério/ND Mais
O principal ponto de referência da colônia é o Parque Sino da Paz, inaugurado em 2002, construído em homenagem às vítimas das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
O monumento impressiona não apenas pela simbologia, mas também pela escala e raridade.
No topo da estrutura, com cerca de 28 metros de altura, inspirado na forma do tsuru — ave que simboliza a paz na cultura japonesa — está o sino de bronze que tornou o local único no mundo.
Segundo registros oficiais do município, existem apenas três sinos com características semelhantes:
- Um na sede da ONU;
- Um em Hiroshima;
- Frei Rogério.
O sino original tem mais de 400 anos de história, e foi doado pelo governo japonês como gesto simbólico de reconciliação e memória histórica.
Memória da guerra e ligação com Nagasaki
O parque não é apenas um monumento turístico. Ele também funciona como espaço de memória e reflexão.
O projeto foi idealizado com participação direta de sobreviventes da bomba atômica e descendentes de vítimas que migraram para o Brasil.
Em sua inauguração, houve assinatura da chamada “Declaração da Paz”, posteriormente enviada à UNESCO, e a cerimônia foi transmitida ao Japão pela emissora NHK.
Todos os anos, especialmente em agosto, o local recebe cerimônias simbólicas nos dias que marcam os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, com a badalada do sino como gesto de homenagem às vítimas.
Sakura Matsuri e a florada das cerejeiras
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As cerejeiras florescem por poucos dias, marcando um dos momentos mais aguardados pela comunidade japonesa de Frei Rogério – Divulgação/SECOM/ND Mais
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Todos os anos, a floração das cerejeiras atrai visitantes ao Parque Sino da Paz, em Frei Rogério – Divulgação/SECOM/ND Mais
Outro elemento central da cultura local é o Sakura Matsuri, festival que celebra a floração das cerejeiras no fim do inverno.
A florada dura poucos dias, mas transforma o parque em um cenário típico do Japão, com atividades culturais como:
- Cerimônia do chá;
- Apresentações de dança e música;
- Caligrafia japonesa;
- Demonstrações de artes marciais.
É um dos momentos em que a colônia mais recebe visitantes e reforça sua identidade cultural híbrida entre Brasil e Japão.
Um Japão simbólico no Meio-Oeste catarinense
Além do sino e das cerejeiras, o complexo cultural inclui estruturas como a Casa Octogonal (Yumedono), que simboliza a realização de sonhos e reforça a estética e filosofia japonesa dentro do território brasileiro.
A colônia japonesa de Frei Rogério preserva tradições, costumes e a história da imigração no interior de Santa Catarina.Foto: Divulgação/SECOM/ND Mais
O conjunto forma um circuito turístico que vai além da estética: ele conecta memória, imigração, agricultura e história global em um pequeno município de pouco mais de 2 mil habitantes.
Um território onde a história mundial encontra o interior catarinense
Frei Rogério, conhecido historicamente como parte do Vale do Contestado, região marcada por conflitos e disputas no início do século XX, hoje abriga um dos exemplos mais incomuns de integração cultural do Brasil.
Entre o passado de guerras locais e a memória de uma tragédia global, a colônia japonesa transformou o município em um espaço de simbolismo duplo: terra de reconstrução e de paz.

