Alguns ciclos precisam ser encerrados na Seleção Brasileira, como de Casemiro e MarquinhosFoto: Paul Ellis/AFP/ND Mais
A conquista do bicampeonato mundial da Espanha confirma que identidade de jogo não nasce de um treinador ou de um grupo específico de atletas. É fruto de um projeto. Luis de la Fuente assumiu a seleção principal depois de anos comandando as categorias de base, sempre inserido em uma estrutura que preserva os mesmos conceitos técnicos, táticos e metodológicos da Federação Espanhola.
O resultado é uma equipe que muda peças, mas não perde sua essência: pressiona alto, ocupa os espaços de forma coordenada, controla a posse de bola e sabe exatamente como atacar e defender em qualquer momento da partida.
Essa conquista inevitavelmente leva a uma reflexão sobre a Seleção Brasileira. Afinal, qual é a identidade do Brasil hoje? Há muito tempo essa resposta deixou de ser clara. Depois dos títulos mundiais de 1994 e 2002, a Seleção passou por sucessivas mudanças de treinadores, filosofias e modelos de jogo.
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Cada ciclo começou praticamente do zero, sem continuidade, sem integração entre as categorias de base e a equipe principal e, principalmente, sem um projeto esportivo que sobrevivesse às trocas de comando.
O Brasil sempre foi reconhecido por um futebol técnico, criativo e imprevisível. Durante décadas, a habilidade individual era potencializada por equipes organizadas e competitivas. Com o passar dos anos, porém, tentou copiar modelos europeus sem adaptá-los às características do jogador brasileiro.
Em alguns momentos, perdeu criatividade em busca de intensidade; em outros, apostou apenas no talento individual, sem uma estrutura coletiva sólida. O resultado foi uma seleção que alternou estilos e nunca conseguiu consolidar uma identidade.
É justamente aí que está o maior desafio de Carlo Ancelotti. O treinador italiano terá a missão de iniciar um processo de reconstrução. Não basta escolher os melhores jogadores. E olha que são muitos jovens talentosos para o próximo ciclo para a Copa de 2030, como: Endrick, Rayan, Savinho, João Pedro, Estevão entre outros, fora o que naturalmente o futebol brasileiro vai produzir. Responsabilidade também nessa renovação.
É preciso estabelecer princípios de jogo que possam ser reproduzidos desde as categorias de base até a seleção principal, criando uma cultura futebolística capaz de atravessar gerações e trazer consistência de competitividade, aliada ao talento natural do jogador brasileiro.
Falta acima de tudo na Seleção Brasileira, planejamento
Rodrigo Caetano durante a convocação da Seleção BrasileiraFoto: Rafael Ribeiro/CBF/ND
A Espanha mostrou que títulos são consequência de planejamento. O Brasil não precisa copiar o modelo espanhol, mas deve voltar a construir o seu próprio caminho, valorizando aquilo que historicamente sempre o diferenciou: técnica refinada, criatividade, improviso e alegria para jogar, sem abrir mão da organização tática e da disciplina coletiva.
Porque identidade não surge por acaso. Ela é construída com planejamento, continuidade e convicção. E talvez essa seja a maior lição que a Espanha deixa ao futebol brasileiro.

