Cúpula OCX Bishkek 2026: Xi, Putin, Modi e o presidente do Irã na mesma mesa — enquanto o Brasil negociava com os EUA em videoconferência. O mundo de setembro acontece em duas salas ao mesmo tempoFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Enquanto o Brasil negociava com os EUA às 14h30 desta segunda-feira, do outro lado do planeta acontecia algo igualmente significativo. Em Bishkek, capital do Quirguistão, os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin reuniram-se na cúpula anual da Organização de Cooperação de Xangai.
O primeiro-ministro indiano Narendra Modi estava lá. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também — poucos dias depois de o prazo do cessar-fogo com os EUA expirar sem acordo.
A OCX tem 10 membros: China, Rússia, Índia, Irã, Belarus, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão. É frequentemente descrita como o contraponto asiático ao G7, uma alternativa à ordem mundial liderada pelos EUA.
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Essa descrição não está errada — mas está incompleta. E a incompletude é o que torna a cúpula de hoje genuinamente interessante.
O que Modi disse — e por que importa
O momento mais revelador da cúpula não foi a reunião entre Xi e Putin. Foi o que Modi disse a Putin logo no início de seu encontro bilateral.
“Cada dia em que a guerra continua representa, na prática, um retrocesso para a humanidade, enquanto cada passo em direção à paz dá a toda a humanidade uma esperança real de paz. Precisamos passar de uma guerra sem fim para o fim da guerra, para a cessação das hostilidades.”
Modi chamou Putin de “meu amigo.” Destacou o crescimento dos laços econômicos entre os dois países. E ao mesmo tempo pediu, sem deixar margem para dúvidas, o fim da guerra na Ucrânia.
Essa combinação é a síntese da postura indiana: parceria econômica com a Rússia — a Índia é uma das maiores compradoras de petróleo russo, o que ajudou Moscou a recompor seu orçamento desde 2022 — e pressão diplomática pelo fim do conflito.
Modi consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo porque a Índia manteve uma postura de equidistância que lhe dá acesso a todos os lados sem pertencer formalmente a nenhum.
Putin respondeu: “Muito obrigado, primeiro-ministro. Estamos avançando nesse caminho.” Uma resposta vaga que não compromete nada — mas que também não fecha nenhuma porta.
A contradição central: um bloco que não é um bloco
Aqui está o que a cobertura da OCX geralmente deixa de lado: a organização não é um bloco político ou militar unificado, e analistas destacam que seus membros têm divergências significativas e interesses próprios distintos.
Essa frase merece ser desdobrada em casos concretos, porque as contradições são extraordinárias.
Índia e China têm uma das disputas de fronteira mais tensas do mundo — a Linha de Controle Real no Himalaia gerou confrontos com mortes tão recentemente quanto 2020.
Os dois países estão na mesma mesa em Bishkek e têm relações econômicas crescentes — mas também mantêm dezenas de milhares de soldados posicionados em altitudes que matam por frio mesmo sem combate.
Índia e Paquistão são rivais históricos, com três guerras, um conflito permanente na Caxemira e arsenais nucleares apontados um para o outro. Estão os dois dentro da OCX.
O Paquistão assinou há três semanas o Pacto de Meca com a Arábia Saudita e a Turquia — um acordo de defesa mútua que de certa forma reposiciona Islamabad numa rede de alianças que Délhi observa com atenção.
O Irã está na cúpula enquanto trava um conflito não resolvido com os Estados Unidos, com o prazo do cessar-fogo expirado e sanções secundárias recém-anunciadas pelo Tesouro americano.
Uma reunião bilateral entre Putin e o presidente iraniano Pezeshkian está prevista para terça-feira. Os dois têm muito a discutir — Rússia é parceira estratégica do Irã, compradora de petróleo iranianos e fornecedora de tecnologia e armamentos.
O que Xi e Putin trataram — e o que não foi o tema principal
Xi e Putin reuniram-se nesta segunda-feira. A guerra da Ucrânia foi discutida, mas esse não foi o tema principal do encontro entre os dois, afirmou o Kremlin, sem dar detalhes.
Essa frase do Kremlin é reveladora por aquilo que omite. A Rússia está em guerra desde fevereiro de 2022. O tema central da política europeia de segurança é esse conflito. E o Kremlin diz que não foi o principal assunto entre os dois líderes mais poderosos da OCX.
O que foi o tema principal, então? A construção da ordem alternativa à americana — comércio em moedas não-dólares, sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT, infraestrutura de conectividade que não passe por jurisdições ocidentais.
A China tem buscado ampliar o alcance e a influência da organização, prometendo assistência para o desenvolvimento e ajuda financeira. É o projeto de longo prazo que não rende manchetes mas que, se bem-sucedido, remodelaria a arquitetura econômica global.
A Ucrânia é urgente. A desdolarização é estratégica. Para Pequim, o segundo tema importa mais do que o primeiro.
Ratcliffe em Moscou há seis dias. Putin em Bishkek hoje.
Há um detalhe de calendário que vale notar. Em 25 de agosto — há seis dias — o diretor da CIA John Ratcliffe foi a Moscou num avião militar americano para, entre outras mensagens, pressionar a Rússia a cortar o apoio ao Irã. Hoje, Putin está em Bishkek reunido com o presidente iraniano numa cúpula onde a China, maior compradora do petróleo iraniano, também está presente.
A resposta tácita da Rússia ao pedido de Ratcliffe não poderia ser mais clara — nem mais discreta. Não houve declaração, não houve confronto. Apenas um presidente russo numa cúpula ao lado do presidente iraniano, seis dias depois de ter recebido o chefe da CIA com o pedido para cortar esse relacionamento.
O que a OCX é — e o que ainda não consegue ser
A OCX foi fundada em 2001 como fórum de segurança. Em 25 anos, cresceu em tamanho e influência — e também em ambição retórica. China e Rússia apresentam a organização como alternativa ao G7. Pequim a promove consistentemente como caminho para uma ordem mundial que não seja liderada pelos EUA.
O problema é que alternativas às ordens mundiais existentes exigem algo que a OCX ainda não tem: coesão. O G7 tem divergências, mas seus membros compartilham sistemas políticos, valores declarados e alianças de segurança formais.
A OCX tem a China e a Índia olhando um para o outro com desconfiança nas montanhas do Himalaia. Tem a Índia e o Paquistão com armas nucleares apontadas mutuamente.
Tem o Irã sob sanções americanas e em conflito ativo com Washington enquanto tenta se aproximar de um bloco que inclui a Índia, aliada crescente dos EUA.
É um bloco heterogêneo demais para ser a OTAN do Oriente. Mas é grande demais e economicamente significativo demais para ser ignorado.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil não é membro da OCX e provavelmente não será no futuro próximo. Mas a cúpula de Bishkek importa para o Brasil por razões concretas.
A Índia — que cresce 6,3% ao ano e se tornou a terceira maior economia do mundo — é um parceiro que o Brasil deveria cultivar mais do que tem. Modi é o único líder da cúpula de hoje que tem genuíno interesse em acabar com a guerra na Ucrânia e que mantém relações com todos os lados simultaneamente.
É o modelo de autonomia estratégica que o Brasil diz querer praticar — e que a Índia pratica de forma mais consistente.
A China — que está na OCX, no BRICS e é o maior parceiro comercial do Brasil — está construindo em Bishkek um mundo alternativo com regras diferentes das que o Brasil negocia com os EUA às 14h30 desta mesma segunda-feira.
E o Irã — em conflito com os EUA, sob sanções do “D-Day Econômico” de Bessent — está na mesma mesa que a Índia, que compra petróleo russo, e a China, que compra petróleo iraniano. Ambas as compras são exatamente o que Washington quer que parem.
Duas reuniões aconteceram hoje: uma entre Brasil e EUA em videoconferência, tentando normalizar o tarifaço. Outra entre Xi, Putin, Modi e o Irã em Bishkek, construindo alternativas à ordem que Washington representa.
O mundo de setembro de 2026 acontece nas duas salas ao mesmo tempo.

