Entre o piano e o violão, entre a sofisticação e o descompromisso, entre o solar e o noturno, Ed Motta reencontra em “Toc-Toc” diferentes versões de si mesmo. Previsto para setembro, o 15º álbum de estúdio do cantor marca seu retorno à música em português após 13 anos e recupera elementos dos primeiros trabalhos sob uma nova perspectiva.
O disco chega depois de uma sequência de trabalhos autorais em inglês, como “Perpetual Gateways” (2016), “Criterion of the Senses” (2018) e “Behind the Tea Chronicles” (2023), nos quais Ed aprofundou sua relação com o jazz, o soul, o AOR e a música orquestral.
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Agora, ele volta à língua materna sem abandonar a sofisticação que marcou sua trajetória. Em entrevista ao ND Mais, o cantor explicou que o retorno ao português surgiu tanto de uma vontade artística quanto de um pedido antigo de quem acompanha sua carreira.
“Motivos estéticos. Eu queria experimentar fazer essa música em inglês. A influência inicial de tudo que eu comecei na minha carreira vem da música negra norte-americana. Mas fazia muito tempo que eu não tinha um contato com o meu repertório em português.”
Segundo Ed, as mensagens que recebia dos fãs também tiveram peso na decisão. “Eu recebo muita mensagem, muita coisa: ‘Por que não canta mais em português?’. E leio sempre alguém falando: ‘Poxa, seria legal se ele voltasse a cantar em português’. Aí eu resolvi fazer um disco novamente em português.”
A espera, segundo ele, já estava longa demais. “Eu tava devendo isso aos meus admiradores, às pessoas que me seguem e tal, a paciência de uma década aguardando.”
‘Eu Quero Ser Feliz’ abre um disco de celebração
O primeiro contato do público com “Toc-Toc” veio com “Eu Quero Ser Feliz”, single lançado em julho e que abre o novo álbum. A faixa mergulha no electro-funk e no R&B, referências presentes na formação musical do cantor, mas aparece agora com uma roupagem própria.
Ed Motta retorna à música em português após 13 anos com o álbum “Toc-Toc”Foto: Divulgação/Bispo/ND Mais
Para Ed, a música ajuda a traduzir o espírito do disco. “Eu acho que ela tem o significado do disco. O disco tem esse sabor de celebração.” Apesar de definir o trabalho como solar, o cantor ressalta que existe também uma atmosfera noturna em suas faixas.
“O disco, apesar de ser, eu muitas vezes falo que ele é solar, é bastante noturno também. Tem muita música dançante, tem um elemento que tem uma relação com dançar, com sair de noite e tudo isso.”
É justamente nessa mistura que “Toc-Toc” encontra uma de suas principais características, a capacidade de transitar entre atmosferas aparentemente diferentes sem perder uma identidade comum.
O repertório passa pelo electro-funk, soul, bossa nova e baladas, mantendo a sofisticação harmônica característica do artista.
Por que Ed Motta trocou o piano pelo violão?
Uma das mudanças no processo criativo de “Toc-Toc” aconteceu antes mesmo de as músicas ganharem seus arranjos. Depois de anos tendo o piano como principal instrumento de composição, Ed voltou a recorrer ao violão.
“Desde que eu comprei um piano, quando coloquei o piano aqui atrás na minha sala, o piano tem sido a minha forma de expressão mais comum e mais frequente.”
A escolha pelo violão, porém, não aconteceu por acaso. Para o cantor, os dois instrumentos conduzem a processos criativos diferentes. “No piano, o tipo de composição que eu vou desenvolver são músicas mais complicadas, mais difíceis e tal.”
Ao voltar ao violão, Ed buscava justamente uma simplicidade que remetesse ao início de sua carreira. “Eu tava buscando uma coisa que lembrasse o que eu fazia no começo, nos meus dois primeiros discos.”
O resultado aparece também na estrutura do novo álbum, que recupera o frescor e o minimalismo de seus primeiros trabalhos, mas sem simplesmente reproduzi-los. “O que há de novo eu acho que é justamente essa moldura nova, essa moldura electro-funk, um funk eletrônico.”
Para Ed, existe uma espécie de reencontro com o passado, mas filtrado pela experiência acumulada ao longo de décadas. “Eu acho que recupera o frescor dos primeiros discos e uma simplicidade, um minimalismo dos primeiros discos.”
Ed Motta apresenta uma nova fase de sua trajetória musical com “Toc-Toc”Foto: Divulgação/Bispo/ND Mais
Bateria eletrônica une diferentes estilos do álbum
Apesar da diversidade de gêneros presentes em “Toc-Toc”, Ed Motta identifica um elemento que funciona como uma espécie de fio condutor entre as faixas: a bateria eletrônica.
“Uma coisa que conecta os diferentes ritmos do disco é o uso da bateria eletrônica.”
O recurso ajuda a aproximar a estética eletrônica das formas tradicionais de canção. “A bateria eletrônica está unindo isso, porque o entretenimento eletrônico misturado com as formas de canção, com canções sofisticadas e tudo.”
O resultado é um álbum que busca justamente esse equilíbrio entre elementos eletrônicos, melodias sofisticadas e uma atmosfera mais leve.
As parcerias que marcaram a trajetória
A trajetória de Ed Motta também é construída a partir dos encontros com outros artistas. Ao ser questionado sobre parcerias que considera especiais, o cantor citou nomes de diferentes universos musicais, como Marisa Monte e Eli Soares.
Marisa Monte esteve entre as primeiras artistas com quem Ed dividiu trabalhos, ainda em 1990. Já Eli Soares representa uma aproximação com a música gospel.
“Ele é um astro da música gospel. Ele é um cara ligado à música de igreja e tal. E eu sou muito respeitado no meio evangélico, o pessoal me adora assim, adora minha música.”
Outra experiência lembrada pelo cantor envolve o guitarrista e bluesman Flávio Guimarães. A gravação aconteceu de maneira informal, na própria casa do músico. “A gravação foi feita na sala dele, foi uma coisa bem descontraída assim. Ficou maravilhoso.”
A conversa ainda revelou uma curiosidade, já que a gravação não está disponível nas plataformas digitais. “Não existe essa gravação no digital, não tem. Não foi colocado ainda até agora.”
Ao perceber que a gravação permanecia inédita, Ed demonstrou interesse em descobrir o motivo. “Depois que você perguntou isso, eu vou mandar uma mensagem pra ele. Por que não tem disco?”
Ed Motta diz que relação com público mudou
Artista apresenta uma fase mais leve e dançante em seu novo trabalhoFoto: Divulgação/Bispo/ND Mais
Depois de tantos anos de carreira, o cantor também percebe uma mudança significativa na relação entre artista e público. “Tem uma proximidade. Eu acho que o público sabe mais quem a gente é hoje.”
Para Ed, a exposição proporcionada pelas redes sociais diminuiu parte da distância que existia entre artistas e admiradores.
“A gente vivia numa coisa que protegia e hoje você está mais disposto para as pessoas.”
Há, segundo ele, uma maior abertura para mostrar hábitos, gostos e aspectos da vida pessoal, o que acabou aproximando quem está dos dois lados dessa relação.
As redes sociais também modificaram completamente a maneira de divulgar um trabalho musical. “A rede social é muito importante porque você hoje consegue lotar um teatro por conta da rede social.”
Mas o poder da ferramenta funciona para os dois lados. “Ela pode lotar e pode esvaziar o teatro. Então ela tem esse poder.”
Ed considera essa transformação uma forma mais democrática de divulgação. “É uma nova forma de divulgação que eu acho bastante democrática. Todo mundo pode abrir uma rede social e aprender a manipular isso e ir crescendo, crescendo, crescendo.”
“É o claro-escuro”: Ed Motta fala sobre críticas
A mesma exposição que aproxima artistas e público também aumenta a intensidade das críticas. Ed Motta passou por momentos de grande repercussão pública nos últimos meses e, ao ser questionado sobre como lida com as opiniões negativas, resumiu sua visão de maneira direta. “Tem que saber lidar com isso, que faz parte.”
Para ele, elogios e críticas são partes inseparáveis da experiência de estar exposto. “É o claro-escuro, né? É o amargo e o doce. Um tem o outro. É o segredo da vida.”
E, quando o assunto é “Toc-Toc”, Ed parece interessado justamente em mostrar que existe mais de uma dimensão em seu trabalho.
“Também posso fazer uma música que é dançante, leve”
Ao longo da carreira, Ed Motta ficou associado a uma produção marcada pela sofisticação musical, por arranjos elaborados e por referências que exigem uma escuta mais atenta.
Em “Toc-Toc”, no entanto, o cantor quer apresentar também um lado mais leve. “Gostaria que as pessoas se divertissem. Isso é o objetivo maior desse jeito.”
Ed quer que o novo álbum permita ao público enxergar uma faceta diferente de sua personalidade artística. “Eu não sou somente um cara dedicado à música séria, complexa. Eu também posso fazer uma música que é dançante, leve, descompromissada.”
É nesse ponto que as diferentes versões apresentadas pelo álbum se encontram. Aqui, o músico sofisticado não desaparece, mas divide espaço com aquele que quer dançar, celebrar e simplesmente se divertir.
Rita Lee e uma “medalha” na carreira
Entre as lembranças mais especiais da carreira está a parceria com Rita Lee, uma das artistas brasileiras que Ed Motta admirava desde a infância. O encontro profissional começou em 1997, com “Fora da Lei”. Depois, os dois ainda trabalharam juntos em outras cinco músicas.
Ao recordar a parceria, Ed não esconde o orgulho. “Tem um orgulho danado, uma medalha.”
Parceria com Rita Lee é lembrada por Ed Motta como uma “medalha” em sua carreiraFoto: edmotta/Instagram
A importância daquele encontro ganha outra dimensão quando o cantor lembra que era fã de Rita Lee antes mesmo de imaginar que um dia trabalharia ao lado dela. “Eu tinha 10 anos de idade, nunca podia imaginar que seria parceiro dela. Não imaginava.”
A parceria, que começou quando Ed já tinha sua própria carreira consolidada, representa para ele um daqueles encontros que ultrapassam o reconhecimento profissional e carregam também um componente afetivo.
Um novo capítulo depois de 13 anos
“Toc-Toc” chega como um reencontro em vários níveis. É o retorno de Ed Motta ao português depois de 13 anos, uma reaproximação com elementos dos primeiros discos e, ao mesmo tempo, uma tentativa de apresentar uma versão menos previsível de seu trabalho.
O piano continua presente, mas divide espaço com o violão. A sofisticação permanece, mas encontra o electro-funk e a música dançante. O artista de repertório complexo aparece ao lado daquele que quer fazer música “leve” e “descompromissada”.
E, acima de tudo, existe o desejo de que o público simplesmente aproveite a experiência.
“Gostaria que as pessoas se divertissem.”
Depois de uma década de espera, Ed Motta parece ter voltado ao português não para repetir quem foi, mas para descobrir o que ainda pode ser.
“Toc-Toc” tem lançamento previsto para 25 de setembro, pelo selo Dwitza, em parceria com o tradicional selo alemão MPS.

