Von der Leyen propôs o Canadá como primeiro membro associado da UE durante o seu discurso sobre o Estado da União — com Carney presente na plateia. Os parlamentares europeus deram ovação de pé. “Membro associado” não existe nos tratados europeus. A UE está inventando uma nova categoria — em tempo realFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Na quarta-feira, no Parlamento Europeu em Estrasburgo, aconteceu uma cena que teria sido incompreensível dois anos atrás. Ursula von der Leyen — presidente da Comissão Europeia — convidou formalmente o Canadá a se tornar o primeiro “membro associado” da União Europeia.
O primeiro-ministro canadense Mark Carney, que estava sentado na galeria como convidado especial do discurso anual sobre o Estado da União, levantou-se, desceu até Von der Leyen e a abraçou, enquanto os parlamentares europeus davam uma ovação de pé.
“Neste novo mundo, devemos reimaginar urgentemente nossas parcerias e construir coalizões globais para nossa resiliência e democracias”, disse Von der Leyen. “Gostaria de trabalhar com você para abrir a porta para o Canadá ser o primeiro membro associado da União Europeia.”
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Há um detalhe técnico que torna essa proposta ainda mais extraordinária: “membro associado” não é uma designação legal na UE, e as próprias regras do bloco dizem que apenas países europeus podem candidatar-se à adesão.
Von der Leyen não está aplicando um mecanismo existente. Está inventando um novo — em tempo real, diante do parlamento, com o primeiro-ministro canadense na plateia.
Por que o Canadá e a Europa chegaram aqui
A resposta direta é Donald Trump. As tarifas americanas e a conversa repetida sobre tornar o Canadá o 51º estado dos EUA azedaram a relação entre os vizinhos norte-americanos e empurraram Ottawa a buscar laços econômicos e de segurança mais próximos com a Europa.
Carney disse mais cedo esta semana que o Canadá buscava uma “aliança única” com a UE, mas não adesão plena. A proposta de Von der Leyen vai além do que Ottawa havia pedido publicamente — mas não muito além do que estava sendo discutido nos bastidores.
Uma autoridade canadense familiarizada com as discussões disse à Associated Press que Ottawa estava explorando laços com a UE que poderiam parar um pouco aquém da adesão plena — incluindo um arranjo permitindo que cidadãos canadenses vivam e trabalhem na Europa sem visto como parte de uma parceria estratégica mais ampla.
A frase que melhor captura o momento foi dita pelo presidente finlandês Alexander Stubb em junho: “Não seria maravilhoso se o Canadá fosse o 28º estado da União Europeia em vez do 51º estado dos Estados Unidos?”
O que “membro associado” significa na prática — e o que não significa
Aqui está onde a euforia da cena parlamentar precisa ser temperada com realismo.
O embaixador canadense Jonathan Wilkinson minimizou a proposta de Von der Leyen, dizendo que os dois lados estão “longe” de chegar a uma descrição para um relacionamento potencial.
A reação canadense oficial foi cuidadosa: “Bem-vindos à proposta da presidente Von der Leyen de que o Canadá e a UE avancem além do [acordo de livre comércio] para uma aliança para o futuro. Esta é uma abordagem única e positiva que definiremos juntos.”
“Definiremos juntos” — é a linguagem diplomática para “ainda não sabemos o que isso significa.”
Von der Leyen disse que a UE e o Canadá trabalhariam juntos em setores que vão da manufatura à IA, passando por minerais críticos e energia.
Os setores não são escolhidos ao acaso: são exatamente as áreas em que Europa e Canadá têm interesses complementares e em que dependem menos dos EUA do que gostariam.
O Canadá tem as maiores reservas de minerais críticos do mundo ocidental — lítio, cobalto, níquel, terras raras. A Europa precisa desses minerais para sua transição energética e para não depender da China.
Ao criar um título personalizado para o Canadá, a UE está enviando um sinal poderoso como bloco comercial de que pode se expandir além de suas fronteiras e se reinventar após o Brexit, quando perdeu uma grande potência econômica.
A UE que está se reinventando em tempo real
A proposta do Canadá como membro associado não é um episódio isolado.
É parte de uma série de movimentos que a UE vem fazendo desde que ficou claro que a administração Trump representa uma ruptura estrutural — não apenas uma turbulência passageira — nas relações transatlânticas.
Em maio de 2026, o acordo Mercosul-UE entrou em vigência provisória após décadas de negociação — numa sinalização de que o bloco europeu estava diversificando parcerias comerciais ativamente.
Em junho, o presidente finlandês Stubb propôs ampliar a UE para 40 membros, mencionando Canadá, Reino Unido, Turquia, Noruega e Islândia. Em setembro, Von der Leyen concretiza parte dessa visão convidando o Canadá.
A proposta também sugere um caminho para o Reino Unido recosturar seus laços com a UE — embora com o Canadá à frente em termos de estabelecer o que a adesão associada vai implicar. O Brexit foi o maior trauma institucional da UE em décadas.
Se a categoria de “membro associado” se concretizar, o Reino Unido — que nunca aceitou plena re-adesão mas que sob o governo Burnham está mais próximo da Europa do que esteve em anos — tem um caminho de aproximação que não exige reverter o referendo de 2016.
A ironia que define o momento
Há uma ironia profunda em tudo isso que merece ser nomeada com clareza.
Trump passou 2025 e 2026 tentando redefinir o Ocidente nos seus próprios termos — tarifas universais, Doutrina Monroe, ameaças ao Canadá e à Groenlândia, pressão sobre aliados da OTAN para pagarem mais. A estratégia era de contração: menos multilateralismo, mais bilateralismo americano.
O resultado foi o oposto. A Europa se armou. O Canadá se voltou para a Europa. A Islândia votou sobre a UE. A Austrália e o Japão aprofundaram laços bilaterais. A Índia diversificou parcerias. E agora a UE está inventando uma nova categoria de adesão para absorver um país do continente americano.
Trump está reconstruindo o Ocidente sem querer — simplesmente que o Ocidente que está emergindo não tem Washington no centro.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil não é candidato a membro associado da UE — e provavelmente nunca será, dado que os tratados europeus exigem países europeus. Mas a proposta do Canadá tem implicações indiretas para o Brasil em pelo menos dois sentidos.
O primeiro é comercial. Com o Acordo Mercosul-UE em vigência provisória, o Brasil tem acesso preferencial ao mercado europeu — o mesmo mercado que o Canadá já acessava pelo CETA, seu próprio acordo de livre comércio com a UE.
Se o Canadá aprofundar ainda mais esse acesso como “membro associado”, os exportadores brasileiros competirão com exportadores canadenses em condições eventualmente desiguais para alguns produtos.
O segundo é geopolítico. A UE que está se reinventando em torno de novos parceiros — Canadá, potencialmente Reino Unido, minerais críticos, IA — é uma UE que está definindo uma agenda de prioridades.
O Brasil que quer ter papel nessa nova arquitetura precisa ser relevante para essa agenda: como fornecedor de minerais críticos, como parceiro de transição energética, como mercado consumidor crescente.
A cena do Parlamento Europeu em Estrasburgo na quarta-feira foi mais do que um gesto diplomático entre Von der Leyen e Carney. Foi a visualização de um reordenamento que está acontecendo enquanto o mundo está olhando para outro lado — para guerras, eleições e escândalos.
A Europa está redesenhando suas fronteiras. Não geograficamente, mas politicamente. E o mapa que está emergindo tem menos América do Norte do lado americano do que qualquer analista teria previsto dois anos atrás.

