Ferrovia em SC que gerou guerra famosa no Sul passa por estudos para voltar a funcionar Foto: Divulgação/Secretaria de cultura e turismo de Canoinhas/J Drones/ND Mais
A possível reativação da Ferrovia do Contestado voltou a gerar questionamentos no Norte de Santa Catarina. No início deste ano, a Prefeitura de Canoinhas pediu a realização de um estudo para avaliar se o trecho, hoje sem operação, ainda pode voltar a funcionar.
Apesar do interesse, a retomada ainda está em fase de análise. A Ferrovia do Contestado, que fazia parte da antiga estrada de ferro São Paulo–Rio Grande, ligando o estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, foi inaugurada em 1910 e atravessava Santa Catarina. O trajeto teve papel importante no crescimento de cidades como Canoinhas, mas acabou sendo desativado na década de 90.
Estudo busca avaliar impacto econômico e logístico
A Prefeitura de Canoinhas explicou à equipe de reportagem do ND Mais que o EVTEA (Estudo Técnico de Viabilidade Econômica, Técnica e Ambiental) tem como objetivo analisar, de forma técnica, se a ferrovia ainda pode ser viável nos dias atuais. A proposta é avaliar um trecho considerado estratégico, que liga Caçador ao ramal de Mafra, com conexão até o Porto de São Francisco do Sul.
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Na prática, o levantamento vai analisar pontos como demanda de uso, custos, traçado, capacidade da ferrovia e impactos ambientais. A ideia é entender se a reativação pode ajudar a reduzir custos de transporte, melhorar a logística da região e aumentar a competitividade econômica.
Segundo o município, a ferrovia teve papel importante no desenvolvimento local no passado, e o estudo busca justamente responder se ela ainda pode cumprir essa função hoje.
Decisão depende do Governo Federal
Apesar do interesse local, a reativação da ferrovia não depende apenas de decisões municipais ou estaduais. Segundo a Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina, o trecho está sob concessão da empresa Rumo até 2027. Por isso, eventuais definições sobre o futuro da ferrovia dependem de decisões do Governo Federal, responsável pelo contrato da concessionária.
O Ministério dos Transportes informou à equipe de reportagem do ND Mais que já iniciou estudos, em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), para avaliar trechos ferroviários que hoje estão sem uso no país, incluindo a Ferrovia do Contestado.
Estação ferroviária de CanoinhasFoto: Divulgação/Prefeitura de Canoinhas/ND Mais
Esses estudos vão analisar aspectos técnicos, operacionais e de demanda para entender se vale a pena reativar esses trechos e de que forma isso poderia acontecer. A partir dos resultados, o governo federal deve decidir quais caminhos seguir para uma possível retomada das operações e melhor aproveitamento da ferrovia.
O que diz a concessionária responsável pelo trecho
Em nota, a concessionária Rumo informou que o trecho que passava por Canoinhas já havia sido desativado antes mesmo do início do atual contrato de concessão, após perder sua função com a implantação da Ferrovia Tronco Sul, que conecta o Paraná ao Rio Grande do Sul, passando por Santa Catarina.
Segundo a concessionária, há diálogo com o governo federal para avaliar possibilidades para a Malha Sul, mas qualquer decisão sobre o futuro do trecho depende de definições da União.
Ferrovia em SC marcou a história da região
A Ferrovia do Contestado tem forte valor histórico para Santa Catarina. Construída no início do século XX, ela fazia parte da ligação entre São Paulo e Rio Grande do Sul, atravessando o território catarinense.
A construção da ferrovia teve papel central no início da Guerra do Contestado (1912–1916), um conflito marcado por disputas por terra na região. Na época, áreas onde viviam comunidades de camponeses foram concedidas a empresas ligadas à obra da antiga estrada de ferro.
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Estação de Marcilio Dias, durante os anos 1970 (Acervo José Chichowicz) – Divulgação/Secretaria de cultura e turismo de Canoinhas/ND Mais
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Pátio da estação de Marcilio Dias, durante os anos 1970-80 (Acervo Irene Chichowitz) – Divulgação/Secretaria de cultura e turismo de Canoinhas/ND Mais
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Durante a Guerra do Contestado (1912-16), tropas governistas partiram da estação então chamada de Canoinhas para atacar os rebeldes no interior de Santa Catarina (Acervo Nilson Rodrigues) – Divulgação/Secretaria de cultura e turismo de Canoinhas/ND Mais
Sem terras e sem trabalho, muitos desses moradores passaram a se organizar e resistir, o que aumentou a tensão com autoridades e grandes proprietários nos estados de Santa Catarina e Paraná. Esse cenário acabou desencadeando o conflito, que deixou milhares de mortos e marcou profundamente a história do Sul do Brasil.
Além do impacto histórico, a ferrovia também impulsionou o desenvolvimento econômico de cidades como Canoinhas, facilitando o transporte de produtos como madeira e erva-mate.
Com o passar dos anos e a mudança no modelo de transporte, o trecho perdeu importância e foi desativado na década de 1990. Ainda assim, segue como um símbolo histórico e estratégico, e agora volta ao centro das discussões sobre infraestrutura e desenvolvimento regional.

