Caro (a) leitor (a),
Quando a chuva passa, descobrimos que nem toda serventia permanece necessária.Foto: Imagem criada por IA
Serventia. Uma palavra que é quase incômoda.
A gente costuma dizer “pessoas importantes”, “pessoas especiais”, “pessoas que somam”. Serventia é mais crua.
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O que acontece com as pessoas quando elas deixam de nos servir?
Pensei em escrever uma coluna que não fosse uma crítica aos outros, mas sim uma reflexão sobre relações, poder, conveniência e até sobre a nossa própria necessidade de sermos necessários.
Você já pensou que enquanto chove, ninguém reclama do guarda-chuva? Ele protege, resolve um problema, é necessário. Mas basta o sol aparecer para aquilo era indispensável virar um objeto incômodo.
Achei essa uma ótima metáfora para refletirmos sobre o que acontece quando a devoção acaba, quando o benefício termina. Será que todo sorriso continua sendo sincero?
Quando a serventia vira identidade
Tem gente que nos procura quando precisa de alguma coisa. Tem gente que elogia enquanto precisa. Tem gente que demonstra uma devoção quase religiosa enquanto somos úteis para alguma coisa, um contato, uma informação, uma posição, uma influência, uma solução.
Até que a chuva passa. E aí? Viramos o guarda-chuva, aquele trambolho que você nem sempre tem lugar para guardar e acaba virando um incômodo, ou às vezes é até esquecido por aí.
Há pessoas que são amadas pelo que são.
E há pessoas que são valorizadas pelo que proporcionam.
São coisas bem diferentes.
O problema começa quando confundimos ser necessário com ser querido.
Porque ser necessário alimenta o ego de um jeito perigoso. A pessoa liga, pede opinião, procura, convida, elogia. A gente começa a acreditar que aquele lugar é nosso.
E aí vem uma frase que acho que pode ser muito sua:
Talvez uma das formas mais silenciosas de rejeição seja descobrir que alguém não sentia sua falta. Sentia falta da sua serventia.
E quando somos nós o guarda-chuva?
Porque também precisamos nos perguntar quantas vezes permanecemos em determinados lugares justamente porque gostamos da sensação de sermos indispensáveis.
Às vezes, não é o outro que nos usa.
Somos nós que aceitamos ser usados porque gostamos do lugar que a utilidade nos dá.
E talvez essa seja uma das armadilhas mais sofisticadas das relações. A pessoa não precisa nos obrigar a nada. Basta nos dar a sensação de que somos importantes enquanto estamos servindo para alguma coisa.
O problema é que ninguém consegue ser indispensável para sempre.
A chuva passa.
Ser necessário ou ter serventia: qual é a diferença?
E talvez seja justamente aí que esteja a nossa maior oportunidade de descobrir quem somos quando não estamos resolvendo nada para ninguém.
Porque, se tirarmos a função, o cargo, o favor, o contato, a influência, a capacidade de resolver problemas, o que sobra?
Há uma diferença enorme entre ser necessário e ser escolhido.
Ser necessário significa que alguém precisa do que você oferece.
Ser escolhido significa que alguém quer você por perto, mesmo quando você não tem nada para entregar.
Porque o guarda-chuva não deixa de ter valor quando a chuva termina.
Ele apenas deixa de ser necessário.
Talvez nós também precisemos aprender isso.
Nem todo afastamento é rejeição. Nem toda falta de procura é falta de afeto.
Mas quando a chuva passa e a pessoa desaparece junto com ela, talvez valha a pena olhar para dentro e perguntar:
Será que eu era amado (a) ou perdi a serventia?

