O ataque dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz elevou novamente a tensão no Oriente Médio e colocou em risco as negociações sobre o acordo nuclear iraniano.Foto: IA/ND Mais
O ataque dos EUA ao Irã realizado nesta segunda-feira (25) mostra como o Oriente Médio entrou numa fase extremamente delicada, na qual guerra limitada e negociação diplomática passaram a acontecer simultaneamente. Enquanto Washington e Teerã discutem um possível acordo para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz, forças americanas voltaram a atacar alvos iranianos sob a justificativa de “autodefesa preventiva”.
Segundo o Comando Central dos EUA, os ataques atingiram instalações de lançamento de mísseis e embarcações iranianas que tentavam instalar minas marítimas no Estreito de Ormuz. A operação ocorreu justamente durante o cessar-fogo em vigor e no momento em que diplomatas tentam construir um memorando de entendimento entre os dois países.
À primeira vista, isso parece contraditório. Mas talvez seja exatamente o contrário. O ataque dos EUA ao Irã revela a lógica cada vez mais comum da política externa americana contemporânea: negociar sob pressão militar constante.
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Donald Trump parece tentar construir um acordo rápido sem permitir que Teerã ganhe tempo político, militar ou nuclear durante as negociações. Ao atacar preventivamente instalações iranianas ao mesmo tempo em que mantém canais diplomáticos abertos, Washington envia uma mensagem dupla: existe espaço para acordo, mas também existe disposição para ampliar o confronto caso o Irã tente elevar o custo das negociações.
Na prática, trata-se de uma diplomacia coercitiva. E ela ocorre porque os Estados Unidos enfrentam pressões em várias direções ao mesmo tempo.
Internamente, Trump sofre cobrança de setores republicanos mais duros, fortemente alinhados a Israel e contrários a qualquer concessão ao regime iraniano. Senadores republicanos influentes passaram os últimos dias criticando abertamente a possibilidade de um acordo que permita ao Irã manter qualquer capacidade ligada ao enriquecimento nuclear.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca sabe que um conflito prolongado no Oriente Médio possui efeitos econômicos perigosos para os próprios Estados Unidos.
O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz elevou preços do petróleo, pressionou mercados internacionais e aumentou temores sobre inflação global e custo dos combustíveis. Trump entra num período eleitoral extremamente sensível e sabe que gasolina cara historicamente cobra preço político nos EUA.
Por isso o atual movimento americano parece funcionar em duas frentes. A primeira é militar: impedir que o Irã consolide controle permanente sobre Ormuz ou fortaleça sua posição estratégica regional. A segunda é diplomática: acelerar um acordo antes que o conflito se transforme novamente numa guerra aberta de grandes proporções.
O problema é que esse tipo de estratégia também aumenta enormemente o risco de erro de cálculo.
Porque o Irã interpreta ataques preventivos como demonstrações de fragilidade americana e tentativa de intimidação política. Já Washington entende ações iranianas em Ormuz como ameaça direta à economia global e ao equilíbrio energético internacional.
O resultado é um cenário extremamente instável. As próprias negociações revelam isso. Os EUA exigem que o Irã entregue ou destrua seu estoque de urânio enriquecido — chamado por Trump de “poeira nuclear” — antes de qualquer flexibilização econômica relevante. Já Teerã tenta garantir suspensão gradual das sanções e reabertura econômica antes de fazer concessões definitivas sobre seu programa nuclear.
No fundo, o ataque dos EUA ao Irã mostra que o cessar-fogo atual continua extremamente frágil. A guerra talvez tenha diminuído de intensidade. Mas ainda está longe de realmente terminar.

