Doutrina Monroe: o que começou em 1823 como proteção contra a Europa virou, 200 anos depois, um instrumento de domínio sobre as repúblicas americanas — com o Brasil no centro do alvoFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Às vezes, um governo faz algo que parecia inexplicável — e então publica um vídeo que explica tudo.
Na terça-feira, o Departamento de Estado americano publicou nas suas redes sociais um vídeo sobre a Doutrina Monroe. A legenda dizia: “A Doutrina Monroe moldou a política externa dos EUA por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.”
Nunca mais será questionado. Não “não deve ser questionado.” Não “preferimos que não seja questionado.” Nunca mais será.
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Leia esta frase uma vez mais — e então pense em tudo que aconteceu com o Brasil nos últimos doze meses.
O que o Departamento de Estado disse — sem rodeios
O vídeo não é uma declaração incidental. É uma síntese deliberada de política externa, publicada numa terça-feira de agosto num momento de máxima tensão com o Brasil e de consolidação da influência americana sobre a América Latina.
A gravação apresenta a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, como “o exemplo mais recente” da aplicação da Doutrina Monroe. Segundo o Departamento de Estado, a operação enviou um “forte sinal a todo o hemisfério.”
Não é a linguagem da diplomacia tradicional, que prefere eufemismos, condicional e ambiguidade calculada.
É a linguagem da dominação declarada. E ela foi publicada num momento muito específico: quando o Brasil está sob emergência nacional americana, quando o visto da embaixadora brasileira foi revogado, quando um aliado dos EUA está chamando o presidente brasileiro de “porco” e quando a candidatura apoiada por Washington compete contra Lula nas eleições de outubro.
O que é a Doutrina Monroe — e o que ela se tornou
Em 1823, o presidente James Monroe estabeleceu um princípio simples: as potências europeias não deveriam interferir nos assuntos das nações americanas recém-independentes.
A frase que ficou na história foi “a América para os americanos” — mas o “americanos” da frase sempre significou, na prática, “os Estados Unidos.”
Ao longo de dois séculos, a doutrina evoluiu de escudo contra a Europa para instrumento de domínio regional.
Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt acrescentou o “Corolário Roosevelt”: os EUA não apenas resistiriam à intervenção europeia — intervindo eles próprios quando julgassem necessário para garantir a “estabilidade” do hemisfério.
De 1823 a 2026: de “fora da Europa” a “fora da China”
O que o vídeo do Departamento de Estado revela é a versão 2026 da doutrina: o inimigo externo que precisa ser mantido fora do hemisfério já não é a Europa — é a China.
O documento de Estratégia de Política Externa divulgado pela Casa Branca em dezembro de 2025 é explícito: os EUA buscam “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental” — com foco direto no “combate ao avanço chinês pela região.”
É uma lógica que o governo americano não está escondendo. Está publicando no X com legenda em caixa alta.
A parte que o vídeo preferiu não mencionar
O vídeo do Departamento de Estado apresenta um histórico cuidadosamente editado da Doutrina Monroe.
Cita o Panamá em 1903 — como um exemplo de como os EUA “apoiaram a independência panamenha da Colômbia” e garantiram o direito de construir o Canal.
Cita a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962 — como um exemplo de contenção soviética.
O que o vídeo não menciona é a outra face da mesma moeda.
O Brasil que os EUA ajudaram a colocar sob ditadura
Em 1964, o governo americano reconheceu o golpe militar brasileiro em menos de 24 horas após a deposição do presidente João Goulart — antes mesmo que os generais tivessem formalmente consolidado o poder.
Documentos desclassificados mostram que o governo Kennedy e depois Johnson haviam planejado apoiar o golpe caso fosse necessário, numa operação chamada “Brother Sam” que preposicionou navios americanos ao largo do Brasil.
No Chile de 1973, a CIA foi agente ativo na desestabilização de Salvador Allende e no apoio ao golpe de Pinochet.
Na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e em países centroamericanos — a lista de ditaduras que contaram com apoio ou aquiescência americana durante a aplicação prática da Doutrina Monroe ao longo do século XX é longa.
O vídeo do Departamento de Estado passa por toda essa história como se não existisse.
A seletividade da memória não é ingenuidade. É política.
O mapa que o vídeo deixa claro — e onde o Brasil se encaixa
Para entender o que a declaração de terça-feira significa para o Brasil, é preciso olhar para o mapa da América Latina em 2026 através dos olhos de Washington.
Argentina: Milei governa, alinhado com Trump, recebe apoio explícito da Casa Branca. Colômbia: De la Espriella, candidato da direita, eleito com apoio americano. Peru: Keiko Fujimori, eleita com endosso conservador. Equador: Daniel Noboa, alinhado com Washington. Venezuela: Maduro capturado e preso em Nova York.
E o Brasil? Lula governa, está próximo da China, recusou-se a condenar a Rússia de forma inequívoca na guerra da Ucrânia, preside o BRICS e tem o maior PIB da região.
Do ponto de vista de Washington, o Brasil é a peça fora do lugar no tabuleiro.
Tudo o que aconteceu com o Brasil este ano, explicado por uma doutrina
Agora releia o que aconteceu com o Brasil nos últimos doze meses com a Doutrina Monroe como chave analítica:
Em julho de 2025, emergência nacional americana declarada contra o Brasil — invocando a IEEPA, citando o STF e Bolsonaro como justificativas. Em julho de 2026, tarifas de 37,5% sobre produtos brasileiros, resultado de duas investigações simultâneas.
Em julho de 2026, vistos negados a funcionários do Departamento de Estado que planejavam visitar o Brasil.
Em agosto de 2026, visto da embaixadora brasileira revogado. Durante todo o período, apoio explícito a Milei, que faz campanha para a oposição brasileira em São Paulo. Netanyahu enviando vídeo para a convenção do PL.
Deputados republicanos americanos chamando Lula de “porco” e publicando montagens com seu rosto sobre o de Maduro.
Isso não é uma série de eventos desconexos. É uma política coerente, aplicada sistematicamente, com um objetivo declarado: reposicionar o Brasil no alinhamento que Washington considera adequado antes das eleições de outubro.
A estratégia militar que acompanha a declaração
A declaração de domínio hemisférico não é apenas retórica. Ela vem acompanhada de uma estratégia operacional concreta, descrita no documento de Política Externa de dezembro de 2025:
Ampliar a presença da Guarda Costeira e da Marinha nas rotas marítimas do hemisfério — incluindo as que passam pelo Atlântico Sul, onde o Brasil tem interesses estratégicos e petróleo do pré-sal.
Reforçar o combate a cartéis, incluindo o uso de força letal — o que se relaciona diretamente com a designação do PCC e do CV como organizações terroristas que o Brasil contestou como violação de soberania.
Estabelecer ou ampliar o acesso a locais estratégicos na região — o que levanta questões sobre o que os EUA planejam fazer com a presença militar que está sendo redistribuída conforme anunciamos aqui quando Trump retirou tropas da Alemanha.
O que o Brasil vai fazer — e o que pode fazer
A posição do Brasil é difícil por uma razão estrutural: ele precisa dos EUA economicamente, mas está sendo tratado como adversário estratégico. As exportações para o mercado americano somam bilhões de dólares por ano.
A moeda brasileira é afetada pelo dólar. O sistema financeiro global passa pelo dólar. E os EUA acabam de declarar que o domínio americano no hemisfério nunca mais será questionado.
O Brasil tem algumas opções.
Pode resistir retoricamente — e pagar o custo econômico da confrontação. Pode tentar negociar — mas a condição não declarada de Washington parece ser um realinhamento político que Lula não pode aceitar sem custo eleitoral. P
ode buscar alternativas — aprofundando a relação com a China, com a Europa via Mercosul-UE, com os outros BRICS — mas isso confirma exatamente o temor americano que motivou a aplicação da doutrina.
Há uma ironia histórica que merece ser nomeada. A Doutrina Monroe foi criada em 1823 para proteger as novas repúblicas latino-americanas da interferência das monarquias europeias.
Duzentos anos depois, ela está sendo invocada para justificar a interferência nos processos eleitorais de uma república latino-americana democrática — o Brasil — em nome do combate à China.
James Monroe ficaria confuso. Os brasileiros, não.

