Prédio onde ficava localizado o Cine São José, no Centro de FlorianópolisFoto: Alan Pedro/Jornal ND/ND Mais
Seguindo uma tendência que cresce em todo o Brasil, Florianópolis se mobiliza para criar uma empresa pública que estimule a produção audiovisual, considerando o potencial do setor na geração de riqueza e oportunidades de trabalho. A iniciativa poderia beneficiar a volta do Cine São José.
A intenção é aliar o talento e a criatividade dos artistas locais ao que o cinema pode representar como indústria – estima-se que 600 mil empregos são gerados pelo segmento hoje no país, superando o setor automotivo.
A ideia nasceu no Funcine (Fundo Municipal de Cinema) e é encampada por cineastas, diretores, atores, atrizes e técnicos do audiovisual, que existem em bom número e se multiplicam na medida em que se formam as turmas dos cursos superiores de cinema oferecidos na região.
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No caso da capital catarinense, uma carta a mais foi jogada sobre a mesa: a reabertura das instalações do antigo Cine São José para sediar a empresa e instalar duas salas de exibição de filmes independentes e fora do circuito comercial.
“A cidade tem poucos espaços de projeção fora dos shopping centers e a população fica sem a opção de ver filmes locais e nacionais, exceto quando são produções que se destacam no exterior”, diz a presidente do Funcine, Júlia Rojas.
As salas comerciais exibem mais filmes estrangeiros distribuídos por redes que abastecem cerca de 3.500 salas no Brasil – e a produção independente não chega a ser conhecida pela grande maioria das pessoas.
Vinda de empresa pública para aquecer produção cultural em Florianópolis poderia beneficiar volta do Cine São JoséFoto: Alan Pedro/Jornal ND/ND Mais
A questão do Cine São José envolve o necessário pragmatismo que a proposta exige e um pouco de saudosismo, porque a sala, inaugurada em 1954 pela família Daux, faz parte do imaginário das gerações mais velhas da cidade.
Ela hoje sedia uma igreja evangélica, mas existe uma intenção da Câmara de Vereadores de adquirir o prédio, já que a sede do Legislativo municipal é considerada pequena – sobretudo a sala de sessões – para as demandas da casa.
Na Câmara, o assunto é tratado com reservas, mas profissionais do audiovisual trabalham com informações de bastidores que justificam seu otimismo. Outra ideia é o Poder Público desapropriar o prédio.
Ainda a ser apresentada como proposta oficial ao município, mas já batizada de Floripa Cine, a empresa seguiria os moldes da RioFilmes, da SPCine e de congêneres em outras capitais do país que apoiam a produção, lançam editais, promovem cursos de formação e abrem espaços para as produções fora do circuito convencional.
“No prédio do antigo cinema, há um mezanino com 400 cadeiras e lugar para instalar duas salas de 200 lugares”, explica o cineasta Zeca Pires, que vem buscando apoios para viabilizar o projeto. “O plenário da Câmara poderia ficar embaixo e as salas de projeção na parte superior”, calcula.
Zeca Pires, cineasta de FlorianópolisFoto: Alan Pedro/Jornal ND/ND Mais
Prédio do antigo Cine São José teve tentativas de compra frustradas
Ariovaldo Ferreira, administrador da igreja Livre Church, que funciona desde 2008 no prédio do antigo Cine São José, disse nesta sexta-feira (27) que já houve tentativas de compra do imóvel pela Câmara de Vereadores, mas a impossibilidade de intervenção para restauro inviabilizou a operação.
A igreja conseguiu fazer algumas adaptações, mas sem mexer na estrutura da edificação. “A parte interna estava bastante deteriorada e cheia de moradores de rua, mas em 40 dias deixamos tudo em ordem”, afirmou.
Cine São José ficava onde hoje está localizada a sede da Livre Church, igreja do bispo Bita PereiraFoto: Divulgação/ND
Cinema de luxo onde só se entrava de terno e gravata
De propriedade da empresa Pittol Calçados, com sede em Concórdia, o prédio do antigo Cine São José, na rua Padre Miguelinho, é considerado um patrimônio municipal, mas sua importância emerge mais como local onde várias gerações de florianopolitanos viram os clássicos hollywoodianos e europeus dos anos 50 a 80 e produções brasileiras de grande bilheteria.
Aberto com pompa, tornou-se um sinônimo de glamour, porque os homens entravam de terno e gravata e as mulheres vestiam-se como se fossem a uma festa da alta sociedade.
Obra do artista Átila Ramos retratando o Cine São JoséFoto: Reprodução/ND
Engenheiro e funcionário público aposentado, o aquarelista Átila Ramos testemunhou essa época e reproduziu em telas os ambientes internos do cinema, que tinha nas paredes obras inspiradas no folclorista Franklin Cascaes.
Ele lançou livros feitos a partir de pesquisas sobre os antigos cinemas de rua – desde o Cassino, aberto em 1909, ainda na infância da sétima arte – e fez exposições de suas aquarelas retratando esses verdadeiros templos de diversão dos florianopolitanos.
Átila também recorda da “sessão das moças”, quando jovens, depois do cinema, desfilavam entre a Praça XV de Novembro e o palácio do governo, com extensão às ruas próximas, no celebrado “footing” que engendrava paqueras e alguns casamentos.
“Acho uma boa ideia reabrir as salas”, diz o artista, que ainda identifica, numa visita às instalações internas, as paredes onde ficavam as escadarias originais, o granito dos banheiros, as salas da administração e as esculturas baseadas em Cascaes, que hoje estão parcialmente preservadas numa espécie de tapume na parte superior da plateia.
Empresas apoiam e difundem o audiovisual em quase todo o Brasil
Criado em 1989, numa iniciativa pioneira no Brasil, o Funcine – vinculado à Secretaria de Esporte, Cultura e Lazer do município – promove desde 2004, ainda que de forma intermitente, o Edital de Fomento ao Audiovisual Armando Carreirão, organiza mostras e festivais, estimula a produção e oferece oficinas e cursos de profissionalização técnica (roteiro, produção, direção, cenografia, maquiagem, entre outros).
No entanto, tem um orçamento limitado (a previsão para este ano é de R$ 971 mil) e estrutura de pessoal que não dá conta de todas as demandas do setor. Ideia que não é nova na cidade, uma empresa pública voltada para o audiovisual teria mais recursos, autonomia e uma equipe para atender às necessidades crescentes do setor, que se insere na chamada economia criativa.
Iniciativas públicas de valorização do audiovisual são adotadas em outras cidades do paísFoto: Alan Pedro/Jornal ND/ND Mais
“Seria possível investir em capacitação, planejamento e difusão, além de definir estratégias e estabelecer metas e resultados”, diz a presidente Júlia Rojas. Também é preciso levar as produções locais (documentários, curtas e longas-metragens) para a rua, porque a população não chega a conhecer o que é produzido pelos artistas locais.
Essa difusão já existe em outros estados e mesmo em cidades de menor porte no interior do Brasil. A RioFilme é um modelo na democratização do acesso às salas de cinema, na expansão do parque exibidor, na formação de público e no fomento às atividades da cadeia produtiva do setor.
Na cidade de São Paulo, a SPCine atua como um escritório que desenvolve, financia e implanta programas e políticas para os setores de TV, cinema, games e novas mídias.
Experiências bem-sucedidas são encontradas também em Pernambuco, Ceará, Bahia, Paraná e Paraíba, centros que vêm se destacando na produção e difusão do audiovisual.
Em Florianópolis, há relatos de que, quando os cinemas de rua foram fechados, a partir da década de 1990, houve a possibilidade de compra dos espaços pela prefeitura, mas nenhuma proposta foi levada em consideração. O último a fechar foi o cine Ritz, na rua Arcipreste Paiva, vendido a uma empresa privada em 2015.
Para Júlia Rojas e o cineasta Zeca Pires, a criação de uma empresa com salas de exibição se encaixaria perfeitamente no projeto de revitalização do Centro Histórico que o município vem implementando, com consultoria de uma empresa estrangeira.
Uma ferramenta que pode atrair produções para a cidade
Uma ferramenta inovadora para o setor é o Film Commission, órgão que atua como um elo entre produtores de audiovisual e governos, criando um ambiente propício para fazer filmes, séries, novelas e comerciais em determinada cidade ou região, com suporte logístico e facilidades para o trabalho de profissionais de fora do Estado e do país.
A ideia é fazer com que produtores venham à cidade para produzir e filmar, aproveitando não só belezas e recursos naturais, mas também um ambiente que os acolha, cortando as barreiras burocráticas. A devolução de um percentual do que é investido pelos produtores torna ainda mais atrativa a escolha da cidade como cenário para a produção de diferentes tipos de audiovisual.
Time do Meridional FC, formado por funcionários do saudoso Cine São José no ano de 1966Foto: Acervo Família Dutra/ND
Estados como Rio de Janeiro e São Paulo já avançaram neste sentido. Só em 2025, a Curitiba Film Commission emitiu mais de 400 autorizações de filmagens e fotografias em locais públicos da cidade, incluindo curtas e longas-metragens. “O audiovisual é um setor com a cara de Florianópolis, uma indústria limpa e afinada com a sustentabilidade”, diz a presidente do Funcine, Júlia Rojas.
“Temos diversidade de paisagens, bom parque hoteleiro, um aeroporto moderno, boa infraestrutura de transportes, tecnologia e posição geográfica estratégica em relação ao Mercosul. Podemos seguir o exemplo da Coreia do Sul, que fez investimentos massivos no audiovisual e colheu bons frutos, divulgando para o mundo seus filmes, séries, novelas e músicas. O país fez do seu audiovisual um grande produto de exportação.”

