Eveline Schmizt foi vítima de feminicídio cometido pelo companheiro em março de 2024 em BlumenauFoto: Divulgação/MPSC/ND Mais
“Tomei um banho de sangue da minha mãezinha”, relembra a filha de Eveline Schmitz, morta a facadas pelo companheiro aos 37 anos, no dia 4 de março de 2024, em Blumenau.
A menina tinha apenas quatro anos e presenciou o feminicídio da própria mãe ao lado do irmão, com dois anos na época do crime. Os irmãos hoje moram com a avó materna, mas ainda carregam a dor da perda e as marcas eternas do trauma.
O caso de Eveline foi abordado em uma série especial do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), que evidencia as diferentes dimensões da violência. A produção vai além dos números e reforça que, por trás de cada estatística, existem vidas interrompidas, sonhos desfeitos e uma saudade que nunca passa.
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Eveline foi morta a facadas por companheiro na frente dos filhos
Eveline foi morta a facadas pelo companheiro na frente dos filhos; caso de feminicídio em Blumenau completou dois anos em março de 2026Foto: Divulgação/MPSC/ND Mais
O caso aconteceu na rua Emílio Alcântara Vianna, no bairro Velha Grande, por volta das 22h10. Foram os vizinhos que ouviram gritos da vítima e dos filhos, vindos do interior do imóvel.
O companheiro de Eveline, um homem de 31 anos, teria aparecido na frente do imóvel com as mãos sujas de sangue, foi quando a Polícia Militar foi chamada.
Na chegada dos policiais, a casa estava com as luzes apagadas e a porta trancada. Depois de um certo tempo, o homem acendeu as luzes da residência, momento em que os policiais militares visualizaram que o homem estava nervoso e sem roupas.
A polícia conseguiu entrar na residência e encontrou Eveline caída no chão com ferimentos de faca na região do pescoço. De acordo com a Polícia Militar, ele relutou em se entregar e, inclusive, colocou um dos filhos no colo com o objetivo de evitar a ação policial.
Com a chegada do reforço, o homem se entregou. Ele foi preso em flagrante no dia do crime e cumpre pena no Presídio Regional de Blumenau. Em junho de 2025, o homem foi condenado pelo Tribunal do Júri de Blumenau a 20 anos de prisão.
A denúncia apresentada pelo MPSC destacou qualificadoras de feminicídio, violência doméstica e aumento de pena pela presença dos filhos.
Mãe amorosa e mulher sonhadora
A família lembra de Eveline como uma mãe amorosa e dedicada, amiga, filha atenciosa e batalhadora. “Ela foi a pessoa mais importante da minha vida”, afirma a irmã de Eveline, Ingrid Schmitz.
Família lembra de Eveline Schmizt como mãe amorosa e mulher sonhadoraFoto: Divulgação/MPSC/ND Mais
Ela se mudou para Blumenau ainda jovem, onde começou a trabalhar como manicure, com o sonho de abrir o próprio. Com o trabalho, conseguiu conquistar a casa própria e um carro.
Na cidade, Eveline conheceu o companheiro, com quem teve dois filhos. Uma vida cheia de planos foi interrompida pela violência.
“Eles tinham separado várias vezes. Várias vezes ele saiu de casa, mas ele sempre voltava e dizia que ia mudar. O cara enchia ela de chantagem, usava muito os filhos”, relembra a mãe de Eveline, Ilácia Huf.
“A gente esperava que ela um dia viria para cá e ia ficar toda de bem, mas não deu o tempo pra isso”, lamenta o pai da vítima, Walfredo Schmitz.
Uma nova chance
Filhos de Eveline hoje moram com avó materna, após feminicídio em BlumenauFoto: Divulgação/MPSC/ND Mais
Após a morte de Eveline, os filhos passaram a viver com a avó materna, Ilácia Huf, e o companheiro dela. Juntos, eles se tornaram figuras de referência, assumindo o papel de mãe e pai para as crianças, garantindo proteção, rotina e cuidado emocional.
“A menina, quando a gente se machuca, ela entra em desespero. Ela grita, ela chora e diz ‘não é para você morrer, eu não quero te perder’. Daí a gente sente a dor que ela tá passando com a falta da mãe”, conta Ilácia, a quem hoje os filhos de Eveline chamam de mãe.
Dois anos depois do crime violento, o dia a dia das crianças inclui atividades simples, mas importantes, desde refeições feitas em casa a brincadeiras, histórias antes de dormir e momentos de lazer, como passeios e contato com a natureza.
“A gente saiu de Blumenau pela vida das crianças. Estamos aqui para ajudar, para ser a mão direita e a mão esquerda. Agora, ter as crianças aqui e não ter ela, não que não faça sentido, faz sentido, só que falta alguém. Para sempre”, lamenta a irmã de Eveline.
Os estilhaços da violência
Especialistas alertam que crianças que presenciam a morte de um dos pais são vítimas indiretas da violência e carregam traumas que podem perdurar por toda a vida.
A promotora de Justiça Marina Saade Laux ressalta que, no caso de Eveline, o acolhimento familiar foi fundamental para minimizar os danos, oferecendo um ambiente seguro e cuidado emocional.
“Eveline tinha uma família presente e acolhedora, que conseguiu acolher essas crianças, que vão ter um destino, provavelmente, menos gravoso e, quem sabe, se e recuperar desse trauma que elas viveram. Por mais que fossem pequenos, que façam acompanhamento psicológico, mas essa lembrança dessa violência presenciada, do pai tirando a vida da mãe, com certeza vai ficar na memória deles pro resto da vida”, destaca a promotora.
A psicóloga especialista em luto, Ivânia Luna, complementa que os filhos de Eveline são vítimas indiretas da violência e estão expostos a estresse pós-traumático, além do processo de luto que terão de enfrentar ao longo da vida toda.
“Essas crianças que assistiram uma cena de violência que gerou a morte de um familiar muito próximo. A gente considera que o amor, que o cuidado, que a espiritualidade é fundamental pra garantir o suporte, o direito da criança à vida, ao direito a se desenvolver como ser humano”, afirma.
Denuncie a violência contra a mulher Toda violência doméstica deve ser denunciada sob a Lei Maria da Penha. Se presenciou ou foi vítima, informe as autoridades. Em Santa Catarina, a denúncia pode ser feita de maneira online na Delegacia de Polícia Virtual da Mulher por este link ou pelo WhatsApp (48) 98844-0011. Na Polícia Militar, usa-se o aplicativo PMSC Cidadão. Já por telefone, a denúncia pode ser anônima pelos telefones 181 (Polícia Civil), 190 (Polícia Militar) e 180 (Disque Denúncia).

