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Com R$ 1 bilhão, SC aposta em prevenção contra enchentes antes do El Niño chegar

Ultima atualização: 14 de junho de 2026 08:00
Por Daiane Nora
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Com R$ 1 bilhão, SC aposta em prevenção contra enchentes antes do El Niño chegar
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A CHUVA QUE VOLTA TODO ANO

Luana Nascimento tinha recém chegado na Igreja quando viu sua casa sendo levada pela enchente. Havia saído da sua residência, com o filho no colo e água até a cintura, para se abrigar na capela. De lá, sentiu o desespero em ver parte da sua história se desprendendo do chão e indo embora. A residência, em que moravam há mais de 50 anos, foi parar do outro lado da avenida.

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    Casa de Luana no meio da rua após enchente - Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

    Casa de Luana no meio da rua após enchente – Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

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    Casa de Luana invadida pela água - Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

    Casa de Luana invadida pela água – Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

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    Casa de Luana desmontada após enchente - Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

    Casa de Luana desmontada após enchente – Luana Nascimento/Arquivo pessoal/ND Mais

A família de Luana está entre os 18 mil desalojados pela segunda maior enchente da história de Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, que aconteceu em novembro de 2023. Hoje, eles moram no mesmo bairro, Budag, em uma casa alugada. Segundo Luana, o medo da chuva nunca desapareceu. Qualquer alerta de enchente a rotina é a mesma: levantar móveis e procurar abrigo.

A apreensão redobra com a formação do El Niño nos próximos meses. Caracterizado pelo aquecimento das águas no Pacífico, o fenômeno pode elevar o volume de chuva no Sudeste e Sul do Brasil, aumentando o risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos.

Segundo Carlo Buontempo, diretor do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, esse El Niño pode ser um evento “forte a ponto de quebrar recordes”. Já a OMM (Organização Meteorológica Mundial), estima 90% de chance de que seus efeitos já sejam sentidos no início do segundo semestre de 2026.

Santa Catarina é o segundo estado com mais riscos de desastres no Brasil, ficando atrás apenas de Minas Gerais. Diante desse cenário, a Defesa Civil de SC lançou em janeiro de 2026 um plano estruturado para prevenir e reduzir os impactos de possíveis desastres decorrentes do El Niño e outros eventos extremos.

A iniciativa evidencia uma virada de chave da instituição: se no passado estava concentrada na resposta emergencial e na reconstrução após tragédias, agora o objetivo principal é agir antes que elas aconteçam. “Precisamos estimular a cultura preventiva na população para que ela esteja preparada quando um fenômeno acontecer”, afirma o secretário da Defesa Civil Fabiano de Souza.

O MAIOR INVESTIMENTO DA HISTÓRIA

Santa Catarina entrou em 2026 com o maior pacote de investimentos da história em prevenção de desastres. Ao todo, R$ 1 bilhão foi destinado à Defesa Civil, valor 292% maior que o previsto no ano anterior, de R$ 342 milhões. Em janeiro, a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil liberou mais de R$ 10 milhões para obras estruturantes voltadas à prevenção de enchentes, como desassoreamento, contenção e estabilização de margens de rios.

O estado também repassou mais de R$ 64 milhões para as Defesas Civis dos 295 municípios, para aquisição de veículos 4 x 4, drones de mapeamento, televisores, tablets e notebooks.

Por conta dos estragos causados por temporais, governo estadual preparou um pacote de iniciativas para prevenção contra enchentes antes do El Niño em SCA cidade de Xanxerê foi devastada por chuva intensa que atingiu o município em 2023. Na época, uma pessoa morreu devido às inundações. Foto: PMX/Reprodução/ND

Em maio, o governo do estado decretou estado de alerta climático por 180 dias, diante da previsão de formação do El Niño. Na ocasião, o governador Jorginho Mello afirmou que o estado está se preparando para o pior cenário. Camboriú foi a primeira cidade a decretar situação de emergência preventiva, e anunciou mais de R$ 5 milhões para compra de máquinas e equipamentos, como tratores, caminhões-pipa, caminhão-bomba, patrolas, carregadeiras e retroescavadeiras.

Mesmo antes da chegada do El Niño, o risco já começou a alterar a rotina dos municípios. Gaspar chegou a cancelar a Expofeira, tradicional festa da cidade, para priorizar os recursos da prefeitura ao enfrentamento do evento climático. Agrolândia e Rio do Oeste também cancelaram eventos para destinar dinheiro a prevenção e resposta a desastres.

Em outras cidades, as medidas incluem limpeza de rios e bocas de lobo, retirada de vegetação que possa impactar vias, monitoramento de áreas de risco e decretos de alerta climático, como ocorreu em Blumenau, Gaspar, Florianópolis e outras cidades do Sul do estado.

Segundo Fabiano de Souza, Santa Catarina tem acompanhado os cenários climático e meteorológico para repassar informações à população com a maior antecedência possível. “As pessoas precisam saber o que adotar como medida para se proteger, desde acompanhar o local onde mora, onde ela trabalha, se é uma região de risco ou não. Saber quem pode fornecer ajuda caso precisar sair de casa e procurar um abrigo.”

DO RÁDIO AO ALERTA NO CELULAR

Irineu Korb, conhecido como seu Irineu, também mora em Rio do Sul e perdeu tudo na enchente de 2011. Ele vive no bairro Budag há quase 70 anos, na casa herdada do pai. O morador conta que na época trabalhava na Celesc e voltava para casa quando ouviu na rádio que “a população poderia ficar tranquila, que não aconteceria nada”. Horas depois, o município enfrentaria a terceira maior enchente de sua história.

Casa do seu Irineu inundada pela enchenteFoto: Irineu Korb/Arquivo Pessoal/ND MaisCasa do seu Irineu inundada pela enchenteFoto: Irineu Korb/Arquivo Pessoal/ND Mais

A falha no sistema de alerta daquele ano foi apontada em relatório publicado pelo TCE-SC (Tribunal de Contas de Santa Catarina). Os prejuízos materiais chegaram a R$ 255 milhões, além de R$ 21 milhões em danos públicos. O documento também concluiu que investir em prevenção era mais econômico, porque cada dólar investido em prevenção evitaria o gasto de dez dólares na resposta ao desastre. No entanto, segundo o relatório, os gastos de caráter reativo daquele ano aumentaram 439,3%, enquanto os preventivos ficaram em 25,6%.

Mais de uma década depois, é essa lógica que o Estado diz tentar inverter. Entre 2023 e 2026, os investimentos em prevenção somaram mais de R$ 900 milhões, enquanto os recursos destinados à resposta a desastres ficaram em R$ 40,7 milhões. A aposta, segundo Fabiano, está no monitoramento antecipado, na ampliação dos alertas, na manutenção de barragens, em simulados e na preparação da população antes que a água suba.

A rede de monitoramento de estações, por exemplo, passou de 42 em 2024 para 172 em 2025 e tornou Santa Catarina o único estado do Brasil com 100% de cobertura por radares meteorológicos. Em 2025, a Defesa Civil também realizou o maior simulado em respostas a desastres do Brasil, com a participação de 294 cidades, para orientar a população sobre evacuação de áreas de risco, montagem de abrigos provisórios e ações de ajudas humanitárias.

Em paralelo, a instituição tem feito a manutenção das barragens de contenção de cheias no Alto Vale do Itajaí, incluindo reformas em Ituporanga, Taió e José Boiteux. As estruturas também passaram a contar com um sistema remoto de abertura e fechamento das comportas, o que permite uma operação mais ágil em períodos de risco. Além disso, estão previstas novas barragens em  Mirim Doce, Botuverá e Petrolândia. Ao todo, essas obras somam mais de R$ 900 milhões.

Outro avanço está nos alertas à população. O Defesa Civil Alerta, que utiliza a tecnologia Cell Broadcast, envia avisos automáticos de emergência sem a necessidade de cadastro, basta o telefone ter conexão 4G ou 5G. A instituição também mantém o SMS da Defesa Civil, que funciona sem internet. Em 2025, mais de 95 milhões de SMS foram enviados.

Além do monitoramento e dos alertas, a limpeza e o desassoreamento de rios também foram ampliados em conjunto com prefeituras municipais. A ação começou em cidades do Alto Vale do Itajaí, como Taió, Rio do Oeste, Laurentino, Agrolândia, Ituporanga, Rio do Sul e Lontras, e depois se estendeu a outras regiões do estado, incluindo municípios como Quilombo, Mondaí, Bom Retiro, Lages, Tubarão, Paulo Lopes e Palhoça.

Luana, moradora de Rio do Sul, comenta que os alertas por mensagem, somados à  experiência acumulada em outras enchentes, ajudam a família a se preparar quando a água começa a subir. Mas observa que nem todos sabem como agir: “A gente que pega enchente frequentemente já tem uma noção, mas as pessoas que vem de fora não sabem o que pode acontecer”.

O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), Marcelo Seluchi, aponta que há situações em que a população não quer sair de casa, mesmo após o alerta: “Entre os motivos estão o medo de sua residência ser saqueada, a falta de ter onde ir, a desconfiança de que o evento possa realmente acontecer ou porque moram há muitos anos no local e nunca viram um desastre”, explica.

O DESAFIO DE TRANSFORMAR ORÇAMENTO EM PREVENÇÃO

Dados obtidos com exclusividade pela reportagem junto ao TCE-SC mostram que, apesar do aumento dos investimentos, a Defesa Civil de SC ainda apresenta baixa execução em ações do Programa de Gestão de Riscos. Em documento de 10 de junho de 2026, o Tribunal aponta um descompasso entre o orçamento previsto e a implementação de políticas públicas de prevenção e preparação para desastres naturais.

Execução orçamentária do Programa Gestão de Riscos da Defesa Civil, em 2024Foto: Tabela gerada por IA/ND MaisExecução orçamentária do Programa Gestão de Riscos da Defesa Civil, em 2024Foto: Tabela gerada por IA/ND Mais

Em 2024, 56,31% do orçamento previsto não foi aplicado. Naquele ano, a dotação orçamentária da Defesa Civil foi de R$ 159 milhões, mas apenas 44% dos recursos foram executados. Em 2025, a dotação da pasta subiu para R$ 300 milhões. No Programa de Gestão de Riscos, dos R$ 207 milhões previstos, cerca de R$ 108 milhões foram liquidados, o equivalente a 52% do total. Apesar da baixa execução proporcional, o TCE-SC reconheceu avanços: os quase R$ 109 milhões liquidados em 2025 representam o maior volume executado nos últimos dez anos e são, no mínimo, três vezes superiores ao valor registrado em 2024.

Entre os principais pontos de atenção, o TCE-SC destacou que ações estruturantes como construção, ampliação e reforma de barragens, derrocamento do Rio Itajaí-Açu, construção do canal extravasor no maciço de Salto Pilão, em Lontras, e desassoreamento de rios do Alto Vale do Itajaí não tiveram despesas executadas tanto em 2024 quanto em 2025. Segundo o conselheiro José Nei Ascari, são intervenções relevantes para reduzir riscos hidrológicos em áreas historicamente sujeitas a enchentes, mas que envolvem alta complexidade técnica, ambiental, fundiária e operacional.

Outra subação com baixa execução foi a de prevenção e preparação para redução de riscos e adaptação climática, que tinha a maior dotação do programa e executou apenas 24,25% em 2025. Segundo o TCE-SC, a principal dificuldade para executar o orçamento planejado está nas despesas de capital, como investimentos em equipamentos e materiais permanentes. Por outro lado, o relatório também apontou avanços em ações específicas. Projetos e obras preventivas em defesa civil tiveram 80,14% de execução; transferências do programa SC Levada a Sério chegaram a 99,32%; estudos e consultorias para gestão de riscos, a 95,92%; e operação, manutenção e conservação de barragens, a 73,49%.

Tabela da execução orçamentária de 2025Foto: Tabela gerada por IA/ND MaisTabela da execução orçamentária de 2025Foto: Tabela gerada por IA/ND Mais

Diante do cenário, a Primeira Câmara do TCE-SC determinou que a execução orçamentária e financeira seja acompanhada novamente no segundo quadrimestre de 2026. Em sessão ordinária, o conselheiro-relator afirmou que a execução em 2025 foi maior que a de 2024, mas ainda “muito distante” do ideal. No primeiro quadrimestre deste ano, o Programa de Gestão de Riscos apresentou dotação atualizada de R$ 245 milhões, com R$ 39 milhões liquidados, o equivalente a 16,26% da execução orçamentária. Embora o percentual seja superior ao registrado no mesmo período de 2025, o próprio TCE apontou que o índice ainda está abaixo do esperado para o período.

Tabela de execução do primeiro quadrimestre de 2026Foto: Tabela gerada por IA/ND MaisTabela de execução do primeiro quadrimestre de 2026Foto: Tabela gerada por IA/ND Mais

O Tribunal também pediu que seja avaliada a estrutura de pessoal da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil. A solicitação foi feita após apontamentos sobre possíveis deficiências no quadro efetivo e na gestão de recursos humanos da pasta, que, se confirmadas, podem representar um entrave estrutural à execução das políticas de defesa civil.

O desafio da prevenção também aparece na estrutura dos municípios. Em sessão ordinária, o TCE-SC apura as condições das Defesas Civis Municipais para medir a capacidade real de resposta e prevenção a desastres naturais. Neste ano, 100% dos municípios responderam ao questionário.

Integrantes da Defesa Civil analisam imagens do satélite de monitoramentoIntegrantes da Defesa Civil analisam imagens do satélite de monitoramentoFoto: Ascom SPDC/Divulgação/ND Mais

O estudo identificou que 207 cidades estão suscetíveis a desastres, mas também apontou avanços: o número de municípios que declararam não possuir estrutura de Defesa Civil caiu de 47 para 32; houve acréscimo de 390 pessoas nas equipes municipais; 44 cidades passaram a contar com o fundo municipal de proteção e defesa civil; e 211 informaram ter plano municipal de contingência e proteção.

Apesar disso, algumas lacunas persistem. Segundo o auditor do caso,  apenas 150 cidades responderam que promoveram capacitações na área e cerca de 55% dos municípios não possuem cadastros de famílias em áreas de risco, como é o caso de Blumenau, Chapecó, Joinville, Lages, Florianópolis e São José.

A Defesa Civil afirma que a prevenção depende da integração entre o Plano Diretor, que orienta o crescimento urbano e as restrições de construção em áreas frágeis, e o Plano de Contingência, que define protocolos de resposta e articulação das forças de socorro em cenários de crise.

De acordo com o secretário Fabiano de Souza, parte das ações ainda não foi executada por envolver projetos de alta complexidade técnica, estudos complementares e licenciamento ambiental. Ele lembra que o governo estadual nunca construiu uma barragem, as três existentes foram feitas pelo governo federal, e ressalta que, atualmente, a prioridade é a bacia do Rio Itajaí-Açu, local com maior vulnerabilidade à inundação.

O CUSTO DE NÃO PREVENIR

Quando a prevenção falha ou chega tarde, a conta aparece em perdas humanas, sociais e econômicas. Segundo o Atlas de Desastres Climáticos, em 2023, Santa Catarina registrou 10 óbitos, 100 mil desalojados, 300 enfermos e mais de 100 mil pessoas diretamente afetadas em decorrência de desastres climáticos. Isso representou uma perda de R$ 1,61 bilhão em bens materiais da população, mais de R$ 118 milhões em prejuízo público das prefeituras e R$ 3 bilhões ao setor privado.

Na enchente de 2023, somente o Alto Vale do Itajaí teve um prejuízo estimado em mais de R$ 1 bilhão na agricultura. Segundo dados do próprio governo do estado, as chuvas causaram estragos em 46.941 propriedades rurais, atingindo 3,6 milhões de pessoas. Em Rio do Sul, o prejuízo para moradores e empresas foi de R$ 104 milhões, com perda de imóveis, matérias-primas, mercadorias, equipamentos e máquinas. Em Taió, as perdas diretas na agricultura ultrapassaram R$ 37 milhões, segundo levantamento do próprio município.

Para os municípios atingidos, o acesso a recursos emergenciais depende de uma série de etapas burocráticas. A cidade precisa decretar estado de emergência ou calamidade pública, cadastrar os dados no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), aguardar o reconhecimento federal e, depois, apresentar um plano detalhando o uso do dinheiro. Os recursos podem ser destinados a infraestrutura, assistência às famílias, aluguel social, cestas básicas e outras medidas de resposta.

POR QUE AS FAMÍLIAS FICAM

Luana e Seu Irineu ainda vivem em locais sujeitos a alagamentos. Segundo moradores e especialistas ouvidos pela reportagem, a permanência de famílias em locais de risco envolve uma combinação de fatores: o alto preço dos imóveis; o fato da casa ser uma herança passada de geração em geração; estar perto do trabalho e da escola dos filhos; a dificuldade de mudar de rotina e a falta de alternativas acessíveis.

Enchente de 2024 deixou ruas e comércios cobertos de água Água invade ruas e comércios de Rio do Sul em enchente de 2024Foto: Camila Eloisa/ND Mais

“A gente não mora aqui por opção. É porque o morro está muito caro, não tem como sair da baixada”, conta Luana. Em Rio do Sul, o risco atravessa quase toda a cidade. De acordo com o mapa da Defesa Civil municipal, dos 24 bairros, apenas Boa Vista não apresenta risco de alagamento. Os outros 23 bairros apresentam pontos geralmente alcançados pela enchente.

Para o biólogo e especialista em mudanças climáticas Paulo Horta, a principal medida seria retirar famílias dessas regiões, na maioria das vezes ocupada pela população mais vulnerável. Ele lembra que o problema também agrava os alagamentos, porque a ocupação reduz os espaços naturais de drenagem: “Não tem uma área para a água escorrer. Hoje os rios estão circunscritos por paredes e muros. As áreas mais baixas da cidade vão alagar mais rápido, o que diminui o tempo de resposta e aumenta os riscos. É um conjunto de efeitos em cascata”.

O geólogo da Defesa Civil de SC, Matheus Klein Flach, diz que a permanência das famílias nesses locais é um desafio socioeconômico complexo, associado ao crescimento urbano desordenado. “O poder público direciona seus esforços para conter os danos por meio do monitoramento ativo. Essa atualização contínua das manchas de vulnerabilidade, somada ao uso de tecnologias de alerta precoce, permite que os municípios acompanhem a evolução do perigo e ajam preventivamente para resguardar a vida das populações afetadas durante períodos críticos”, pontua Matheus.

A fiscalização de construções irregulares, no entanto, cabe aos municípios, que podem notificar, multar, realizar o embargo e até a demolição dessas estruturas. afirma Matheus. “O principal obstáculo enfrentado pelas administrações locais reside na limitação do contingente dessas equipes frente à velocidade da expansão urbana informal”, complementa.

Enquanto a remoção definitiva de áreas de risco não acontece, a alternativa em situações de emergência são os abrigos e rotas de fuga. Rio do Sul, por exemplo, já chegou a ter 22 abrigos abertos em 2023 e conta com 10 “transenchentes”, vias alternativas que permitem a saída rápida de moradores de áreas alagadas. Em Lontras, a população pode ser direcionada a cinco abrigos, enquanto cidades vizinhas, como Laurentino e Lontras, também buscam viabilizar obras para rotas semelhantes.

No campo habitacional, programas como o Minha Casa, Minha Vida Calamidade buscam atender famílias atingidas por desastres, desde que o município tenha situação de emergência ou calamidade reconhecida pelo governo federal. Em Santa Catarina, a Alesc também aprovou, em 2025, pedido para construção de casas modulares como resposta emergencial a enchentes, deslizamentos e outras catástrofes.

ANTES DA PRÓXIMA CHUVA

Para Luana, o que mais importa antes da próxima enchente é que as famílias sejam avisadas com antecedência, para que as pessoas tenham tempo de se organizar e retirar suas coisas de casa, sem precisar sair às pressas só com a roupa do corpo, como foi o caso em 2023. “É muito triste as pessoas terem que sair de dentro da própria casa, perder a residência, porque não foram avisadas”.

Para o secretário Fabiano de Souza, além de todas as medidas tomadas pela Defesa Civil e pelo governo do estado, o que mais precisa ser mudado é a cultura preventiva. “As pessoas precisam ter a percepção de risco, para a prevenção de desastres, para ter a clara noção de que a defesa não trabalha sozinha, mas com a sociedade, o município, e a própria população”, afirma.

Enquanto a próxima chuva não chega, os moradores de áreas de risco convivem com uma espera que mistura incerteza e preparação. Querem mais investimentos em obras de prevenção, alertas climáticos com antecedência e alternativas mais acessíveis para viver longe de locais de risco. “O importante é que as pessoas estejam em locais seguros quando a água vier”, finaliza Luana.

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