O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah foi seguido por novos ataques apenas horas após seu anúncio.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah anunciado nesta semana deveria representar um dos primeiros sinais concretos de redução das tensões no Oriente Médio desde a escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos. Mas a trégua mal havia sido anunciada quando os combates voltaram.
Israel realizou ataques com drones no sul do Líbano. O Hezbollah respondeu atingindo posições israelenses próximas ao Castelo de Beaufort. Poucas horas depois, o Exército israelense voltou a emitir alertas para moradores do sul libanês e reafirmou que continuará realizando operações contra estruturas do grupo. Enquanto isso, a própria força de paz das Nações Unidas registrou baixas em meio à retomada dos disparos.
À primeira vista, parece mais um fracasso diplomático. Na realidade, o episódio revela algo muito mais profundo sobre a natureza dos conflitos contemporâneos no Oriente Médio. O problema não é que o acordo tenha falhado. O problema é que ele talvez nunca tenha sido um acordo de paz.
O que realmente foi assinado
O cessar-fogo anunciado pelos Estados Unidos não encerra a guerra. Ele estabelece condições. Israel concorda em reduzir suas operações desde que o Hezbollah interrompa completamente os ataques e retire seus combatentes do sul do Líbano.
O Hezbollah, por sua vez, rejeitou publicamente partes centrais do entendimento. Seu líder, Naim Qassem, classificou o plano como uma tentativa de submissão do Líbano e afirmou que a resistência continuará enquanto houver presença israelense em território libanês.
Isso significa que as duas partes continuam defendendo objetivos incompatíveis. Israel exige o afastamento do Hezbollah da fronteira. O Hezbollah exige a retirada israelense das áreas ocupadas. Ambos afirmam que continuarão lutando caso suas exigências não sejam atendidas. Esse não é exatamente o cenário ideal para uma paz duradoura.
A guerra que ninguém consegue encerrar
Existe uma característica comum a muitos conflitos do Oriente Médio. Eles raramente terminam. Eles entram em pausa. Foi assim após a Guerra do Yom Kippur. Foi assim em diversas fases do conflito israelense-palestino. Foi assim em sucessivas rodadas de confrontos entre Israel e Hezbollah desde a década de 1980.
Os acordos normalmente não eliminam as causas do conflito. Apenas reduzem temporariamente a intensidade dos combates. É justamente isso que parece estar acontecendo agora. O Hezbollah continua existindo. Israel continua considerando o grupo uma ameaça estratégica. O Irã continua financiando e armando organizações hostis a Israel. E o governo israelense continua determinado a impedir que essas organizações consolidem presença militar próxima às suas fronteiras. Nada disso foi resolvido pelo acordo.
A vitória militar e a ausência de vitória política
Israel pode argumentar que saiu fortalecido dos últimos meses de conflito. A ofensiva israelense reduziu significativamente a capacidade operacional do Hezbollah no sul do Líbano. Diversas posições estratégicas foram destruídas e importantes corredores logísticos sofreram danos relevantes.
Mas existe uma diferença importante entre vencer batalhas e vencer guerras. Historicamente, Israel tem demonstrado enorme superioridade militar sobre seus adversários regionais. O desafio sempre foi transformar essas vitórias militares em estabilidade política duradoura.
O Líbano oferece talvez o melhor exemplo desse dilema. Israel derrotou o Hezbollah diversas vezes ao longo das últimas décadas. Ainda assim, o grupo continua existindo, continua armado e continua exercendo influência significativa sobre a política libanesa.
A situação atual sugere que essa dinâmica permanece em vigor.
O fator Irã continua presente
Existe ainda um elemento adicional que torna qualquer previsão particularmente difícil. A guerra entre Israel e Hezbollah não é apenas uma disputa entre Israel e Líbano. Ela faz parte de uma competição regional muito maior.
Enquanto o líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei convoca a população à unidade nacional e milhares de iranianos participam de manifestações pedindo vingança contra os Estados Unidos, fica evidente que Teerã continua enxergando o conflito como parte de uma disputa estratégica mais ampla.
Mesmo enfraquecido militarmente, o Hezbollah permanece sendo um dos instrumentos mais importantes da projeção de poder iraniana no Levante. Isso significa que qualquer acordo envolvendo o grupo inevitavelmente estará ligado aos cálculos estratégicos de Teerã.
O que esperar agora
O cenário mais provável não é uma paz definitiva. Também não é uma guerra regional em larga escala. O mais provável é algo que o Oriente Médio conhece muito bem: um conflito congelado.
Os ataques podem diminuir. As negociações podem continuar. As manchetes podem desaparecer por algumas semanas. Mas as causas centrais da guerra continuarão presentes. E enquanto elas permanecerem, cada cessar-fogo carregará dentro de si a possibilidade do próximo confronto.
Essa talvez seja a principal lição da semana. No Oriente Médio, cessar-fogos muitas vezes não marcam o fim das guerras. Eles marcam apenas o intervalo entre elas.

