A crise do multilateralismo ajuda a explicar por que acordos internacionais se tornaram mais difíceis no século XXIFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
A crise do multilateralismo é uma das transformações mais importantes do século XXI. E, ao mesmo tempo, uma das menos percebidas pelas pessoas comuns. Durante décadas, fomos ensinados a acreditar que o mundo caminhava em uma direção relativamente clara.
Mais comércio. Mais cooperação. Mais integração. Mais instituições internacionais. Mais diálogo. O futuro parecia apontar para um planeta cada vez mais conectado. A realidade seguiu outro caminho.
Hoje, guerras se prolongam, negociações fracassam, organizações internacionais perdem influência e países voltam a agir cada vez mais por conta própria. A pergunta é simples. O que aconteceu?
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A promessa da globalização
Nos anos 1990, após o fim da Guerra Fria, surgiu uma sensação de otimismo raramente vista na história internacional. A União Soviética havia desaparecido. A democracia avançava em diversas regiões. O comércio global crescia rapidamente. A internet conectava sociedades. Novos acordos internacionais surgiam.
Parecia que a política internacional estava finalmente encontrando um caminho de cooperação duradoura. Foi nesse ambiente que organizações como a Organização Mundial do Comércio ganharam relevância.
Foi nesse contexto que surgiram grandes acordos econômicos e projetos de integração regional. A ideia central era simples: se os países negociassem mais, dependeriam mais uns dos outros.
E, portanto, brigariam menos.
O que não saiu como planejado
O problema é que a globalização produziu vencedores e perdedores. Milhões de pessoas se beneficiaram do aumento do comércio internacional. Mas outras passaram a sentir que estavam ficando para trás.
Indústrias desapareceram. Empregos migraram para outros países. Desigualdades aumentaram em diversas regiões. A promessa de prosperidade compartilhada começou a parecer menos convincente para parte da população.
Foi nesse ambiente que cresceram movimentos nacionalistas, protecionistas e céticos em relação às instituições internacionais.
Quando os países perderam a confiança
A crise do multilateralismo não aconteceu porque os países deixaram de conversar. Ela aconteceu porque muitos passaram a acreditar que as regras não eram aplicadas igualmente.
Os Estados Unidos passaram a questionar organizações que ajudaram a criar. A China ampliou sua influência internacional sem necessariamente adotar todas as expectativas políticas imaginadas pelo Ocidente. A Rússia voltou a desafiar a ordem internacional construída após a Guerra Fria.
Países emergentes passaram a exigir maior participação nas decisões globais. A confiança começou a desaparecer. E sem confiança, acordos se tornam mais difíceis.
O mundo das exceções
Existe outro problema. As regras internacionais dependem da percepção de que valem para todos. Mas cada vez mais países acreditam que elas são aplicadas de forma seletiva.
Quando isso acontece, surge uma lógica perigosa. Se outros podem ignorar determinadas regras, por que eu deveria respeitá-las? Essa mentalidade ajuda a explicar por que negociações comerciais emperram, por que resoluções internacionais perdem força e por que conflitos permanecem sem solução.
A era da fragmentação
O mundo atual já não se organiza em torno de um único centro de poder. Tampouco voltou exatamente ao modelo da Guerra Fria. Vivemos algo diferente. Uma era de fragmentação.
Estados Unidos, China, União Europeia, Índia, Rússia, países do Golfo e diversas potências médias buscam simultaneamente ampliar sua influência. Cada uma possui interesses próprios.
Cada uma tenta construir suas próprias redes de parceiros. Isso torna a cooperação internacional mais complexa. Não impossível. Mas muito mais difícil.
O impacto na vida das pessoas
Pode parecer um debate distante. Mas seus efeitos estão por toda parte. Eles aparecem quando cadeias globais de suprimentos são interrompidas. Quando produtos ficam mais caros. Quando guerras afetam mercados de energia. Quando disputas comerciais geram tarifas. Quando empresas precisam rever investimentos.
A crise do multilateralismo não permanece restrita aos corredores da ONU ou às reuniões diplomáticas. Ela chega aos preços, aos empregos e às decisões econômicas do cotidiano.
O mundo não abandonou os acordos
Talvez a conclusão mais importante seja esta. O mundo não deixou de fazer acordos. Mas deixou de acreditar que os acordos, sozinhos, resolvem os problemas.
O entusiasmo dos anos 1990 deu lugar ao pragmatismo dos anos 2020. Os países continuam negociando. Continuam conversando. Continuam assinando tratados. Mas fazem isso com muito mais desconfiança.
E talvez essa seja a principal característica da política internacional atual. Não o fim da cooperação. Mas o fim da crença de que a cooperação é inevitável. Durante muito tempo, imaginou-se que a globalização aproximaria definitivamente os países.
O que estamos descobrindo agora é que a história raramente segue caminhos tão lineares. E que construir confiança entre nações continua sendo uma das tarefas mais difíceis da política internacional.

